Publicamos de seguida, em tradução, largos excertos do artigo publicado pelo jornalista israelita Gideon Levy no jornal Haaretz, no dia 3 de Agosto: https://www.haaretz.com/…/00000198-6bee-d8f1-ad9f…
Gideon Levy é neto de vítimas do holocausto nazi. Nasceu de pais fugidos para Israel da Checoslováquia ocupada por Hitler. Foi soldado do exército israelita. Foi porta-voz de Shimon Peres. Quase toda a vida, considerou-se um “sionista moderado”. Em 2007, declarou que a situação dos palestinianos na Faixa de Gaza, na altura sob bloqueio israelita, o envergonhava de ser israelita. Considera como sua “modesta missão” impedir que muitos israelitas possam dizer que ‘não sabiam’.
G. Levy abre o seu artigo de 3 de Agosto, dizendo que:
“o reconhecimento da Palestina pela Europa é um gesto vazio. Serve para safar Israel. Sem decretar sanções para parar a matança em Gaza, não é diplomacia — é cumplicidade.“
Argutamente, G. Levy nota que
“o reconhecimento internacional da Palestina é uma recompensa para Israel, que devia agradecer a todos a e cada um dos países que o fizerem, pois tal reconhecimento serve de alternativa enganadora ao que realmente tem de ser feito — impor sanções.
O reconhecimento é um falso sucedâneo aos boicotes e às medidas punitivas que é imperativo adoptar contra um país que está a perpetrar um genocídio. ‘Reconhecer’ é o que os governos europeus, tíbios e bambos, fazem para mostrar às suas populações enraivecidas que não ficam caladinhos.
Reconhecer um Estado palestiniano que não existe nem existirá num futuro próximo, se é que alguma vez, é vergonhoso silêncio. A população de Gaza está a ser morta à fome, e a reacção da Europa é reconhecer um Estado palestiniano. Salvará o reconhecimento os gazenses famintos ?
Com o apoio americano, Israel pode perfeitamente ignorar tais declarações.“
Não, diz G. Levy, a “reacção” da comunicação social israelita, muito menos os ‘gestos’ dos ‘chefes’ dos súbditos europeus de Trump, não vão mudar seja o que for:
“Fala-se para aí, em Israel, de um “tsunami” diplomático — sabendo perfeitamente que ele não atingirá a costa de Israel enquanto o reconhecimento não for acompanhado de um preço pelo genocídio.
O primeiro ministro britânico, Keir Starmer, um dos primeiros, a seguir à França, desta onda de reconhecedores da Palestina, superou-se a si próprio. Declarou logo que a sua medida era punitiva (condicionalmente…). Cumpriu o seu dever. Prometeu que, se Israel se portar bem, recolherá o seu dedo castigador.
Mas que punição, ó sr. primeiro ministro? Se, na sua crença, reconhecer a Palestina é promover uma solução, porquê apresentá-lo como escarmento? E se castigo é, onde castiga, então?
É o que sucede quando o medo de Donald Trump cai sobre a Europa e a paralisa — quando fica de manifesto que quem quer que decida infligir sanções a Israel pagará por isso. O mundo prefere, para já, montar uma quermesse do verbo. Sanções são coisas para punir invasões russas, não invasões israelitas.
A acção de Starmer activou muitos outros a seguirem-no. Em Israel, faz-se disso uma avalanche diplomática, um tsunami — que não vai parar o genocídio. Este não parará sem medidas práticas da comunidade internacional. Medidas insuportavelmente urgentes, quando a matança e a fome prosseguem em Gaza.
Não é o reconhecimento que vai criar um Estado. Qual foi a reacção da colona Daniella Weiss a seguir a uma vaga de reconhecimentos anterior? “Abro a janela e não enxergo Estado palestiniano nenhum”. Nem vai enxergar, nos tempos mais próximos.
