Realizou-se no dia 29 de Junho, em Lisboa, uma reunião promovida pelos iniciadores de um manifesto “por um Portugal livre, justo e solidário”, posto à subscrição geral semanas antes.
O manifesto denunciava a “erosão do Estado social”, a “persistência de um nível de pobreza chocante”, a “consolidação de uma enorme desigualdade na repartição do rendimento e da riqueza em desfavor do trabalho”, etc.
Denunciava também, com razão, que tudo isto foi agravado pela união monetária.
No entanto, o manifesto não apela à organização e luta de classe dos trabalhadores para reverter a situação e derrubar o capitalismo, fonte de todos os males apresentados.
Em vez disso, acha necessário “eliminar a pobreza severa” (deixando apenas a pobreza meiga?!), “realizar muito investimento, público e privado” e exigir, “no quadro da actual UE, (…) uma firme e soberana negociação das orientações da Comissão Europeia, o uso de toda a margem de manobra existente nas normas comunitárias, e a procura de alianças políticas no Conselho Europeu”.
As políticas que o manifesto propõe são, no essencial, idênticas às que têm sido defendidas por organizações como o Bloco de Esquerda.
Baseiam-se em aceitar (como inevitável?) a ordem existente, nomeadamente a ditadura das instituições da União Europeia e dos seus senhores de Washington, pretendendo simplesmente melhorá-la através de “negociação firme” dentro das “margens de manobra” dos tratados… exigência que já seria absurda se a União Europeia tivesse sido acabada de criar; dezenas de anos depois, é, pelo menos, pérfida…
Capitalismo, imperialismo, sim senhor, que remédio, mas se faz favor, com um rosto mais humano ou, pelo menos, com pobreza menos “severa”: mais… alegrete, meiguinha?!
O nosso camarada Bento Correia assistiu à referida reunião pública, que atraiu algumas dezenas de pessoas em Lisboa. Fez a intervenção que se reproduz aqui.
O PREC não é saudosismo, é o nosso legado
Em 2019, José Mário Branco respondia a Rita Sousa Vieira, da SAPO Notícias, com fundada opinião política. Dizia ele: “sou agora mais subversivo do que nunca, continuo a achar que o motor que comanda isto tudo é a luta de classes, a exploração do homem pelo homem”.
Dizia ainda o Zé Mário que a social-democracia faliu, vergada ao neo-liberalismo, e acrescentava (lembrando Antero de Quental) que a nossa resposta poderia e deveria ser: não disputeis, curvado o corpo todo, as migalhas do banquete. Erguei-vos e tomai lugar à mesa.
Lamentavelmente, não foi assim que agiram o Bloco e o PCP, depois de darem a mão a António Costa. Já aí, apesar de 36 deputados que valiam a maioria de esquerda, disputaram, curvados, as migalhas do banquete. Disputaram curvados, porque tinham desistido de lutar pela alternativa de poder, entretidos que estavam a inventar remendos para as crises do sistema. Não queriam, nem querem, ver que não há remendos suficientes que impeçam o colapso do capitalismo, cujos sinais estão agora em todo o lado.
Os resultados estão à vista: falsas ilusões no reformismo, falsa concertação social, conciliação de interesses de classes inconciliáveis, que deram a derrota histórica das esquerdas, cujo pano de fundo está agora claro.
As direitas, todas as direitas, ao serviço dos interesses do capital, agora com 2/3 do parlamento, olham com desprezo, de forma provocatória, para essas esquerdas curvadas e, com o PS de joelhos, avançam para os seus objectivos, a saber, tornar a lei da greve completamente inofensiva e esvaziar da constituição (já de si letra morta) o que possa atrapalhar os negócios privados. Ou seja, tudo é mercadoria, tudo deve ser rapidamente lucrativo, a favor da ganância capitalista. As direitas vêem a oportunidade de acertar contas com o que resta das conquistas de Abril, alcançadas pelo movimento revolucionário de há 50 anos.
O programa reaccionário “do Luís” é a primeira peça do puzzle, uma farsa que esconde as verdadeiras intenções. Mesmo assim, foi aprovado pelo PS.
É agora claro: o 18 de Maio encerrou o ciclo político de meio século. Mas há um legado que é nosso, que dá um sentido à luta.
– A luta política de oposição às direitas deve ligar a experiência do movimento revolucionário com a nova massa dos trabalhadores, pelos seus interesses e reivindicações próprios. O associativismo popular, as comissões de trabalhadores e sindicatos, devem participar nessa importante tarefa. Aos movimentos dos trabalhadores cabe levantar as reivindicações por salários e pensões dignos, também pela saúde e formação, pelo ensino público, pela cultura e o desporto, também pela habitação digna para todos e também pela sua democracia de base. Será por aqui, com os movimentos climáticos, feministas, anti-racistas, pela habitação para todos etc., que se arranjarão forças para enfrentar e derrotar as direitas e o fascismo.
Os fóruns, mesas de debate, o apoio às lutas de trabalhadores devem multiplicar-se. As direitas têm de enfrentar não os cozinhados que sirvam elites e minorias privilegiadas, mas uma grande frente anti-capitalista, que levante as reivindicações genuínas das populações, os direitos autênticos do trabalho, do lazer e da cidadania.
– A luta pelo socialismo chegou com história ao 25 de Abril, mas aquela luta intensa e transformadora, travada nas ruas, nos locais de trabalho, nos campos e nos bairros das nossas cidades e vilas, que elevou a consciência política do povo português a patamares nunca antes alcançados, essa, é o nosso legado. A derrota do PREC trouxe um longo recuo na intensidade das lutas dos trabalhadores, também da luta progressista em geral, porém, tratou-se de um primeiro grande embate com o velho sistema do capital, cuja profundidade foi ainda insuficiente para chegar à vitória final. Mas é preciso recusar e voltar a recusar a ideia burguesa de que se tratou de uma derrota definitiva da nossa revolução.
Nas dificuldades, as ideias do socialismo têm conhecido uma profunda reflexão e renovação, visam combinar melhor os princípios revolucionários da terra da fraternidade com o poder popular, com a democracia dos trabalhadores, com a cultura e o conhecimento. Trata-se de um processo lento, ainda disperso, mas está a fazer-se, orientado para esse grande objectivo, alcançar, pela revolução social e popular, a nova sociedade, designe-se ela por sociedade da igualdade e do bem-estar, por sociedade justa e solidária, ecossocialista, etc. O que importa são os objectivos a realizar: levantar o sistema político e económico do bem-estar, da fraternidade, da justiça social, do exercício do poder pelo povo organizado (não por elites, acima da luta de classes), sair da NATO, recuperar a soberania perdida, defender a paz entre os povos e rejeitar as guerras imperialistas. É a luta sem fim, para banir, pedra a pedra, a exploração do homem pelo homem e realizar a sociedade sem classes.
Bento Correia