O que nos disse e nos traz a cimeira da NATO

Cimeira da NATO da Haia

Que nos diz o massacre cientificamente levado a cabo pelo Estado sionista de Israel na Palestina, que nos diz o bombardeamento do Irão, primeiro por Israel, depois pelo exército americano, que nos dizem o cerco da NATO à Rússia e a guerra na Ucrânia, que nos dizem os preparativos em Washington de guerra contra a China; que nos dizem todas as guerras em curso ou em preparação no mundo?

Dizem-nos que o imperialismo, acima de todos o imperialismo americano, deixou de ter uso para as roupagens diplomáticas do “direito internacional”, para as instituições da “comunidade internacional” — para todo o simulacro de “ordem” mundial.

Entrámos numa era de “quero, posso e mando”. Sem freios.

Trump anunciou ao mundo, a começar pelos seus pequenos e médios anõezinhos da NATO/UE: quem não obedecer, é atropelado; quem resistir, é bombardeado, massacrado, destruído.

Esse é o contexto e essa a mensagem da cimeira da NATO deste mês de Junho, na Haia.

Coadjuvado pelo seu fiel perdigueiro Rutte, Trump leu, em cinco parágrafos, a ordem do dia: toda a gente entra em modo de economia de guerra. Já.

Todos (todos, todos, todos eles, incluindo o comediante Sánchez, do Estado espanhol) vão, a toque de caixa, multiplicar as suas despesas militares por cinco ou seis nos próximos anos.

Mas a cimeira da Haia não nos diz só isso.

Desta vez, em prevenção, por exemplo, de aldrabões avençados, Washington (“a NATO”) vai verificar a par e passo o andamento e a aderência do “planeamento” e execução dos gastos de cada país membro (é o 3º parágrafo da declaração da Haia). É o género de tutela que a Comissão Europeia exerce sobre os orçamentos dos Estados da UE.

A orgia de despesa militar

Para ter uma ideia da orgia que aí vem: nos Estados Unidos, os astronómicos gastos militares actuais são de 1 bilião de dólares (1 seguido de doze zeros; mais do triplo de todo o PIB português). São, com a NATO, superiores aos do resto do mundo junto.

A nova “meta” representa um aumento de mais de 40% desse nível da despesa!

Tais novos níveis de despesa comprarão, como é evidente, um aumento brutal da produção de armamento. O mundo vai ficar a deitar por fora de máquinas avançadíssimas de matar a granel: bombas nucleares “estratégicas” e “tácticas”, submarinos nucleares, porta-aviões, tanques, drones, mísseis balísticos, inevitavelmente com a sua mortífera eficácia exponenciada pelo uso da “inteligência artificial”.

Esta produção converter-se-á em facturação, sobretudo dos gigantescos grupos americanos de armamento. A facturação, finalmente, dará lugar ao consumo”, gargantuesco, na forma de guerra mundial ou guerra em mundialização acelerada. A barbárie, na palavra consagrada.

E em Portugal?

E que significam as ordens de Trump para Portugal, ordens que o grumete Montenegro vai cumprir?

Isto: se o ritmo de crescimento do PIB português se mantiver ao nível do dos últimos dez anos, em 2035 a despesa militar portuguesa passará dos actuais menos de 5 mil milhões de euros (5mM€) a quase 30 mil milhões!

Há termos de comparação possíveis:

— a despesa pública actual com saúde representa cerca de 28mM€. Metade ou mais, aliás, já vai para pagar privados: farmacêuticas, exames, cirurgias em privados pagas pelo público…;

— nos últimos dez anos, o investimento público total foi 2,1% do PIB (foi o mais baixo da UE; a média da zona euro foi 3,2%); 

— o total acumulado do investimento público nos últimos dez anos foi de menos de 49mM€. Como o investimento se amortiza, o investimento público foi negativo: o Estado não repôs o necessário para manter o que há. Nota-se isso no estado dos hospitais, das escolas, na habitação pública, na ferrovia, etc. 

Ora, o total acumulado do que se pretende gastar na guerra nos próximos dez anos serão mais de 120 mM€

Não vão tocar no “Estado social“?

Montenegro e companhia avençada pretendem que se pode fazer tudo isto sem tocar naquilo que sói chamar-se “Estado social” e que são os direitos colectivos dos trabalhadores ganhos na sequência da revolução de 1974 inscritos em letra constitucional ou de lei.

Será possível? Uma conta orçamental simples diz-nos que a despesa militar é hoje de 1,5% do PIB. Para chegar a 5% do PIB em dez anos, se nada mais se alterar na composição relativa da despesa pública, o saldo orçamental passa de ≈ 0% (“equilíbrio”, “contas certas”) a -3,5% do PIB — o que é incompatível com os critérios da Comissão Europeia. Aliás, Portugal foi dos primeiros a pedir para que até 1,5% da despesa militar passe a “não contar” para o sistema de pecado europeu contra as contas certas. Nota: claro que “não contar” não significa que o défice não esteja lá; nem que, se as condições financeiras voltarem a exigi-lo, a UE se coíba de apertar o garrote outra vez…

Assim, sem ter em conta, por exemplo, descidas de impostos e outras medidas que aumentam mecanicamente o défice, e sem considerar outras pressões austeritárias que possam surgir por via de recessões e crises económicas, financeiras, monetárias, etc., nos próximos dez anos os governos terão de cortar pelo menos 60 mM€ acumulados em despesa pública para poder acomodar as ordens de Trump e manter o orçamento equilibrado. Ora, bem menores cortes bastariam para destruir completamente o chamado Estado social, sem deixar rasto… 

 Em suma, Montenegro mente com quantos dentes tem na boca (observação televisiva atenta mostra que ele tem muitos). E sabe que mente.

Não é só o Estado social que eles vão tentar destruir

A era Trump, particularmente agora, com o cacete da despesa militar oficialmente adoptado, significa ainda mais algumas coisas.

Os milhares de milhões da guerra não são meramente mais despesa aqui, menos despesa ali. Não determinam apenas a destruição sistemática e organizada da despesa social.

Nos Estados da NATO, particularmente nos mais pequenos e impotentes, o sistema de propaganda pela mentira despudorada e sem limites no discurso público, que tem sido particular apanágio da extrema-direita, vai obrigatoriamente ter de estender-se a todo o establishment político. Montenegro já mostrou o caminho no seu primeiro ano de governo.

Porém, os milhões da guerra impõem mais: impõem que tudo o que possa dificultar a aplicação dum programa de tal vulto tenha de ser sujeito a repressão cada vez mais feroz — particularmente do direito à greve e da liberdade de organização dos trabalhadores. O barulho de Montenegros e Venturas à volta da “regulação” do direito à greve não vem por acaso.

Na mesma lógica, os milhões da guerra também impõem reprimir ferozmente tudo o que, articulando a verdade dos factos, estorve a aplicação da lei da guerra. A liberdade de expressão e opinião será rapidamente alvo prioritário.

O novo edifício da guerra depende de a “mentira estrutural“ criar alicerces profundos. O edifício só se pode manter se sobre quem ousar dizer a verdade impender castigo fulminante. 

O jornalismo livre vai estar na linha de mira directa. 

Estamos a assistir aos inícios de um programa completo de evolução dos regimes da “democracia liberal” em ruínas para fortalezas bonapartistas ou (semi)fascistas. 

É isto que nos diz a cimeira da NATO da Haia.

Saibamos responder à altura.