Demissão do Governo Francês: CRISE SEM FIM DA Vª REPÚBLICA

O governo de Sébastien Lecornu, recém-nomeado pelo presidente Macron, depois da queda consecutiva de quatro (!) anteriores primeiros-ministros em menos de um ano, ficará para a história como o mais efémero dos governos de todas as repúblicas francesas.

Nomeado por Macron a 9 de Setembro, à queda do seu antecessor François Bayrou, Lecornu anunciou a demissão a 6 de Outubro, horas depois de anunciar a composição do governo.

Ora, ainda na véspera, vinte e seis dias após a nomeação do novo primeiro ministro, o secretário-geral do Eliseu percorrera a lista dos dezoito ministros do seu governo, elogiando o “governo de missão, denso, que alia estabilidade e renovação”. Doze dos ministros que estavam de saída foram reconduzidos.

No dia seguinte, 6 de Outubro, concluindo ter perdido o apoio dos “republicanos” (LR, a direita tradicional), Lecornu demitiu-se. A declaração de demissão lamenta que não se tivesse conseguido levar a cabo a construção “dum caminho comum com os parceiros sociais (…), nomeadamente em matérias há muitas semanas sujeitas a bloqueios, nas quais estávamos a avançar para soluções concretas: o seguro de desemprego, o financiamento da nossa segurança social“.

A 29 de Setembro, Lecornu enviara efectivamente uma missiva aos sindicatos, em que lhes propunha “definir uma agenda social comum”. Entre as matérias passíveis de negociação, Lecornu pegara, designadamente, na segurança social: “Os oitenta anos da segurança social (…) deviam servir de ocasião para repensar o nosso modelo social (…). é, portanto, necessária uma ampla reforma do financiamento da protecção social, de molde a reduzir o peso das contribuições que gravam o trabalho”… Bem se vê que, para Lecornu, o caso era fazer mão baixa no dinheiro dos beneficiários, ”negociando” com os sindicatos esse assalto à mão armada. Não lhe deu tempo…

Nos círculos dirigentes do capital financeiro, há quem, inspirado por Trump, penda cada vez mais para a instauração dum regime ditatorial ou semi-ditatorial que amordace os sindicatos e a democracia, proibindo a luta de classes de se exprimir.

Entretanto, dissolverá Macron a Assembleia, convocando novas eleições legislativas — que só poderão agravar a insustentável situação da sua presidência? Ou demitir-se-á ele, como, para além do dirigente da France insoumise, Jean-Luc Mélenchon, até já políticos do seu próprio campo exigem — apenas para se eleger outro presidente da mesma Vª República? As instituições da Vª República francesa, em cujo pináculo está o presidencial trono, são o invólucro do Estado. Todos os partidos institucionais manifestam a sua vontade de preservar o Estado – instituição da dominação capitalista – , conservando-lhe, por conseguinte, o invólucro: a Vª República. Uns reclamam a dissolução, para que daí saia outra maioria parlamentar e outro governo… debaixo da asa de Macron. Outros há que reclamam uma “coabitação”… com Macron. Outros ainda reclamam a destituição de Macron e a eleição de outro presidente da mesma Vª República — o qual, a não revogar de imediato a Constituição, teria de respeitar os tratados da NATO (e, logo, a afectação de 5% do PIB à guerra) e da União Europeia (logo, o reembolso de uma dívida com a qual o povo nada tem que ver). Uma coisa é certa: à volta de Macron, aperta-se o torno…

Como pôr cobro ao caos ?

(comunicado do Parti des travailleurs de 6 de Outubro de 2025)

Quem provoca o caos? Os capitalistas, patrões e banqueiros, para quem só um governo que saqueie a segurança social e os serviços públicos e atente contra todos os direitos dos trabalhadores e da juventude é aceitável.

Quem provoca o caos? Macron e os seus consecutivos primeiros-ministros, que pretendem, todos eles, aplicar os planos de guerra contra os trabalhadores e os jovens, enquanto investem centenas de milhares de milhões na preparação da guerra no exterior.

Toda essa gente provoca o caos, pois toda essa gente sabe que milhões de trabalhadores e jovens estão prontos – têm-no demonstrado – para se mobilizarem em defesa dos seus direitos.

Toda essa gente provoca o caos, pois toda essa gente quer arremeter contra a classe operária, a juventude e a democracia; porém, sem certeza de conseguir os seus fins, hesita.

Como pôr cobro ao caos? Deixando de atacar a segurança social, os serviços públicos. Imputando, pelo contrário, à escola, aos hospitais e aos salários os milhares de milhões de euros que o Estado dá de prenda aos patrões (300 mil milhões por ano), aos preparativos de guerra (90 mil milhões por ano) e aos juros da dívida pagos aos especuladores (mais de 60 mil milhões por ano).

A Vª República, ao serviço dos capitalistas, não o fará, ainda que a assembleia seja dissolvida, ainda que Macron se demita.

Uma democracia autêntica não precisa de um presidente da República que tem todos os poderes, não precisa de um autêntico monarca sem coroa.

Para satisfazer as necessidades do povo trabalhador, uma democracia autêntica terá de liquidar a função presidencial e entregar todos os poderes aos delegados do povo, por ele eleitos e por ele mandatados.

Abaixo a Vª República! Lugar à Asssembleia Constituinte soberana, por uma República dos trabalhadores e da democracia!