No imediato, Israel até beneficia desta onda de reconhecimentos, porque eles são um sucedâneo da sanção que merece. (…)
São, porém, precisas loucas carradas de optimismo e ingenuidade para achar que o reconhecimento ainda tem alguma relevância. Nunca houve momento pior. Reconhecer, agora, é como assobiar no escuro. Os palestinianos não têm quem os dirija; e os dirigentes de Israel têm feito tudo o que podem para malograr esse tal Estado — e conseguiram.
É simpático da parte de Downing Street querer um Estado palestiniano. Só que não vai haver nenhum, enquanto Jerusalém não quiser, e o colonato extremista de Yitjar continuar a destruir bens palestinianos e a ganhar força com o apoio cego de Washington a Israel.“
Estado palestiniano, onde? pergunta Gideon Levy:
“Quando a direita de Israel está no ápice do seu poder e o centro israelita vota, no Knesset, pela anexação e contra o estabelecimento de um Estado palestiniano, quando o Hamas é a mais forte entidade política de que os palestinianos dispõem, e os colonos e seus cúmplices são a organização mais forte de Israel, de que raio de Estado palestiniano é que estamos a falar? Onde?
Uma tempestade num copo de água. O mundo cumpre o seu dever, enquanto Israel destrói e mata à fome. Primeiro, cumpre-se, em Gaza, o plano de limpeza étnica adoptado pelo governo de Israel. É possível conceber condições piores para nos pormos com sonhos de “Estado”?
Onde ficaria? Num túnel escavado entre os colonatos de Yitjar e Itamar? Há por aí alguma força capaz de evacuar colonatos de centenas de milhares? Que força?
Há por aí algum campo político com vontade de lutar por isso?“
A única solução que, para qualquer pessoa de sensibilidade minimamente democrática, para qualquer cidadão preocupado com os direitos humanos, resulta é cada vez mais óbvia; e o governo de Israel tem o único mérito de o deixar claro. Como diz G. Levy, só verdadeiras, drásticas sanções poderão torcer o braço do governo assassino de Netanyahu:
“O melhor era começar por adoptar medidas punitivas práticas, para obrigar Israel a acabar com a guerra — a Europa tem meios para isso — e depois pôr na ordem do dia a única solução que resta: uma democracia, entre o Mediterrâneo e o rio Jordão; um homem, um voto. Ou apartheid ou democracia. Para nosso horror, já não há terceira via.“
«Reconhecer o Estado palestiniano, mas de que Estado estamos a falar?»
O activista palestiniano Naji El Khatib reage ao anúncio de Macron da sua intenção de “reconhecer o Estado da Palestina”. (Trechos de uma entrevista publicada em 26 de julho no Mediapart)
Mas de que Estado estamos a falar? Que meios vai a França empregar para concretizar esse reconhecimento do Estado da Palestina? Estamos no domínio da política-espectáculo.
Os acordos de Oslo (1993) eram para criar um Estado palestiniano ao fim de cinco anos, portanto em 1998. Estamos em 2025; há trinta e dois anos que se negocia a criação de um Estado palestiniano (…).
Naquela época, os territórios palestinianos prometidos correspondiam a 23% da Palestina do mandato. Hoje, segundo as estatísticas israelitas, os colonos são quase um milhão. De 23% do território histórico, passou-se a 10%. Esses territórios foram engolidos pela colonização (…).
No terreno, este anúncio não muda nada. A França tem um lugar importante na União Europeia (UE), mas não usou o seu peso político e diplomático para influenciar a decisão europeia da semana passada sobre o tratado de associação entre o Estado de Israel e a UE. Faz-se tudo para dar continuidade a essa cooperação científica, tecnológica, no armamento, na alta tecnologia (…).
Vi a declaração do Partido Comunista de ontem, aprazendo-se com a declaração de Emmanuel Macron. Não duvido que os comunistas sejam sensíveis aos direitos dos palestinianos. Mas a esquerda francesa não acerta no que é o essencial (…).
