Com a escalada da marcha generalizada para a guerra nas últimas semanas – genocídio em Gaza, bombardeamento do Irão, cimeira da NATO – e na sequência do Encontro Internacional de Emergência Contra a Guerra Imperialista Mundial, que o Parti des travailleurs organizou em França em 21 e 22 de Março de 2025, foi organizada uma reunião de emergência por videoconferência no domingo, 29 de Junho. A reunião contou com a participação de activistas e representantes de organizações de trabalhadores de trinta e sete países: Afeganistão, Argélia, Argentina, Austrália, Bangladesh, Bélgica, Brasil, Burundi, Canadá, China, República Democrática do Congo, Egipto, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Haiti, Hungria, Islândia, Índia, Indonésia, Irão, Itália, Japão, Líbano, México, Marrocos, Paquistão, Palestina, Filipinas, Portugal, Rússia, Espanha, Togo, Turquia, Estados Unidos e Zimbabué. Publicamos aqui um primeiro relatório.
“Ninguém quer dizer estas palavras”
Na sua introdução, Daniel Gluckstein (Parti des travailleurs) salientou que “um dos principais problemas com que os trabalhadores estão confrontados é: onde está o movimento operário face à barbárie? ” Em Gaza, prosseguiu, “se existisse um ‘direito internacional’ – um conceito que eu pessoalmente rejeito como sem sentido – então as nações que se dizem reger por ele deveriam ter rompido todas as relações com Israel há muito tempo, a fim de isolar esse Estado, impedi-lo de continuar o seu genocídio e forçá-lo a deixar entrar a ajuda alimentar. O problema com que nos deparamos em França é que ninguém quer dizer as palavras: “Romper todas as relações com Israel”: nem Macron, nem nenhum dos líderes dos partidos de ‘esquerda’, das organizações sindicais, das correntes de “extrema-esquerda”. Algumas figuras proeminentes, juntamente com o PT, lançaram um apelo nesse sentido. Mas até quando essa barbárie vai continuar no silêncio ensurdecedor dos governos e dos partidos de esquerda? A ruptura com Israel deve ser uma exigência democrática de todas as organizações comprometidas com os direitos humanos e os direitos dos povos“. Por isso, sugeriu aos participantes discutirem uma iniciativa conjunta em todos os países, para que as forças do movimento operário exijam dos governos a ruptura de todas as relações com Israel. Propôs as datas de 6 a 9 de Agosto, octogésimo aniversário dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki.
“O preço pago pelos povos da região é cada vez mais elevado”
“Penso poder afirmar que as organizações de esquerda do Irão, que ninguém poderia suspeitar que não fossem inimigas declaradas do regime dos mulás, condenaram todas os bombardeamentos, obra de um governo genocida”, recorda um activista iraniano. Porque, com esta nova agressão, “o preço pago pelos povos da região é cada vez mais pesado”, acrescentou um participante libanês, “O Irão depois de Gaza, o Líbano, a Síria… em resultado do projecto israelo-americano de guerra contra todos os povos”.
Uma guerra que conta com a cumplicidade de todos os regimes da região, denunciou um militante operário de Marrocos, que recordou que “o regime marroquino manteve relações políticas secretas (com Israel, ndr) até à actual ‘normalização’ total. Mas os trabalhadores marroquinos manifestaram-se quase diariamente contra a normalização. Os trabalhadores portuários, juntamente com os sindicatos da União Marroquina do Trabalho, opuseram-se ao envio de armas para o Estado genocida“.
Milhares de pessoas anónimas participaram na “Marcha Mundial sobre Gaza”
Mesmo com a cumplicidade do governo Modi na Índia, salienta Nambiath Vasudevan (Trade Union Solidarity Committee, Índia), um governo “que apoia o Estado de Israel, apesar de muitas organizações progressistas terem manifestado a sua solidariedade com o povo palestiniano”. O governo de Yunus no Bangladesh também é cúmplice, diz Mishu Mushrefa, presidente do Partido Revolucionário Democrático do Bangladesh. Yunus concordou “com o estabelecimento de fábricas de armas turcas e do Qatar. Não podemos permitir que o nosso país se torne uma base de retaguarda para a agressão imperialista“.
Naji El Khatib, militante palestiniano que luta por um Estado único, laico e democrático, sublinha que “estão a surgir numerosas iniciativas, como a marcha mundial sobre Gaza, na qual participaram milhares de pessoas, muitas das quais nunca tinham sido activistas, mas que se uniram neste ato de internacionalismo. E não é um acaso que o regime egípcio tenha usado todas as suas forças repressivas para tentar bloquear a marcha“.
