Como a guerra entre Israel e o Irão pode explodir ‘na 3ª Guerra Mundial’

Gideon Levy @Channel4News 18 Jun 2025 FourCast

Pouco antes dos bombardeamentos americanos de 22 de Junho no Irão, quando a agressão aérea de Israel ao Irão e a resposta do Irão se sucediam, avisava Trump que o dirigente supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, era um “alvo fácil”, Matt Frei, do Channel4News (canal do YouTube) entrevistou em Telavive, no último episódio de FourCast, o jornalista israelita Gideon Levy, muito crítico do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Vale a pena ouvir a conversa entre ambos para entender o que está em jogo e as saídas possíveis (ou ler a transcrição portuguesa junta, da responsabilidade de ainternacional.pt).

Trancrição em português

GL: Prazer em ver-te, Matt.

GL: Olha, não me vou pôr a apostar, porque tudo depende de uma figura que não é estável: ele deita-se à noite com uma ideia e acorda com outra. Não apostaria em nada. Este é realmente o momento crucial, porque se ele decide entrar, estamos num tipo de jogo, e, se decidir não entrar, noutro tipo de jogo totalmente diferente. Não dá para exagerar o dramatismo da situação.

GL: Sim e não. Em parte, tens razão. Sim, parece fácil: mandam-se uns B2 ou B52, e o problema fica resolvido, o Irão fica de joelhos. Só que, estas guerras, sabemos como elas começam, mas nunca sabemos como acabam. Pode acabar num fiasco. Não se sabe como as coisas se vão passar.
Por outro lado, ele comprometeu-se a não meter os americanos em nenhuma disputa…

GL: Exactamente. Por isso, o que ele vai fazer… a base dele não quer envolvimento nenhum, excepto os evangélicos malucos que acham que os judeus são o povo eleito, e Israel a terra prometida; excepto para esses maluquinhos…

GL: Exactamente, tirando esses — que são alguns milhões, mas, tirando esses, a base não quer!

GL: Piers Morgan, seu apoiante, é contra…

GL: Porque fareja uma vitória fácil — que pode nem ser fácil nem ser vitória — mas, a sê-lo, ele fareja a oportunidade de uma coisa bem sucedida, depois dos fracassos todos. Por outro lado, alguém tem de lhe sussurrar ao ouvido que isto pode acabar numa catástrofe. Não me parece que possamos confiar no discernimento dele — ele pode mudar de ideias dez vezes nas próximas horas.

GL: As próximas horas vão ser decisivas.

GL: É pensar no Vietname, no Afeganistão, no Iraque…

GL: Na Líbia. É pensar em como Israel se meteu numa guerra no Líbano em 82, é pensar em como Israel se meteu nesta guerra em Gaza, que parece que nunca mais vai acabar — começaram, agora sabem lá eles… Bem, suponhamos, bombardeiam Fordow. Depois os outros podem ripostar, inclusive contra bases americanas; se houver soldados americanos a levar, ele vai ter de fazer mais qualquer coisa; pode mandar tropas; dois minutos depois, os russos podem piscar os olhos… e pronto, estamos numa guerra mundial. O que eu quero dizer é que a situação é tão explosiva, que eu não tenho nenhuma certeza de que a vitória seja certa.

GL: Dá-me um exemplo, pelo menos no Médio Oriente, de uma guerra que tenha dado bom resultado. Posso-te falar eu das guerras de Israel: nenhuma delas, nem a Guerra dos Seis Dias, deixou Israel melhor. Nenhuma!

GL: Completamente.

GL: Não. Ele tem toda a razão em dizer que é o projecto da vida dele. É o projecto da vida dele, e, por isso mesmo, eu acredito realmente que ele o faz com uma convicção de certo modo genuína de que está a fazer o que é preciso…

GL: Pois, ele acredita… Não é só, nem tudo é a consideração cínica de que ele tem pela frente um julgamento, que tem a coligação que tem; não. O que ele anda a fazer, fá-lo porque acha que está a dar um passo histórico. O único problema é que, com todo o respeito pelo discernimento dele, o passo histórico pode acabar num fiasco histórico. Para Israel.

GL: Talvez não, mas não aposto, e não me parece necessário, porque ainda há a alternativa de voltar à mesa das negociações. E eu prefiro sempre a diplomacia ao morticínio.

