O “acordo de paz” para Gaza de Trump não é mais do que um ultimato que impõe a capitulação sem condições do povo palestiniano ante os genocidas. Impõe a rendição do Hamas e o seu desarmamento; e a entrega dos presos israelitas. Em troca da libertação de alguns presos palestinianos — e de nada mais.
Para conseguir o aval de Starmer, Macron e Sánchez, Trump lá mandou enjorcar uma cláusula pro-forma que diz vagamente que, num futuro indeterminado, se as condições o permitirem, não se sabe como, se enveredará por uma via “credível” para a autodeterminação e para um Estado palestiniano…
O mecanismo da “paz” usado por Trump foi simples. Ameaçou sauditas, Emirados e Qatar de consequências drásticas se o Hamas não aceitasse. Sauditas, Emirados e Qatar ameaçaram o Hamas de consequências drásticas se o Hamas não aceitasse.
Assim, o Hamas disse que aceitava o plano (em parte). Entretanto, declarou que não aceitava o seu desarmamento e deportação.
Reafirmando a teoria dos “dois Estados”, Oslo consagrara na realidade, há mais de trinta anos, o Estado teocrático único de Israel, Estado de apartheid racista.
O “acordo” de Trump visa agora consagrar, sem disfarces, o desaparecimento do povo palestiniano. Dá-lhe as seguintes opções: meteco do Estado sionista quem ficar nos bantustões; massacrada, a juventude; reduzido ao exílio e à miséria eterna, o resto.
Acontece que o povo palestiniano não capitulará nem desaparecerá.
Em contrapartida, o holocausto de Gaza destruiu completamente qualquer sombra de legitimidade do Estado nazi-sionista.
Israel pode ter vingado os seus mortos cem vezes; mas, como escreveu Alexandra Lucas Coelho no Público (5 de Outubro), Israel acabou.
Israel morreu para o mundo.
Multiplicam-se, entre os judeus, inclusive judeus religiosos e ortodoxos, em Israel e no mundo, as vozes que o compreenderam. Vozes que iniciam um caminho que, combinado com o da resistência palestiniana, levará, mais tarde ou mais cedo, ao desaparecimento do Estado sionista genocida.
A doutrina racista que o inspira, a doutrina do sionismo, muito marginal entre os judeus da Europa até ao fim da IIª guerra, foi a cortina de fumo que os imperialistas ocidentais, com Stalin, usaram para resolver o “problema judeu” na Europa a seguir à guerra, depois de Hitler ter parcialmente falhado com a sua própria “solução final”. Desembocou, como é próprio das doutrinas racistas e supremacistas, num genocídio.
Na Palestina, como em qualquer parte do mundo, só há uma solução democrática: instaurar uma República de homens e mulheres livres. Uma República de cidadãos iguais, que tenham rigorosamente os mesmos direitos e deveres ante a lei e a sociedade, independentemente da confissão, etnia ou raça, sejam eles judeus ashkenaze (“alemães”, em hebreu) ou sefarditas (“ibéricos”, em hebreu), palestinianos cristãos, judeus, religiosos ou laicos, ou muçulmanos, xiitas ou sunitas, e gente sem religião alguma: cidadãos — que votem livremente, um homem, um voto, uma Constituição democrática e laica para toda a Palestina.
É o programa básico da democracia. Porque hão-de todos os povos ter direito a ele, menos o palestiniano?
O Estado sionista cairá, pois. Fundado por terroristas, vive do terror. Usa técnicas científicas e sofisticadas de matar.
Mas um povo inteiro, expropriado, desarmado, que resiste como pode, triunfará. O Estado genocida cairá, como caiu o todo-poderoso ancien régime de Luís XVI e Maria Antonieta, liquidado pelo povo francês, e a ditadura torcionária de Salazar-Caetano, aniquilada pelo povo português.