O reconhecimento do “Estado da Palestina” pelos cúmplices de Israel muda alguma coisa?

Intensos bombardeamentos israelitas atingiram nos últimos dias os poucos edifícios ainda de pé na cidade de Gaza. “Gaza está a arder!“, arrota o ministro genocida da Defesa, Israel Katz, feliz.

Corri para a rua, para o local onde tinha havido um ataque. Três casas de um bloco residencial completamente destruídas. Muita gente presa debaixo dos escombros. Ouvem-se os gritos“, relata um sobrevivente, Ahmed Ghazal, citado pela agência France-Presse a 16 de Setembro.

Entre 20 mil e 40 mil soldados israelitas estão em marcha para o centro da cidade, para aí lançar o assalto final. Netanyahu faria mal em não aproveitar: acaba de receber a bênção do secretário de Estado americano, Marco Rubio, em visita oficial a Tel Aviv.

No dia 16 de Setembro, uma comissão internacional de inquérito da ONU “concluiu que o presidente israelita, Isaac Herzog, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, incitaram ao genocídio; e que as autoridades israelitas nenhuma medida tomaram contra eles para punir tal incitação“.

A ONU precisou, pois, de 700 dias para “descobrir” que estava a ocorrer um genocídio na Palestina. Um genocídio perpetrado pelo Estado sionista com os meios financeiros e militares fornecidos pelos seus padrinhos de Washington: primeiro Biden, depois Trump.

Macron, Starmer e Merz emitem tímidos protestos. Palavras, que nada mudarão na tragédia em Gaza — pois todos os chefes de Estado que se recusam a isolar o Estado genocida, a romper todas as relações com ele, a cortar-lhe o sustento, a asfixiá-lo economicamente e a colocá-lo à margem da humanidade são cúmplices do genocídio.

Dez países, entre os quais Portugal e França, declararam que irão reconhecer um Estado palestiniano na segunda-feira, 22 de Setembro, numa conferência em Nova Iorque, à margem da Assembleia Geral da ONU.

Além de Portugal e França, que está por trás da iniciativa, os outros Estados são Andorra, Austrália, Bélgica, Canadá, Luxemburgo, Malta, Reino Unido e São Marino.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, afirmou, a 15 de Setembro, que o reconhecimento por Portugal da Palestina como Estado está “em andamento” e que deve haver “desenvolvimentos na próxima semana“. “Neste momento está concluído o processo de audição dos grupos parlamentares na Assembleia da República. Terei ainda de falar mais uma vez, eu e o senhor primeiro-ministro, com o senhor Presidente da República“, afirmou Rangel, citado pela agência Lusa, após um encontro com a sua homóloga britânica, Yvette Cooper, em Londres.

O que é que este “reconhecimento” português, como o de outros Estados, vai mudar para mais de dois milhões de palestinianos de Gaza, postos à fome e ameaçados de extermínio? Nada. E para os aldeões da Cisjordânia, agredidos diariamente e assassinados pelos colonos e pelo exército? Nada, tão-pouco.

Certo do apoio incondicional do imperialismo americano, Netanyahu declarou que “não vai haver Estado palestiniano.” Passou a pôr em marcha o plano “E1”, que visa anexar definitivamente a Cisjordânia. Que credibilidade tem então a chamada “solução de dois Estados”»”, quando se ameaça Gaza de ser arrasada, e a Cisjordânia, anexada?

Da ONU nenhuma solução virá: foi de uma resolução da ONU que, em 29 de Novembro de 1947, o imperialismo americano e Estaline se serviram para impor a partição da Palestina entre o Estado de Israel e um “Estado árabe” que nunca viu a luz do dia.

Como já em Maio de 2021 afirmava a associação israelita de defesa dos direitos humanos B’Tselem, “entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão, só existe um Estado: um Estado de apartheid“.

A única alternativa ao genocídio e ao apartheid é um Estado palestiniano uno que garanta a igualdade de direitos a todos os seus cidadãos.