Desde o anterior número d’O Trabalho, publicado antes das últimas eleições legislativas, muita água correu debaixo das pontes, muitas bombas lançadas por Israel e pelos EUA caíram sobre Gaza — e o Irão…

Em Portugal, a aposta de Montenegro no casino eleitoral deu certo — pelo menos tanto quanto antes o dera a aposta dos Violas dos casinos em Montenegro.

Parte do eleitorado trabalhador, face à montenegrização ou social-montenegrização dos partidos em que costumava votar (ver o nº 41 d’O Trabalho) ou preferiu o original às cópias ou desinteressou-se — e mais de um em cada cinco trabalhadores não tem sequer direito a votar, por ser imigrante.

O descontentamento e desespero de camadas crescentes da população pobre, desprovidas de organização que lhes permita resistir eficazmente, pôde, assim, continuar a ser aproveitado pela demagogia fascizante do bando de Ventura, que conseguiu aumentar mais um pouco a sua votação — e muito, o número de deputados.

A conquista pela direita e extrema-direita de uma maioria de revisão constitucional e a proximidade das eleições presidenciais conjugam-se com o aumento brutal das despesas militares para 5% do PIB exigido por Bruxelas e Washington. As cúpulas do grande capital português e a alta burocracia do Estado começam a preparar uma mudança de regime que enquadre a consequentemente necessária devastação dos orçamentos “sociais” e organize ataques ainda mais desbragados contra o salário e os direitos dos trabalhadores, mormente o direito à greve e a liberdade de expressão.

Antes das eleições legislativas, o ex-almirante Gouveia e Melo apresentou a sua candidatura, não só à presidência, mas a caudilho de um novo regime bonapartista autoritário. Ventura de imediato retirou a sua.

Montenegro começara logo na campanha eleitoral a sondar a hipótese de espremer o direito à greve até à insignificância. Montou uma provocação aos ferroviários, recusando-se o governo a ratificar os resultados de uma negociação já concluída com a administração da CP e o próprio ministério. O coro da comunicação social, entretanto em plena Gleichschaltung[1] (a última “alinhada” foi a RTP), encarrega-se de amplificar a campanha.

Os tempos que se anunciam serão tempos de luta e resistência. Os “de cima”, animados pelos resultados das eleições, vão tentar destruir todo o legado da revolução portuguesa, aumentar a exploração e a precariedade, acabar com o direito à saúde, impossibilitar o acesso à habitação.

Aos trabalhadores não vai restar margem de “concertação” de nenhuma espécie. Vão ter de se bater, como têm feito os da CP, mas também os de muitos outros sectores, que continuam a apresentar as suas reivindicações e a organizar greves para as conseguir. Trata-se de salvar o pouco que nos resta, cientes de que das vitórias, pequenas e grandes, renascerá a consciência da força imparável do trabalho quando encontra o caminho da união.

A manifestação de 25 de Abril de 2025 voltou, como no ano do cinquentenário, a trazer à rua centenas de milhar de trabalhadores e jovens que disseram alto e bom som que estão de pé firme dispostos a defender a sua revolução.

As forças que têm representado politicamente o mundo do trabalho vergam-se, é certo, uma e outra vez ao Estado, à burguesia, à UE, à NATO. Vê-se o que disso resulta: nada a não ser derrotas. Elas próprias têm pago um pesado preço por isso, nas próprias urnas. As massas trabalhadoras acreditam cada vez menos em quem defende, acima de tudo, o regime.

A via que resta é a de reconstruir as ferramentas da luta de classe, sindical e política, e repor na ordem do dia a luta pelo derrube do capitalismo assassino, pelo socialismo.

Como sempre, porém, o movimento operário só poderá singrar com partidos e organizações sindicais completamente independentes do Estado e do patronato, independentes de subsídios, dependentes apenas dos trabalhadores e dos jovens, a quem têm de prestar contas — e só a eles.

Esse é o combate da Plataforma por um Partido dos Trabalhadores.


[1] Gleichschaltung significa literalmente “alinhamento”. Foi o processo de pôr todas as instituições sociais, de comunicação, etc. “na mesma linha”, promovido pelo partido nazi depois de tomar o poder em 1933.