GL: Mais do que isso. Ele falou no assunto ontem, numa entrevista. Ele foi criado numa certa atmosfera. O pai era um historiador conhecido, e ele foi criado, tal como muitos israelitas, debaixo da pesada nuvem do Holocausto, o Holocausto que nunca se pode permitir que se repita. Ora,  para essa gente, a mínima ameaça transforma-se num Holocausto, num segundo Holocausto, e, portanto, a mínima ameaça justifica qualquer reacção, porque passámos pelo Holocausto, porque não pode voltar a acontecer. Portanto, a mentalidade dele é uma mentalidade muito nacionalista, de alguém que está sempre certo e convencido de que está a poucos metros do extermínio; que o povo judeu, ou o Estado judeu, está a poucas semanas do extermínio, o que não é o caso…

GL: O sistema de lavagem ao cérebro de Israel trabalha para isso, e, por isso, está a caminho de ser uma maioria, sim, absolutamente. Fazem-nos uma lavagem ao cérebro sistemática para nos fazer acreditar que somos o povo eleito, que somos as maiores vítimas da história e que, por essas duas razões, temos o direito de fazermos o que quisermos. É essa a mentalidade.

GL: Sem dúvida, sem dúvida. Israel tem medo. Havia uma nuvem muito, muito pesada sobre as nossas cabeças. Porém, se o apoio a Netanyahu disparou em poucas horas, também pode cair em poucas horas. Neste momento, quando ele aparece como vencedor, quando a história parece ser bem sucedida, e, repito, estamos a cinco, seis dias do início, e todas as guerras que Israel lançou começaram maravilhosamente — mas muito pouco tempo depois chegou a factura. E o preço foi insuportável. Vamos a ver. Neste momento, para a maioria dos israelitas, parece ser a coisa certa a fazer e há muito quem mude de opinião sobre Netanyahu e o veja agora como o Messias.

GL: Eu formularia de outra forma. Eu diria: para Israel, a prioridade número um é sempre lançar uma guerra.

GL: A número um. A número dois será a diplomacia.

GL: E devia ser ao contrário.

GL: Com certeza. E negociar — ainda mais tarde.

GL: É olhar para Israel. Israel está agora na sua pior situação de sempre. É um Estado-pária, com uma sociedade quebrada, cansada… Chama-se a isto uma história de sucesso? Foi bem sucedido à sua criação, mas quando agora olhamos para o estado de espírito dos israelitas… o que eles andam a fazer é a procurar arranjar outro passaporte, um bilhete de saída. Isto não é vida normal nem uma sociedade normal.

GL: O principal marco recente é o 7 de Outubro. O 7 de Outubro fez os israelitas sair do armário, pelo menos os racistas, os nacionalistas e aqueles que não se comprometiam. Agora saíram do armário, racistas declarados e nacionalistas que cantam que os palestinianos não têm direitos neste pedaço de terra, que cantam que Israel tem o direito de fazer o que quiser por causa do 7 de Outubro. Mudou muitas mentalidades, principalmente da esquerda, da esquerda sionista e do centro-esquerda, que costumavam sonhar que planeávamos fazer a paz com os palestinianos. Agora, todos eles recuaram, já não acreditam em nenhum acordo com os palestinianos; até mesmo alguns dos meus bons amigos. Sim, todos eles pensam que o 7 de Outubro mudou tudo. Desde então, Israel já cometeu cem “setes de Outubro” em Gaza e eles não se dão conta disso.

GL: Porque existe um sistema de lavagem ao cérebro em Israel que os impede de o perceber. Porque os meios de comunicação israelitas colaboram: não com o governo, não com a censura — que quase não existe — , mas pela necessidade de agradar aos espectadores e aos leitores, de audiências e de vender jornais, e sabem muito bem que os israelitas não querem saber de Gaza e não sabem nada sobre Gaza. Choca-me o pouco que os israelitas, mesmo os mais inteligentes, sabem de Gaza. Acredita que qualquer pessoa nos subúrbios de Sheffield, no Reino Unido, sabe mais sobre Gaza, muito mais sobre Gaza, do que qualquer intelectual em Telavive.

GL: Ambos, ambos, ambos. Uma coisa alimenta a outra, porque, se quisermos realmente ver, há muitos meios de comunicação onde podemos ver; não queremos ver, e os meios de comunicação israelitas permitem-nos o luxo de não saber e de não ver e de não nos termos de incomodar…

GL: Bem, as pessoas, por um lado, têm muito orgulho em que Israel continua a viver a sua vida…

GL: Resiliência… Para mim, há aqui uma doença moral.
Como é possível, como se atrevem, quando, a uma hora daqui, foram chacinados 1000 bebés nos últimos 20 meses? 1000 bebés em menos de um ano! Não é nada connosco? Os autores foram os amigos dos nossos filhos e os filhos dos nossos amigos. E isso não nos preocupa, não nos incomoda? Não sentimos responsabilidade, reprovação, culpa, alguma coisa? Nada!

