Gaza: Um plano contra o povo palestiniano

Trump anunciou o seu plano para Gaza em 29 de Setembro, durante uma conferência de imprensa ao lado de Netanyahu. O plano foi saudado pelos governos imperialistas, incluindo o português. Trump conseguiu o aval dos dirigentes do Qatar, Arábia Saudita, Indonésia, Turquia, Paquistão, Egipto, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, aproveitando a sua presença na Assembleia Geral das Nações Unidas. A Autoridade Palestiniana saudou, pelo seu lado, os «esforços sinceros e determinados» de Trump.

Qual o conteúdo do plano? Segundo o Washington Post, o plano fala de cessação das actividades militares; de troca de prisioneiros; de destruir o armamento do Hamas, de fazer sair de Gaza os seus combatentes e de uma possível «amnistia» para aqueles que aceitarem a «coexistência pacífica» com Israel. Nestas condições, o acordo permitiria a entrada de «ajuda» em Gaza e a «reabilitação das infra-estruturas (água, electricidade, saneamento), hospitais e padarias» sob a égide da ONU.

Nos termos das conversações iniciadas há meses por Trump, o seu genro Jared Kushner e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o plano prevê colocar Gaza sob a autoridade de uma «governação de transição temporária» supervisionada por um «novo organismo internacional» criado pelos Estados Unidos. O imperialismo americano criará, com os seus «parceiros árabes e internacionais», uma «força internacional» armada, abandonando Israel Gaza «progressivamente», salvo uma «presença periférica».

Para obter o aval dos Estados «árabes e islâmicos» e de Macron, Starmer e Sanchez, o plano refere que, em «condições» muito hipotéticas e num futuro indeterminado, se poderá «abrir um caminho credível para a autodeterminação e a criação de um Estado palestiniano».

Deu-se um ultimato ao Hamas. Se este não aceitar o plano, Trump já deu a sua bênção a Netanyahu para «terminar o serviço», ou seja, exterminar… o que ele já está a fazer.

Sob pressão de Trump, Netanyahu validou, para já, o acordo. Mas carece da concordância dos seus ministros mais extremistas, que poderão largá-lo. Preventivamente, o chefe da oposição «moderada», Yair Lapid, «informou o governo americano» de que garantiria «uma maioria no Knesset (parlamento israelita)» a Netanyahu para apoiar o plano de Trump.

Daqui a uns dias, ainda estará o acordo na ordem do dia? Ou já o terão as múltiplas contradições tornado caduco? No primeiro caso, Gaza seria transformada em território sob administração militar americana. No outro, Netanyahu continuaria a ter carta branca. Em qualquer deles, a «solução» será sem e contra o povo palestiniano.

Em 30 de Setembro, o correspondente da AFP em Gaza – sobrevivente das liquidações selectivas de jornalistas – deu a palavra aos sobreviventes dos campos de tendas em Gaza: «É tudo uma farsa, mais nada. Trump e Netanyahu mentem-nos», diz um deles. O plano «foi elaborado com condições que os Estados Unidos e Israel sabem que o Hamas não aceitará», sustenta um segundo. «Estávamos à espera do anúncio de um cessar-fogo. (…) A única coisa que queremos é que os bombardeamentos e as mortes cessem», diz um terceiro.

Enquanto se conversa, Israel massacra impunemente

As poucas informações que chegam da cidade de Gaza tomada de assalto pelo exército israelita revelam que, após os bombardeamentos, entraram tanques nos bairros de Sabra, Tel Al-Hawa, Sheikh Radwan e Al-Naser desde 28 de Setembro, preparando-se para tomar de assalto a parte oeste da cidade, onde centenas de milhares de pessoas se refugiaram (Reuters).

No dia anterior, as últimas equipas médicas estrangeiras, como Médicos Sem Fronteiras (MSF), tiveram de evacuar as suas clínicas, «cercadas pelo exército israelita», segundo o coordenador da MSF. «As pessoas mais vulneráveis – bebés em serviços de cuidados neonatais, pessoas gravemente feridas e doentes – estão incapazes de se deslocar e correm grande perigo.»

A agência de notícias palestiniana Wafa relata, com base em fontes médicas, que, na noite de 28, granadas de artilharia atingiram o hospital Al-Helu, que possui, designadamente, uma unidade de oncologia e uma creche que alberga doze bebés prematuros.

Com ou sem «Plano Trump», se o Estado de Israel tem carta branca para perpetrar o genocídio é porque os governos das grandes potências, bem como os dos Estados «árabes e islâmicos», lhe deixam as mãos livres.

O que esperam os partidos e as organizações que se reclamam dos trabalhadores para organizar a mobilização para obrigar os governos cúmplices a romper todas as suas relações diplomáticas, militares, comerciais, desportivas e culturais com o Estado genocida?

É a única maneira de pôr fim ao banho de sangue.