Em artigo de opinião, (jornal Haaretz de 20 de Julho, https://www.haaretz.com/…/00000198-2456-d55c-a1be…, Gideon Levy começa nestes termos a sua denúncia:
“Adolf Eichmann começou a sua carreira nazi como chefe da Agência Central para a Emigração Judaica, nos serviços de segurança encarregados da defesa do Reich. Joseph Brunner, o pai do chefe do Mossad, David Barnea, tinha três anos quando fugiu da Alemanha nazi com os pais, antes de o plano de evacuação passar à fase de execução.
Na semana passada, Barnea, o neto, visitou Washington para discutir a “evacuação” da Faixa de Gaza da sua população. Segundo o relato de Barak Ravid nas Channel 12 News, Barnea disse aos seus interlocutores que Israel já entabulara conversações com três países nesta matéria. A ironia da história escondeu o rosto, envergonhada. Um neto de um refugiado de uma limpeza étnica na Alemanha conversa sobre limpeza étnica — e não lhe ocorre nenhuma lembrança.“
Na verdade, prossegue Levy: “Para “evacuar” uma terra dos seus dois milhões de pessoas, é preciso um plano. Israel tem andado a trabalhar nisso. A primeira fase consiste em transferir boa parte da população para um campo de concentração, a fim de facilitar uma deportação eficiente.
Na semana passada, a BBC publicou uma reportagem de investigação baseada em fotografias de satélite, que mostravam destruição sistemática, levada a cabo pelas Forças de Defesa de Israel em toda a Faixa de Gaza. Aldeia a aldeia é varrida da face da terra, arrasada, para se construir o campo de concentração, de modo a deixar de ser possível viver em Gaza.
Os preparativos para o primeiro campo de concentração israelita estão em pleno andamento. Procede-se a destruições sistemáticas por todo o enclave, de modo que não haja para onde regressar, a não ser para o campo de concentração.“
Ora, “Para fazer este trabalho, são necessárias retro-escavadoras. A BBC mostrou dois anúncios de emprego. Um falava de um “projecto que consiste na demolição de edifícios em Gaza, requer operadores de retro-escavadoras (de 40 toneladas). O trabalho é pago a 1.200 shekels (US$ 357) ao dia, incluindo alimentação e hospedagem, com a opção de receber um veículo particular“. O segundo anúncio dizia que ”o horário de trabalho é de domingo a quinta-feira, das 7h às 16h45, com excelentes condições de trabalho”. Israel está silenciosamente a perpetrar um crime contra a humanidade. Nada de “uma casa aqui, outra acolá”, nada de “necessidades operacionais”: eliminação sistemática de qualquer possibilidade de vida na área, enquanto se prepara a infra-estrutura para concentrar as pessoas numa cidade “humanitária” com vocação de campo de trânsito – antecedendo a deportação para a Líbia, Etiópia e Indonésia, os destinos especificados por Barnea segundo o Channel 12.“
A conclusão de Levy não deixa dúvidas: “Tal é o plano de limpeza étnica de Gaza. Alguém o gizou. Discutiram-se prós e contras. Sugeriram-se alternativas, opções de limpeza total ou por etapas. Tudo se passou em salas de conferência com ar condicionado. Fizeram-se actas, tomaram-se decisões. Pela primeira vez desde que começou a guerra da vingança, em Gaza, é claro: Israel tem um plano – e é um plano de fôlego, com actas e decisões tomadas.”
Acrescenta que “já ninguém pode acusar Benjamin Netanyahu de travar uma guerra que não tem finalidade. Esta guerra tem uma finalidade, uma finalidade criminosa.“
Completa: “O terreno está pronto, pode-se passar à transferência de pessoas. Os anúncios de emprego estão em tramitação. Uma vez o deslocamento da população concluído, logo que os residentes da cidade humanitária começarem a sentir saudades da vida no meio das ruínas, da fome, da doença e das bombas, pode-se então passar à fase final: enfiá-los à força em camiões e aviões a caminho da nova e desejada pátria – a Líbia, a Indonésia ou a Etiópia.
Se a empresa da ajuda humanitária custou a vida a centenas de pessoas, a deportação custará a de dezenas de milhares.
Mas nada impedirá Israel de levar a bom termo o seu plano.“
Levy conclui o seu artigo, fazendo esta descrição crassa, mas clara e sem deixar margem para dúvidas do que se está a viver na Palestina: “Num dado momento, houve gente que se sentou à volta de uma mesa e gizou este plano. Seria uma ingenuidade pensar que aconteceu tudo por geração espontânea. Daqui a 50 anos, as actas serão desembargadas. Saberemos quem foi a favor e quem foi contra o plano. Quem achou que talvez fosse de deixar um hospital intacto.
Além dos oficiais e dos políticos, também lá estavam engenheiros, arquitectos, demógrafos e orçamentistas.
Talvez lá estivessem representantes do Ministério da Saúde. Saberemos tudo daqui a 50 anos.
Enquanto isso, o chefe da Agência Central para a Emigração Palestiniana, David Barnea, põe em execução uma nova etapa.O homem é um alto funcionário obediente. Nunca causou atritos com os superiores. Lembra-vos outra coisa? Foi ele o herói da campanha de amputações em massa que usou walkie-talkies. Mandem-no salvar reféns, que ele vai. Mandam-no preparar a deportação de milhões de pessoas? Para ele, não há problema. Ele só está a cumprir ordens.”