GL: Sem dúvida. Não acreditam em nenhum acordo. Acreditam em viver para sempre da espada. Só acreditam na guerra, na agressão, em medidas militares, mais nada, porque, dizem, os palestinianos não são parceiros para nada.

GL: É muito fácil fazer a quadratura deste círculo. Viste alguma manifestação contra a guerra por aqui? Digo contra a guerra, não digo pelos reféns, não digo contra Netanyahu. Digo contra os crimes da guerra.

GL: Nada. Achas que as pessoas estão cientes do que nós andamos a fazer em Gaza, a uma hora de distância? Não. Ninguém inteligente pode aceitar viver em negação. De um lado, pode-se dizer: “Bem, só se vive uma vez, deixem-nos lá viver uma vida normal”. Só que nós não temos direito nenhum de viver uma vida normal, porque nós criámos uma realidade anormal a uma hora de distância daqui. Portanto, não, não temos o direito de fazer uma vida normal.

GL: Não… não, não, de modo nenhum… não, não. Eles não se importam com ninguém que não seja judeu. O âmbito da nossa moralidade é delimitado por linhas nacionalistas muito claras. Preocupamo-nos apenas com o que acontece a Israel, aos israelitas, e principalmente aos israelitas judeus.

GL: Não só tens razão, como subestimas o problema. Pode-se realmente definir Israel como uma democracia? Bem, é uma democracia, uma democracia liberal até, mas para os cidadãos judeus…

GL: Eu sou o melhor exemplo disso.

GL: Não, não gostam. Mas deixam-me falar. Pelo menos até certo ponto, porque estou totalmente proibido de aparecer na televisão israelita desde que esta guerra começou. Eu costumava aparecer muitas vezes na televisão. Agora já não. Mas enfim, não há problema. Eu não sou a vítima desta guerra. Mas como é que se pode ser uma democracia quando 5 milhões de pessoas vivem sob a nossa tirania brutal na Cisjordânia e, de outra forma, em Gaza? Como é que estas zonas podem ser definidas? Fazem parte de Israel!

GL: Fazem parte de Israel “de facto”; e fazem parte de Israel porque é o governo de Jerusalém quem decide o seu destino, mais ninguém. O governo de Jerusalém define o destino da população de Gaza e decide o destino da população da Cisjordânia.

GL: Devo dizer que, para mim, essa é uma questão menor. A Cisjordânia foi anexada há muito tempo. Vai lá à Cisjordânia; vês alguma diferença? É uma região de apartheid. Em absoluto. Não há outra maneira de a definir. Mas para os judeus, qual é a diferença entre estar na Cisjordânia e em Telavive? É a mesma lei, a mesma moeda, tudo! É o mesmo poder.

GL: Estou hesitante porque eles merecem realmente um Estado palestiniano, merecem-no realmente.

GL: Pior do que isso: continuar a falar em solução de dois Estados faz o jogo da ocupação.

GL: Porque toda a gente sabe que já não há lugar para um Estado palestiniano, com 700 mil colonos violentos na Cisjordânia. Não há espaço. Vai lá e olha para a Cisjordânia como ela é.

GL: Nem “queijo suíço” é. São eles que governam essa terra, são os senhorios da região. Por isso, acreditar que haja uma força política que vá conseguir evacuar a Cisjordânia… Se me disserem: um acordo assim ainda é possível; eu serei o primeiro não só a concordar, como a entusiasmar-me por ele! É a solução mais lógica. Dois povos partilham um pedaço de terra. Partilhemos a terra! O que é mais justo e lógico do que isto? O problema é que o comboio já saiu da estação. Se não quisermos perceber, se continuarmos a falar em solução de dois Estados, em que há na prateleira uma solução qualquer a que um dia recorreremos, então é para continuar tudo na mesma, ocupação para sempre.

GL: Sem dúvida. Até Netanyahu há muitos anos falava em solução de dois Estados. E depois? Bom, vamos a ver…

GL: A mais simples: a democracia. Já ouviste falar em democracia?