A guerra está a alastrar a todos os continentes
Vários oradores estabeleceram a ligação com outras facetas da marcha para a guerra generalizada. “Na República Democrática do Congo, vizinha do nosso país“, disse um dirigente do Partido dos Trabalhadores e da Democracia do Burundi, “a assinatura de um acordo de paz em Washington, a 27 de Junho, tem como único objetivo garantir que o imperialismo americano e as suas multinacionais tenham acesso aos minerais estratégicos e a outras riquezas da RDC. Isto não pode deixar de amplificar a guerra que há trinta anos vem sendo mantida pelas multinacionais, diversos grupos e potências!“
“Os recentes confrontos militares entre a Índia e o Paquistão e entre Israel e o Irão puseram mais uma vez em evidência a instabilidade da situação de segurança e a fragilidade da paz na região”, observa um dirigente sindical do Paquistão, enquanto um activista da Esquerda Radical do Afeganistão (LRA) salienta que “a história mostra que as intervenções militares dos Estados Unidos e da NATO nunca trouxeram liberdade e democracia. Tivemos duas décadas de experiência sangrenta disso no Afeganistão. Para os Estados Unidos e os seus aliados, apenas os seus interesses económicos contam: não a democracia, os direitos humanos e muito menos os direitos das mulheres“.
A guerra, recorda um militante mexicano, é também aquela “que assume a forma da subordinação do México às políticas do seu poderoso vizinho imperialista, que militariza a fronteira e criminaliza os migrantes”.
A ameaça de uma guerra dos EUA contra a China está a tornar-se mais clara
Nenhuma região do mundo está imune, como salienta um representante do Labor Action China, “preocupado com o aumento das disputas comerciais entre os Estados Unidos e a China e com a deterioração da situação no Estreito de Taiwan e no Mar do Sul da China. O capitalismo americano quer controlar os recursos para explorar o mundo“.
Estas ameaças foram confirmadas por um activista do Sindicato dos Professores Universitários do Japão: “As ameaças de guerra contra a China reflectem-se actualmente no reforço das bases militares dos EUA, como em Okinawa, e na propaganda anti-chinesa. Uma verdadeira luta contra a guerra deve pôr em evidência o seu carácter imperialista. Da Ucrânia à Palestina, passando pela China: é uma guerra generalizada única, produto da crise do capitalismo“.
Para Randy Miranda, do Partido dos Trabalhadores das Filipinas, “as raízes do conflito são interesses imperialistas e a guerra tem consequências para os trabalhadores. Temos também de apelar aos trabalhadores de Israel para que se oponham à guerra“.
“O principal inimigo dos trabalhadores são os próprios governo dos seus países”
O militante operário alemão Heinz-Werner Schuster recorda que “a palavra de ordem do socialista Karl Liebknecht, de 1915, ”O principal inimigo dos trabalhadores é o seu próprio governo“, é perfeitamente atual. O governo Merz estabeleceu como objetivo criar o maior exército da Europa. E com as decisões tomadas na cimeira da NATO, o equivalente a 2.200 euros por habitante da Alemanha – desde as crianças até aos idosos – terá de ser roubado à classe trabalhadora para financiar o orçamento de guerra“.
Uma guerra contra os trabalhadores que assume as formas mais brutais, inclusive nos Estados Unidos. Como recorda Berthony Dupont, chefe de redação do semanário Haïti Liberté, “a administração Trump acaba de anunciar que põe em causa o estatuto de proteção temporária de que beneficiam 700.000 haitianos, ameaçados de deportação já em Setembro”. Coral Wheeler, sindicalista (Estados Unidos) testemunha: “Em Los Angeles, onde vivo, a polícia federal de imigração está a fazer rusgas por todo o lado, a prender trabalhadores imigrantes. Mas o povo resiste a esta repressão e contra o genocídio na Palestina: 12 milhões de americanos manifestaram-se contra isto no dia 14 de Junho“.
“O movimento sindical nos Estados Unidos está demasiado silencioso”
Voltando aos problemas do movimento operário levantados no relatório, Chris Silvera, dirigente dos Teamsters de Nova Iorque, comenta: “O movimento sindical nos Estados Unidos está demasiado silencioso, não está a enfrentar activamente o genocídio em Gaza, repito-o em múltiplas ocasiões. Os sindicalistas devem opor-se à marcha para a militarização, recusar que esta absorva os impostos dos trabalhadores, destruir esta máquina de guerra, educar os sindicatos sobre a política do imperialismo“. Isto é tanto mais importante quanto, em todo o mundo, “muitas organizações sindicais rejeitam a negação dos direitos nacionais do povo palestiniano”, salienta o presidente da Federação Indonésia dos Trabalhadores dos Aeroportos.
Da mesma forma, diz uma professora universitária ativista no Brasil: “em São Paulo, Rio e Porto Alegre, os trabalhadores brasileiros mobilizaram-se, juntamente com organizações sindicais, partidos de esquerda como o PSOL e o PCdoB e as bases do Partido dos Trabalhadores, para exigir que Lula rompa todas as relações com Israel. Mas há um verdadeiro divórcio entre o povo, os trabalhadores e esse governo de esquerda“, disse ela, conclamando-nos a ”continuar mobilizados para exigir que o governo Lula rompa estes laços“.
