Guerra contra o “inimigo interno”

Trump e o ministro da Guerra, Pete Hegseth, pedem aos 800 mais altos graduados do exército americano que estejam prontos para intervir para “erradicar” a contestação em solo americano.

Uma reunião “fora do comum”. No dia 30 de Setembro, 800 generais e almirantes americanos, destacados em todo o mundo, convocados para uma reunião presencial obrigatória na base militar de Quantico (Virgínia).

A ordem do dia: Trump e o seu ministro da Guerra, Pete Hegseth, revezaram-se para comunicar quais passaram a ser as missões principais do exército do país imperialista mais poderoso do mundo.

Uma vez sem exemplo, não se falou nem da China, nem da Rússia, nem da Venezuela ou do Irão…

Ante um silêncio de chumbo, Trump anunciou que, depois de Los Angeles, Washington e Portland, tinha a intenção de mobilizar o exército contra outras cidades americanas. «Vamos pô-las na ordem, uma a uma», declarou. É que, explicou, “também é uma guerra. É uma guerra interna”.

Recordando ter assinado recentemente “um decreto para formar uma força de reacção rápida capaz de ajudar a reprimir distúrbios civis”, apontou claramente o seu alvo: “um inimigo interno, e temos de o neutralizar antes que ele se torne incontrolável.

Para quem não tivesse percebido, voltou a apontar a “esquerda radical” como o inimigo a abater.

Incitou a polícia e o exército a usarem da violência, mais ainda do que já fazem: “O que eu digo é que se eles cuspirem [em cima do exército e da polícia], levam.” Mais tarde, acrescentou: “Têm licença para fazerem o que quiserem.

Os discursos de Trump e Hegseth deram ensejo a uma revoada de comentários racistas e misóginos.

Assim, referindo-se abertamente à possibilidade de usar armas nucleares, Trump declarou: “Eu chamo-lhe a palavra começada por N. Há duas palavras começadas por N, e não se pode usar nenhuma delas*.”

Hegseth, por sua vez, defendeu a restauração do “ethos do guerreiro”. Anunciou ele próprio — ex-militar acusado de agressão sexual e alcoólico notório — que as mulheres continuarão a ser admitidas na instituição… desde que passem os mesmos testes físicos que os homens. Anunciou que as regras que os soldados devem respeitar no campo de batalha serão “afrouxadas”: “Estamos aqui para preparar o exército americano para a guerra. Isso começa pela excelência, pela disciplina e pela competência letal de cada um de vocês. Vamos restabelecer os mais rigorosos padrões e não toleraremos mediocridade.

Um discurso arrepiante… que não deixou de provocar reacções, até de muitos veteranos do exército. “Muitas das palavras que me vêm à cabeça não são publicáveis”, declarou um ex-militar ao diário britânico The Guardian (de 1 de Outubro).

Em suma, um discurso de preparação para a guerra civil contra os trabalhadores americanos e as suas organizações.

Adaptado de Dominique Ferré, La Tribune des travailleurs, 8 de Outubro de 2025

* A outra “palavra começada por N” a que se referia Trump é o insulto racista supremo contra os negros nos Estados Unidos, herdado da escravatura e da segregação: “nigger”. O que Trump aqui afirma é que não se pode usar as duas «palavras começadas por N”, mas que ele gostaria de poder fazê-lo.