GL: Eu digo-te. Numa democracia há direitos iguais…

GL: Um Estado: uma pessoa, um voto. Que mais há, se não for isso? A verdadeira escolha neste momento é entre um Estado de apartheid ou uma democracia. Na minha opinião, não existe uma terceira via. Nós temos de escolher, a comunidade internacional, incluindo o vosso primeiro-ministro, tem de escolher o que prefere: um Estado de apartheid ou uma democracia? Tudo o mais não passa de conversa fiada.

GL: Então, qual é a alternativa?

GL: Se não há alternativa… eu não estou disposto a desistir, a dizer que não há solução. Todas as guerras acabaram, todos os conflitos da história acabaram um dia. A Alemanha é actualmente o melhor aliado de Israel na Europa. Há 100 anos, a Alemanha era o pior, o pior inimigo do povo judeu. Quem havia de acreditar que a Alemanha, no espaço de algumas décadas, passasse a ser o melhor aliado? As coisas mudam, as coisas mudam. Não se pode julgar o futuro com base no presente. O presente não parece muito prometedor… mas pelo menos temos uma visão. Se dissermos “não” à solução de dois Estados e “não” à solução de um Estado, ficamos de mãos a abanar: a viver pela espada e a morrer, de 2 em 2 ou 3 em 3 anos, outro ataque, de 2 em 2 ou 3 em 3 anos, mais mortes. Quem é que quer viver tal vida?

GL: A curto prazo, talvez, mas a longo prazo, nenhuma diferença! Que mais dá? A guerra não acaba! Outro inimigo haverá, outra tirania brutal que quererá exterminar Israel, e Israel que continuará a manter a ocupação, a manter o apartheid e a fazer todos os possíveis para ninguém o aceitar na região.

GL: Pois, havia uma estação de táxis a 5 minutos daqui, pagava-se 10 shekels, o que equivale a 2 libras, e podia-se ir a Gaza em 45 minutos, era mesmo aqui atrás de onde nos sentámos…

GL: Para almoçar, pois, saía-se mesmo daqui de trás do sítio onde estamos sentados.

GL: Por causa da política, por causa da megalomania de certos políticos, de ambos os lados, aliás,…

GL: …se considerarmos o quadro social, a sociedade real, é surpreendente como palestinianos e israelitas conseguem encontrar uma língua comum. É pegar em dois palestinianos de um dado meio social e em dois israelitas do mesmo meio social e fechá-los numa sala durante um tempo: encontram logo muito mais coisas em comum do que um israelita e um britânico.

GL: Não podia estar mais de acordo, não podia estar mais de acordo. E, já agora, Gaza é o verdadeiro perigo para a existência de Israel a longo prazo…

GL: Porque é Gaza que define a natureza de Israel, porque Israel é definido por aquilo que está a fazer em Gaza, e Israel tornar-se-á um Estado pária não por causa do Irão, mas por causa dos crimes em Gaza. Gaza é o problema-chave e ninguém se atreve a resolvê-lo.

GL: É a pior altura para me fazeres essa pergunta, porque daqui a duas horas já posso estar errado…

GL: Pois, é um problema.

GL: A questão, a verdadeira questão, é que agora, se Donald Trump entra em cena com os seus jactos, então podemos enfrentar uma fase dramática nesta guerra que pode acabar muito em breve, porque se ele bombardear Fordow, pode ser que ela acabe muito cedo…

GL: É possível, é possível.

GL: Agora, agora dirão isso. Mas talvez o regime se desmorone, porque ficariam muito isolados, ainda mais do que estão hoje, e muito fracos, porque não se esqueçam que este regime mostrou agora ao seu povo que todas aquelas grandes histórias sobre a sua força se desmoronaram em cinco dias… Então 200 jactos israelitas podem sobrevoar Teerão livremente, e não há nenhum sistema de defesa!? Nada, nada, nada. Como se fosse o mais desgraçado Estado africano! Como pode isto ser? E as pessoas vêem e dizem: durante todos estes anos gastaram tanto dinheiro, tantos orçamentos para nos defendermos, para construirmos este poder militar, e olhem a que ponto chegámos. Centenas de milhares de pessoas a saírem de Teerão sem qualquer protecção, nada!
Portanto, isto pode dar em muita coisa, mas, mesmo assim, insisto, continuo a acreditar que tudo é pior do que um acordo diplomático. É a única garantia de haver futuro. Tudo o resto é bom para os generais e os políticos armarem, mas não vai resolver nada, nada.