“Um movimento vindo de baixo”
Entrevista com um ativista do Socialist Organizer* que participou nas manifestações
O que é que provocou as primeiras revoltas em Los Angeles?
As rusgas brutais da US Immigration and Customs Enforcement (ICE), a polícia federal de imigração. Sob as ordens de Trump, os seus agentes efectuaram rusgas nas ruas, nos locais públicos e nos locais de trabalho. Perante esta situação, vizinhos, colegas e advogados levantaram-se em protesto, procurando defender os detidos e encontrá-los nos locais de detenção. Houve mesmo manifestações à porta de um dos centros de detenção. No início, 99% das manifestações foram pacíficas. Foi quando Trump enviou a Guarda Nacional, disparando balas de borracha, que começou a escalada.
Foi um movimento espontâneo ou organizado?
Foi espontâneo, mas também um pouco organizado. Espontâneo, porque as pessoas não aceitavam ver os seus vizinhos e colegas presos. Mas também foi organizado, com a intervenção destas redes de advogados especializados na ajuda aos trabalhadores imigrantes, as chamadas Rapid Response Networks. É um movimento de base contra as rusgas aos trabalhadores imigrantes.
Qual foi a atitude do governador e do presidente da câmara de Los Angeles, que são membros do Partido Democrata?
O governador protestou contra Trump, criticando-o por ter ultrapassado as suas capacidades ao enviar a Guarda Nacional. Trump considera que há uma “invasão estrangeira” e que, por isso, a responsabilidade é sua. Mas, na rua, foi a polícia de Los Angeles e o município democrata que introduziram o recolher obrigatório. E os agentes da LAPD (polícia de Los Angeles – ndr) foram tão brutais como os federais do ICE. Há uma competição entre Trump e os democratas: quem deve liderar a repressão?
David Huerta, presidente do sindicato SEIU (serviços públicos) da Califórnia, foi detido. Qual é a reacção do movimento sindical?
Huerta estava presente numa rusga e foi brutalmente espancado e preso sob o pretexto de que estava a “obstruir” a rusga. O seu sindicato, SEIU, é muito activo e mobilizou um milhar de sindicalistas, incluindo trabalhadores da limpeza, para a sua libertação (foi libertado sob fiança a 10 de Junho). Numerosas organizações sindicais a nível federal protestaram, incluindo o SEIU a nível nacional, a Liga Latino-Americana de Sindicatos (LCLAA, filiada na AFL-CIO) e outras. Este facto está relacionado com o nível invulgarmente elevado de envolvimento do movimento sindical na convocação das manifestações de 14 de Junho.
Entrevista de Nelly Mary em 12 de junho
* Organização que, nos Estados Unidos, defende o programa da Quarta Internacional.
Construamos uma sólida frente unida do movimento sindical e das organizações populares!
Folheto do Socialist Organizer distribuído nas manifestações (extractos)
Caminhamos para a instauração de uma ditadura fascista, ligada à marcha para a guerra mundial? O perigo existe. Os trabalhadores e os jovens estão preocupados.
Mas face a este rolo compressor, desenvolve-se uma poderosa mobilização, como o demonstram as 1500 manifestações previstas para 14 de Junho. Entre os organizadores, há um grande número de sindicatos que afirmam que os nossos irmãos e irmãs imigrantes fazem parte da classe trabalhadora deste país, que é uma nação de imigrantes. Desta forma, o movimento operário afirma a unidade de todos os trabalhadores: imigrantes documentados ou indocumentados, ou cidadãos americanos de longa data. (…)
O regime de Trump está a intensificar a sua repressão contra os trabalhadores imigrantes. Durante as rusgas nos locais de trabalho, os agentes federais de imigração aterrorizam a população. Detiveram David Huerta, presidente do sindicato de serviços públicos SEIU do estado da Califórnia, que foi hospitalizado depois de ter sido violentamente atirado ao chão.
Estas rusgas desencadearam manifestações em massa em Los Angeles e na Califórnia. Quando o governo usa a violência e a força contra os trabalhadores imigrantes, não podemos ficar em silêncio. É nosso dever defender todos os trabalhadores, incluindo os trabalhadores imigrantes – os mais vulneráveis – contra a violência deste regime sem lei. (…)
No dia 8 de Junho, o Departamento de Polícia de Los Angeles declarou toda a baixa da cidade como “zona proibida”, apoiando Trump. (…) Isto confirma que o Partido Democrata e o Partido Republicano servem apenas os interesses dos capitalistas. Nós do Socialist Organizer acreditamos que a classe trabalhadora não pode confiar em nenhum dos partidos, Democrata ou Republicano. Ela precisa do seu próprio partido de trabalhadores. (…) Mas dada a situação dramática, não estamos a fazer desta posição uma condição para construir a indispensável frente unida dos trabalhadores e dos oprimidos para bloquear a ofensiva de Trump (…).
Será necessário todo o peso do movimento operário organizado, com os seus milhões de membros e centenas de milhões de dólares em fundos de greve, para acabar com a ocupação das nossas cidades pela Guarda Nacional e para defender os nossos irmãos e irmãs trabalhadores imigrantes. (…)
Chegou o momento de construir a todos os níveis – desde a mais pequena cidade até ao nível estatal e federal – a frente unida de todas as organizações sindicais e populares, para exigir
– a revogação de todos os ataques da administração Trump aos trabalhadores e aos oprimidos, a começar pelos imigrantes;
– o fim imediato de todas as deportações;
– o fim de todos os cortes orçamentais e despedimentos;
– a libertação de todos os presos por exercerem os seus direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição; – a retirada imediata da Guarda Nacional e dos fuzileiros navais das nossas cidades e bairros.