“Apoiamos a proposta de coordenar a nossa acção nos dias 6 a 9 de Agosto, para exigir que os governos ocidentais rompam com Israel, e de, para tal, nos dirigirmos ao movimento dos trabalhadores, como os sindicatos palestinianos da PGFTU nos convidam a fazer”, disse a partir de Melbourne um activista da Workers International Discussion (Austrália).
Lorenzo Varaldo, director do jornal Tribuna Libera, da delegação italiana, sublinha que esta exigência está a aumentar. Em Turim, por exemplo, “a associação ‘Escola para a Paz’ convocou uma assembleia no final de Maio, apelando a uma manifestação em meados de Junho para exigir a ruptura de todas as relações diplomáticas, económicas e militares com Israel, na qual participaram milhares de trabalhadores, professores e estudantes”.
“A questão de Gaza concentra a barbárie e a resistência”
A concluir a reunião, Daniel Gluckstein resumiu as avaliações e decisões que foram objeto de consenso entre os participantes.
A situação mundial agravou-se dramaticamente nas últimas semanas.
Em primeiro lugar: a continuação do genocídio do povo palestiniano em Gaza, com total impunidade e com a cumplicidade de Trump e das grandes potências, mostra ao mundo inteiro a verdadeira face da barbárie que o imperialismo reserva a todos aqueles – trabalhadores, povos oprimidos – que lutam contra as suas políticas.
Em segundo lugar: a agressão ao Irão por parte do imperialismo norte-americano e do seu braço armado Israel significa que o imperialismo diz que fará o que quiser, quando quiser e onde quiser. Concordamos em dizer aqui, com as organizações de esquerda, com as organizações sindicais, com as organizações de mulheres do Irão, que partilhamos o ponto de vista que foi magnificamente resumido pelas mulheres presas na prisão de Evin (Teerão), nomeadamente que “a libertação do povo só poderá ser obra da luta das massas”, e não dos bombardeamentos americano-israelitas.
Em terceiro lugar: a cimeira da NATO, com a sua decisão de aumentar os orçamentos militares dos países da NATO para o espantoso nível de 5% do produto interno bruto, marca um passo no sentido da militarização da economia mundial e prepara o caminho para novas guerras – camaradas da China, das Filipinas e do Japão falaram das ameaças de uma nova guerra contra a China, camaradas do subcontinente indiano falaram da recente guerra entre a Índia e o Paquistão, foram mencionadas guerras em África… Estes enormes orçamentos militares destinam-se a ser utilizados em futuras guerras, e também nas guerras contra os trabalhadores dos países imperialistas.
No seguimento da Reunião Internacional de Emergência Contra a Guerra Imperialista Global (21-22 de Março), creio que todos concordaremos com exigências básicas como a retirada de todas as tropas de ocupação estrangeiras de Gaza, da Cisjordânia e de toda a Palestina, da Ucrânia, da República Democrática do Congo e de todas as outras regiões do mundo. Concordamos também com a necessidade de romper com a NATO e com os seus orçamentos de guerra astronómicos, que sugam toda a riqueza das nações.
Na discussão, a questão particular da posição do movimento operário e das organizações sindicais e políticas que se dizem fazer parte dele foi destacada – pelo camarada brasileiro ou em relação ao movimento sindical dos Estados Unidos. Ninguém pode aceitar que partidos que se dizem de “esquerda” se recusem a romper com Israel – sobretudo quando estão no poder – ou apoiem governos que fazem a guerra e os seus orçamentos de guerra, como acontece na Europa.
Finalmente, a questão de Gaza concentra tanto a marcha para a barbárie como a necessidade de resistência à barbárie. Afirmamos – como disse o camarada palestiniano – o nosso apoio a todas as iniciativas para levantar o bloqueio a Gaza e pôr fim aos massacres, e, para além disso, a necessidade de obrigar os “nossos” governos a romperem todas as relações diplomáticas, militares, económicas e comerciais com o Estado de Israel, como meio de pressão para pôr fim ao genocídio e levantar o bloqueio assassino.
É da responsabilidade do movimento operário, dos sindicatos e das organizações políticas, utilizando todos os meios de acção, convergir para a exigência de ruptura de relações com Israel.
Nesta base, propomos como primeira iniciativa conjunta que, entre 6 e 9 de Agosto – datas do 80º aniversário dos terríveis bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki – nos dirijamos a todas as organizações de trabalhadores e democráticas, organizações de defesa dos direitos humanos e activistas que amam a liberdade e a justiça, sob formas adequadas, para fazer ouvir esta exigência: romper todas as relações com o Estado genocida!
Com base nestas actividades, que serão relatadas no boletim informativo em três línguas, definiremos os próximos passos na luta para obrigar o Estado genocida a recuar.