A propósito do “Fórum por um Portugal Livre, Justo e Solidário”

O PREC não é saudosismo, é o nosso legado

Em 2019, José Mário Branco respondia a Rita Sousa Vieira, da SAPO Notícias, com fundada opinião política. Dizia ele: “sou agora mais subversivo do que nunca, continuo a achar que o motor que comanda isto tudo é a luta de classes, a exploração do homem pelo homem”.

Dizia ainda o Zé Mário que a social-democracia faliu, vergada ao neo-liberalismo, e acrescentava (lembrando Antero de Quental) que a nossa resposta poderia e deveria ser: não disputeis, curvado o corpo todo, as migalhas do banquete. Erguei-vos e tomai lugar à mesa

Lamentavelmente, não foi assim que agiram o Bloco e o PCP, depois de darem a mão a António Costa. Já aí, apesar de 36 deputados que valiam a maioria de esquerda, disputaram, curvados, as migalhas do banquete. Disputaram curvados, porque tinham desistido de lutar pela alternativa de poder, entretidos que estavam a inventar remendos para as crises do sistema. Não queriam, nem querem, ver que não há remendos suficientes que impeçam o colapso do capitalismo, cujos sinais estão agora em todo o lado.

Os resultados estão à vista: falsas ilusões no reformismo, falsa concertação social, conciliação de interesses de classes inconciliáveis, que deram a derrota histórica das esquerdas, cujo pano de fundo está agora claro.

As direitas, todas as direitas, ao serviço dos interesses do capital, agora com 2/3 do parlamento, olham com desprezo, de forma provocatória, para essas esquerdas curvadas e, com o PS de joelhos, avançam para os seus objectivos, a saber, tornar a lei da greve completamente inofensiva e esvaziar da constituição (já de si letra morta) o que possa atrapalhar os negócios privados. Ou seja, tudo é mercadoria, tudo deve ser rapidamente lucrativo, a favor da ganância capitalista. As direitas vêem a oportunidade de acertar contas com o que resta das conquistas de Abril, alcançadas pelo movimento revolucionário de há 50 anos.

O programa reaccionário “do Luís” é a primeira peça do puzzle, uma farsa que esconde as verdadeiras intenções. Mesmo assim, foi aprovado pelo PS.

É agora claro: o 18 de Maio encerrou o ciclo político de meio século. Mas há um legado que é nosso, que dá um sentido à luta.

– A luta política de oposição às direitas deve ligar a experiência do movimento revolucionário com a nova massa dos trabalhadores, pelos seus interesses e reivindicações próprios. O associativismo popular, as comissões de trabalhadores e sindicatos, devem participar nessa importante tarefa. Aos movimentos dos trabalhadores cabe levantar as reivindicações por salários e pensões dignos, também pela saúde e formação, pelo ensino público, pela cultura e o desporto, também pela habitação digna para todos e também pela sua democracia de base. Será por aqui, com os movimentos climáticos, feministas, anti-racistas, pela habitação para todos etc., que se arranjarão forças para enfrentar e derrotar as direitas e o fascismo.

Os fóruns, mesas de debate, o apoio às lutas de trabalhadores devem multiplicar-se. As direitas têm de enfrentar não os cozinhados que sirvam elites e minorias privilegiadas, mas uma grande frente anti-capitalista, que levante as reivindicações genuínas das populações, os direitos autênticos do trabalho, do lazer e da cidadania.

– A luta pelo socialismo chegou com história ao 25 de Abril, mas aquela luta intensa e transformadora, travada nas ruas, nos locais de trabalho, nos campos e nos bairros das nossas cidades e vilas, que elevou a consciência política do povo português a patamares nunca antes alcançados, essa, é o nosso legado. A derrota do PREC trouxe um longo recuo na intensidade das lutas dos trabalhadores, também da luta progressista em geral, porém, tratou-se de um primeiro grande embate com o velho sistema do capital, cuja profundidade foi ainda insuficiente para chegar à vitória final. Mas é preciso recusar e voltar a recusar a ideia burguesa de que se tratou de uma derrota definitiva da nossa revolução.

 Nas dificuldades, as ideias do socialismo têm conhecido uma profunda reflexão e renovação, visam combinar melhor os princípios revolucionários da terra da fraternidade com o poder popular, com a democracia dos trabalhadores, com a cultura e o conhecimento. Trata-se de um processo lento, ainda disperso, mas está a fazer-se, orientado para esse grande objectivo, alcançar, pela revolução social e popular, a nova sociedade, designe-se ela por sociedade da igualdade e do bem-estar, por sociedade justa e solidária, ecossocialista, etc. O que importa são os objectivos a realizar: levantar o sistema político e económico do bem-estar, da fraternidade, da justiça social, do exercício do poder pelo povo organizado (não por elites, acima da luta de classes), sair da NATO, recuperar a soberania perdida, defender a paz entre os povos e rejeitar as guerras imperialistas. É a luta sem fim, para banir, pedra a pedra, a exploração do homem pelo homem e realizar a sociedade sem classes.

Bento Correia