Os resultados de eleições autárquicas são, naturalmente, influenciados por questões e personalidades locais e por listas independentes, por vezes de difícil classificação.
Apesar disso, é impossível fugir a analisá-las contra o pano de fundo dominante a nível nacional e internacional, de alta tensão política, social e económica.
A empresa de extermínio e genocídio da Palestina pelo imperialismo americano e pelo seu satélite sionista domina — apesar da pretensa paz de Trump — a situação mundial.
A administração Trump, enquanto distribui ultimatos e organiza uma troca de prisioneiros para fazer de conta que faz a paz, declara, sim, guerra, ou ameaça-a, a tudo e a todos, da Palestina à Venezuela e à China, passando pela Rússia.
O que se vive na Europa é também consequência directa destas políticas. Os governos dos países da UE/NATO são obrigados por Washington a desviar biliões do “Estado social” para o estado de guerra decretado pela administração americana. Para o conseguir, só têm uma possibilidade: investir de frente contra os direitos e conquistas das suas classes trabalhadoras. Só que, deste modo, desatam crises agudas dos regimes políticos. É ver o que se passa nos países nucleares da União Europeia, França e Alemanha.
Em Portugal, essa mesma investida contra os direitos dos trabalhadores tem para já o seu foco no desmanche às escâncaras do SNS e no “pacote laboral” preparado pelo governo Montenegro-Ventura, incluindo a tentativa de proibição virtual do direito à greve.
Neste contexto, não se pode dizer que os resultados eleitorais autárquicos tenham sido propriamente “mais do mesmo”.
A taxa de abstenção foi baixa para eleições locais: votaram mais de cinco milhões e meio de eleitores; nas legislativas mais recentes, houvera cerca de 6 milhões, mas nas autárquicas anteriores, em 2021, apenas 5 milhões.
Apesar do número elevado de votantes, o Chega, que colhera boa parte do seu recente surto eleitoral nos antigos abstencionistas, viu a sua votação global (650 mil) reduzir-se a menos de metade dos 1.345.000 votos conseguidos nas legislativas mais recentes — há apenas meio ano. Conseguiu ganhar apenas três câmaras municipais.
Entretanto, a diferença total entre a soma de votos dos partidos de direita e extrema-direita e a soma de votos nos partidos com ligações ao movimento operário passou de um milhão e meio em Maio para meio milhão em Outubro: uma queda de um milhão![1]
Curiosamente, a coordenadora do Bloco de Esquerda, que voltou a ter um péssimo resultado eleitoral, limitou-se a dizer, no seu comentário nas redes sociais, que os resultados eram a continuação da “viragem à direita”. Mas não foram.
Sim, a maioria de votos à direita manteve-se — mas encolheu drasticamente. A direita teve vitórias (curtas) em Lisboa e no Porto, em grande parte causadas pelas políticas de confusão e divisão dos principais partidos da “esquerda” — ficando muitos executivos, porém, “ingovernáveis”.
Não é mistério qual a causa principal da maioria de votos que os partidos de direita e extrema-direita obtiveram nas duas últimas legislativas: a desilusão de muitos sectores intermédios da população, economicamente entalada e politicamente desesperada com políticas que “são sempre as mesmas”, mesmo quando a “esquerda“ vai para o poder para “fazer diferente” — e faz o mesmo que a direita: no essencial, executar as ordens de Bruxelas e da NATO.
Só que desta vez, não houve “continuação” da viragem à direita.
Houve uma clara reacção eleitoral da população trabalhadora contra a ascensão da extrema-direita e contra o governo corrupto de Montenegro com ela aliado.
Comparando com as legislativas de há seis meses, o PS subiu de 1.400.000 para cerca de 1.800.000 votos. A AD+IL (quase sempre concorreram juntas nas autárquicas) perdeu por sua vez uns 400 mil votos. O Chega perdeu 700 mil ou metade da votação.
Poucos terão ido votar no PS e restantes partidos ligados à “geringonça” com grande convicção. Muitos mais, para barrar as investidas desbragadas da reacção.
Em todo o caso, este reflexo de autodefesa no terreno eleitoral é um ponto de apoio para a preparação de uma verdadeira alternativa do movimento operário e sindical, para se opor à marcha para a barbárie tocada por Trump e aplicada pelos seus numerosos lambe-botas e cães de fila, porVentura mais ou menos spinum-vivos.
[1] Deixam-se de fora destes cálculos as listas independentes.