A 23 de Setembro, Trump deu uma reviravolta de 180 graus em relação à Ucrânia. Há um mês, recebeu Putin em território norte-americano para «resolver a questão da Ucrânia». Agora, na tribuna da ONU, qualifica a Rússia de Putin de «tigre de papel», acrescentando que «com o apoio da União Europeia, a Ucrânia tem condições para combater e reconquistar o seu território original.» Exactamente o contrário do que andara a declarar durante oito meses.
Mais uma «loucura» de Trump? Não, o seu slogan, «America First», resume toda a sua política: defender da melhor forma, a cada momento, os interesses dos sectores dominantes do capital financeiro americano.
Assim que regressou à Casa Branca, Trump decretou que a guerra na Ucrânia já tinha custado muito caro aos Estados Unidos. Transferiu a totalidade do fardo para os Estados europeus membros da NATO. Exigiu e obteve deles um aumento considerável das suas despesas militares. Repreendeu Zelensky e procurou um acordo com Putin.
A razão principal é que, com Trump, como, antes, com Obama e com Biden, a burguesia americana tem de se concentrar na preparação de um confronto – comercial, político, militar – com a China. Empurrada pela crise do sistema capitalista, é inconcebível para a burguesia americana que a economia chinesa, que continua dirigida pela burocracia do Partido Comunista Chinês e pelo seu Estado, lhe escape.
Já em 2017, a Fundação RAND (ligada ao exército americano) publicara um relatório intitulado «Conceber o inimaginável: a guerra com a China». Oito anos depois, em 2025, a RAND convida agora a administração americana a «preparar-se para operar em ambientes degradados durante períodos mais longos» e a «financiar a expansão das suas capacidades industriais de defesa».
Em relação à Ucrânia, o mesmo relatório da RAND destaca o envolvimento dos Estados Unidos na «modernização» do exército ucraniano desde 2008… A caminho da guerra contra a China, o imperialismo americano precisava de enfraquecer o regime oligárquico mafioso de Moscovo, aliado de Pequim. Ao invadir a Ucrânia, em Fevereiro de 2022, Putin permitiu à NATO começar, por interposto exército ucraniano, uma guerra longa e esgotante, cujas principais vítimas são os povos ucraniano e russo. Enfraquecido pela economia de guerra, o regime russo depende cada vez mais da China, principal importador do seu petróleo.
Assim, em Agosto, Trump convidou Putin para vir ao Alasca para encontrarem um acordo sobre a Ucrânia. Acenou-lhe com uma «parceria económica» e suculentos «investimentos russo-americanos». O objectivo: dissociar Putin dos seus parceiros chineses. Ora, para «agarrar» a sua base social de oligarcas mafiosos, Putin tem de garantir o escoamento do petróleo russo. Pondo Putin como convidado de honra do seu espectacular desfile militar de 3 de Setembro em Pequim, a direcção chinesa subiu a parada a Trump.
Registando o fracasso dos olhinhos feitos a Putin, Trump anunciou, imperturbavelmente, a ruptura com Putin. Trump considera que, no essencial, ganhou, para os efeitos de Wall Street. Primeiro, a guerra na Ucrânia reforçou a posição da indústria militar dos Estados Unidos no mercado mundial. Segundo, Zelensky ofereceu às multinacionais americanas a pilhagem das riquezas minerais da Ucrânia. Terceiro, a continuação da guerra na Ucrânia não vai custar nem mais um dólar a Washington. Como disse o general Grynkewich, chefe das forças armadas da NATO na Europa: «Washington pediu claramente aos seus aliados europeus que fizessem mais, pela simples razão de que a China – e a região do Indo-Pacífico – representa hoje uma ameaça militar real, e nós não temos meios para fazer tudo.»
Nenhuma «loucura», portanto, por trás da reviravolta… até à próxima. Uma lógica, porém: a da agonia do sistema que assenta na propriedade privada dos meios de produção.
Dominique Ferré
Por trás da escalada entre a NATO e a Rússia: os lucros da indústria de armamento
No espaço de poucos dias, os governos da Polónia, Roménia, Dinamarca e Estónia acusaram a Rússia de ter feito entrar drones ou caças nos seus respectivos espaços aéreos. A 26 de Setembro, foi a vez de a base militar francesa de Mourmelon (Marne) ser «sobrevoada por drones» (BFMTV). Em seguida, Zelensky acusou a Hungria – membro da NATO e da União Europeia – de ter feito voar drones no céu ucraniano… Para que serve e a quem serve esta verdadeira psicose?
A cada sobrevoo de drones, os governos dos Estados-membros invocam os artigos 4.º e 5.º da NATO, que obrigam todos os países da aliança a responder se um deles for atacado. Atropelam-se as declarações, uma mais belicista do que a outra. Trump afirma que é preciso abater os aviões russos. «Concordo com o presidente Trump», acrescenta o secretário-geral da NATO: «Se for preciso, há que fazê-lo. » O comandante supremo das forças americanas na Europa, general Grynkewich, ameaça: Temos demonstrado que temos capacidade para interceptar os drones e abatê-los.» Dez ministros da Defesa europeus anunciam que vão investir numa «barreira anti-drones». Macron exige que a NATO «suba a parada». O governo militarista polaco «está prestes a autorizar o seu exército a abater drones russos sem esperar pela aprovação da NATO» (Euractiv, 25 de Setembro). O embaixador do regime de Putin em Paris responde que, se tal acontecesse, «seria a guerra» entre a NATO e a Rússia.
A escalada tem um objectivo. Depois de mandarem para a matança centenas de milhares de trabalhadores e jovens, ucranianos e russos, a NATO e o regime de Putin precisam de manter um clima de marcha para a guerra. Precisam de justificar o devorarem milhares de milhões de dólares, euros e rublos para os orçamentos de guerra. Em prejuízo dos trabalhadores e dos serviços públicos… e para maior proveito dos capitalistas da indústria de armamento.