França: Bayrou caiu. Fora com todos os seus planos!

A greve unida dos trabalhadores, com as suas organizações, conquistará as reivindicações

Morre um regime, outro nasça

(Editorial de La Tribune des travailleurs nº506, por Daniel Gluckstein)

A raiva é social, mas também é política“. Esta observação, feita por um trabalhador, numa assembleia, há uns dias, suscita uma questão de fundo.

A raiva é social, é, sim senhor. A grande maioria do país, em particular milhões de trabalhadores e jovens, está a dizer, de muitas maneiras, que não se pode continuar a aguentar aquilo que já não se aguenta: nem os hospitais à ruína, nem as escolas ao abandono, nem os serviços públicos devastados, nem a habitação social decrépita, nem os ataques à Segurança Social, nem o congelamento dos salários, pensões e subsídios, nem as privações dos estudantes, nem a miséria dos desempregados.

A raiva é política, é, sim senhor: contra os “grandes deste mundo” que, uns mais assim, outros mais assado, nos querem impor que a dívida tenha de ser paga e que a guerra tenha de ser financiada e que é o povo trabalhador que tem de arcar com isso tudo.

Das duas, uma.

Ou vamos continuar como antes, com os chefes sindicais a convocarem jornadas de luta intermitentes até esgotarem a combatividade, do mesmo passo que, no plano político, a “esquerda” vai apresentando moções de censura e processos de destituição condenados ao fracasso — enquanto o próximo governo, seja ele qual for, continua a reduzir a escola, os serviços públicos e os direitos dos trabalhadores ao esqueleto.

Ou então enveredamos pelo caminho da ruptura. Centenas de milhares de milhões de euros acumulam-se todos os anos nas contas dos capitalistas e dos especuladores. Ruptura significa confiscar esses milhares de milhões para os afectar imediatamente à escola, aos serviços públicos, à segurança social, ao aumento geral dos salários. Ruptura significa os trabalhadores pegarem nos meios para paralisar a economia, reconstruir a relação de forças, forjando, a todos os níveis, a unidade, com as organizações sindicais, na greve, até à greve geral, para vencer.

Que governo há-de enveredar pela ruptura? Nenhum governo da Vª República, cujas engrenagens estão feitas para manter e agravar a exploração do trabalhador e permitir aos capitalistas acumularem cada vez mais lucros. Quem quer, à viva força, ficar nesse quadro está a impedir que a crise possa ter um desfecho positivo.

Varrer a Vª República e pôr em causa a propriedade privada dos meios de produção, que é o alicerce do sistema capitalista — tal é a dupla condição para uma política de ruptura.

É hora de inverter o rumo. A maioria, a maioria que só tem o seu trabalho de que viver, tem que agarrar as rédeas de uma vez por todas.

Que a crise do velho regime corrupto e falido conduza ao advento de outro regime, em que a maioria reine soberana e imponha a sua lei à minoria dos aproveitadores e exploradores; que se imponha de uma vez um governo dos trabalhadores e da democracia…

Só assim se poderá dar uma resposta social e política condizente com a justiça para a grande maioria, à altura da ira social e política que faz levantar o país.

Foi-se Bayrou, que todas as suas reformas e projectos anti-trabalhadores o acompanhem!

(Comunicado do Partido dos Trabalhadores francês)

Bayrou foi-se; que todas as suas reformas e projectos anti-trabalhadores o acompanhem, e já! Abandone-se, em particular, o projecto de orçamento com 44 mil milhões de cortes aos serviços públicos e à Segurança Social. Anulem-se os decretos sobre taxas moderadoras na saúde. Revoguem-se todas as medidas contra os trabalhadores, a juventude e a democracia, os ataques contra os trabalhadores imigrantes, as medidas de restrição das liberdades. Revoguem-se, ainda, todas as medidas anti-trabalhadores tomadas pelos sucessivos governos de Macron, a começar pela reforma das pensões de 2023, e revalorizem-se os salários, as pensões e as prestações sociais. Tal é a exigência carregada pelo vento da revolta operária e popular que se levanta em todo o país: satisfaçam as reivindicações!

Mal Bayrou caiu, já se multiplicam as manobras. Uns pedem a Macron que nomeie um governo dirigido pelo PS. Outros, que nomeie um governo dirigido pelos Republicanos. Outros ainda reivindicam uma dissolução que permita uma coligação governamental dirigida pela União Nacional. Há também os que apelam ao “todos para a rua“… só para apresentar uma proposta de destituição de Macron a uma Assembleia Nacional, da qual antecipadamente sabem que ela não a votará.

É que todos eles continuam prisioneiros de uma Vª República em que o governo, seja ele qual for, seja qual for a sua cor política, terá como função reatar o trabalho onde Bayrou o largou, pôr em prática a mesma política reaccionária ditada pelo capital financeiro e pela União Europeia e, por trás deles, por Trump: a mesma política de guerra que aumenta sem parar o orçamento militar e reduz à expressão mais simples o dos hospitais, escolas e serviços públicos!

Multiplicam-se as greves pelo país. As greves estão a pedir que as façam convergir num movimento de todos pela revogação das contra-reformas e pela satisfação das reivindicações. Não há margem para hesitações: não há que hesitar em confiscar, em grande escala, as verbas que são necessárias às centenas de milhares de milhões de que anualmente beneficiam patrões e especuladores a título de isenções da Segurança Social ou de ajudas às empresas, assim como às centenas de milhares de milhões de euros pagos anualmente em dividendos aos acionistas.

A situação exige um governo que tenha a coragem de romper com esta Vª República, que, há sessenta e sete anos, seja qual for a cor do governo, castiga constantemente os trabalhadores e engorda os capitalistas. A situação exige um governo que tenha a coragem de avançar na ruptura com o sistema capitalista assente na propriedade privada dos meios de produção, pois esse sistema é que está na origem de todas as injustiças e destruições infligidas ao povo trabalhador.

Não serão as negociações que para aí andam todos a realizar à roda de Macron, no Eliseu, que trarão a solução. Só a convocação de uma Assembleia Constituinte que varra a Vª República, uma Assembleia Constituinte de delegados do povo que lance as bases de uma República dos Trabalhadores e da Democracia, de um governo que satisfaça as reivindicações operárias e populares, a poderá trazer.

Quem produz toda a riqueza da sociedade é a classe trabalhadora. Para impor a ruptura necessária, cabe-lhe paralisar a economia e, para isso, forjar, a todos os níveis, a unidade dos trabalhadores e das suas organizações em prol da unidade operária. Sobre as confederações sindicais que convocam a jornada de luta de dia 18 impende a responsabilidade de avançar com a palavra de ordem da greve geral pela revogação das medidas dos governos Macron e por medidas de emergência que respondam às necessidades do povo trabalhador e da juventude, para isso se apoiando na enchente do movimento de luta da classe. Essa é a tarefa do momento, por ela intervêm os militantes do Partido dos Trabalhadores, que preparam o comício operário e de jovens de 4 de Outubro, para que se imponha de uma vez a satisfação das necessidades da maioria.

8 de Setembro de 2025, 21 horas