A esquerda francesa não tem, até agora, conseguido definir com exactidão a verdadeira natureza do Estado israelita. É um Estado racista e colonial, pura e simplesmente. O conflito é um conflito colonial, cujo problema profundo é a negação dos direitos dos palestinianos.Nunca haverá solução política para este conflito enquanto o direito ao regresso (dos refugiados palestinianos) não for satisfeito. A região permanecerá politicamente perturbada enquanto esta questão essencial não for resolvida. Os palestinianos não desistirão das suas reivindicações essenciais. A única solução é ter um único Estado, com cidadãos iguais em direitos.
Ruptura de todas as relações dos governos com o Estado de Israel
Muitas e diversas são as figuras públicas de todo o mundo que têm vindo a condenar o genocídio em Gaza. É uma expressão da onda mundial de revolta da opinião pública contra o Estado genocida. Porém, milhões de mulheres e homens em todo o mundo acusam também os seus cúmplices: os governos das grandes potências.
A pressão da opinião pública, inclusive nos Estados Unidos, é tal, que até Trump teve de contradizer Netanyahu, declarando que em Gaza «há mesmo verdadeira fome». Este «distanciamento» – segundo a NBC – não terá, no entanto, nenhum impacto no fornecimento de armas «made in USA» ao Estado sionista, que ocorre quase diariamente.
Também significativa é a tribuna publicada por quarenta e três ex-embaixadores da União Europeia, a denunciar o «espectáculo monstruoso de Israel a cometer todos os dias crimes atrozes contra o povo palestiniano», tanto em Gaza como na Cisjordânia. Os ex-embaixadores reivindicam «a suspensão imediata de todas as exportações de armas», «a suspensão de todos os acordos comerciais», «o cancelamento da participação de Israel» em «programas de investigação, universitários e tecnológicos», etc.
Tanto mais que, enquanto isto, como denuncia o activista judeu israelita Oren Ziv no meio de comunicação judaico-árabe +972, «estamos a assistir à expulsão mais massiva de palestinianos da Cisjordânia desde a anexação, em 1967».
Tudo isto devia fazer com que os dirigentes dos partidos de «esquerda» e das confederações sindicais – especialmente na Europa e nos Estados Unidos – exigissem «o rompimento de todas as relações dos governos com o Estado de Israel!».
Como se há-de compreender que não o exijam?
Não terão ouvido o «último grito dos trabalhadores antes da morte» lançado, de Gaza, pela Federação Geral dos Sindicatos Palestinianos (PGFTU), que se dirige aos trabalhadores e militantes operários do mundo: «Arregacem as mangas para quebrar o cerco a Gaza. Contamos com o vosso humanismo e moralidade para salvar Gaza do bloqueio pelo qual a ocupação criminosa fechou todas as portas que permitiam a entrada de alimentos, medicamentos e água para o nosso povo.»
O apelo conclui assim: “Esperamos de vós que leveis o grito dos trabalhadores de Gaza aos ouvidos dos governantes e para as ruas. (…) sede o nosso sustém, agitai as ruas e detende as exportações de armas que matam crianças, mulheres e trabalhadores. Mobilizai os vossos simpatizantes e apoiantes para romper o cerco a Gaza e levar a vossa voz livre aos ouvidos dos governantes.
Não há nenhuma desculpa para quem abandonar Gaza, o seu povo ou os seus trabalhadores.
Gaza é e será testemunha de todos os que escutaram o grito pela humanidade e o grito pela liberdade, é e será um símbolo para os povos livres do mundo.“
A cumplicidade da União Europeia
Dirigindo-se a Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, o antigo chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, escreveu no Guardian, em 1 de Agosto: «Quem não actue para pôr fim a este genocídio e a estas violações do direito internacional apesar de ter poder para o fazer, torna-se cúmplice. (…) Provavelmente, os dirigentes da União Europeia e dos seus Estados-Membros terão de prestar contas, no futuro, pela sua cumplicidade nos crimes contra a humanidade cometidos pelo governo Netanyahu“, acrescenta.