Editorial do nº43 d’O Trabalho

Por toda a Europa, os governos preparam orçamentos que dêem aplicação às ordens do imperialismo americano e das suas correias de transmissão na Europa, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

Em si, a ordem é simples. Tem dois braços executivos: aumentar exponencialmente os orçamentos da guerra; cortar radicalmente os “orçamentos sociais”.

Ordem simples, sem dúvida — mas nada fácil de aplicar.

O homem da Spinunmviva que governa Portugal está‐se a preparar.

Minoritário, construiu uma aliança com Ventura. Agora, para o orçamento 2026, estendeu‐a a Carneiro. E assim procurará continuar, aliando‐se, à vez ou em simultâneo, a Ventura e a Carneiro, para passar o orçamento e os vários pacotes, o pacote laboral, a lei da proibição da greve, o pacote da habitação, a “revisão estrutural” do SNS.

As alianças não lhe garantem, porém, que consiga passar contra a luta de classes, nas empresas e na rua.

Em França, aplicar a ordem simples de Trump já custou, num ano, cinco primeiros‐ministros e meio ao presidente Macron.

Os partidos da oposição francesa, PS, PCF e France insoumise, aceitam, uns um pouco mais, outros um pouco menos, o quadro da Constituição bonapartista da Vª República, em que quem manda é o Presidente. Mas oscilam entre procurar um lugar à mesa do poder ‐ o que acham, em geral, mais interessante do que tentar acabar com a Constituição antidemocrática da Vª República; e o terem medo de se “queimarem”, ficando associados às radicais medidas de ataque aos direitos dos trabalhadores exigidas à Assembleia Nacional por Macron, tal como por Merz e von der Leyen, em nome de Trump. Queimem‐se mas é os homens de Macron, pensam eles!

Embora rejeitando o corte orçamental de 44 mil milhões de euros que Bayrou quis impor, o PS francês, que foi membro da coligação eleitoral Nova Frente Popular, disse que aceitaria negociar cortes até metade do valor de Bayrou — mas sem pôr em causa o aumento das despesas militares e os cortes das despesas sociais. Bayrou, note‐se, foi um dos primeiros‐ministros de fugida. Entretanto, já veio outro, Lecornu; e já caiu; e já voltou.

Na Alemanha, o governo de bloco central da CDU/CSU democrata‐cristã e do SPD social‐democrata chefiado por Merz fez passar à socapa uma alteração da Constituição (contra a qual Merz fizera a sua campanha eleitoral…) para poder gastar centenas de milhar de milhões em armamento, à força de dívida do Estado. Mas, para reequilibrar as contas, Merz precisa agora de chegar a acordo com o SPD, o grande e mil vezes traído partido da classe trabalhadora alemã, para impor o que o chanceler chamou o “Outono das reformas”. O dito Outono consiste, na versão mínima, em aumentar a idade da reforma, privatizar pensões, desmantelar a segurança social e as prestações de saúde (ver caixa).

Mas nem isso bastará.

Há meses, fez‐se, na fábrica‐mãe da Volkswagen, o ensaio geral de um ataque frontal à classe operária industrial da Alemanha, com cortes salariais directos e despedimentos em massa. Perante a reacção maciça dos operários, o ensaio só muito parcialmente foi bem sucedido — e mesmo isso só graças à colaboração das principais direcções sindicais.

A Alemanha é a maior potência industrial da Europa. Um estudo da Allensbach junto de 169 empresas industriais alemãs indicou que mais de metade das empresas pensa que o negócio estagnará ou baixará no ano que vem; mais de metade dos construtores de máquinas acha que está para perder a sua actual liderança tecnológica para o estrangeiro. 94% das empresas dos fortíssimos sectores químico e siderúrgico receiam que o seu ramo esteja para emigrar completamente para o estrangeiro (Handelsblatt).

São números estarrecedores, indicativos de como, sob a pressão da guerra entre a NATO e a Rússia na Ucrânia e das guerras comerciais de Trump contra a China e o mundo, o capital alemão olha para o abismo — quando o “motor económico” da Europa já está em recessão económica há dois anos.

Há uma excepção: nos últimos dois anos, o valor da acção do maior fabricante de armas da Europa, a Rheinmetall, decuplicou…

A grande imprensa económica liberal faz nestes dias parangonas com “Dívida: Vem Aí Uma Emergência” (The Economist, 18 de Outubro). À sua maneira, o Economist explica: uma vez a dívida pública chegada a níveis insustentáveis, como está em praticamente todo o mundo desenvolvido, nenhum governo democrático alguma vez conseguiu reduzi-la drasticamente a não ser através da guerra ou da inflação. Ou das duas.

O movimento “Solidários!” convoca um Encontro Nacional de sindicalistas, activistas laborais e membros de comissões de trabalhadores para 2 de Novembro, na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa (apelo neste número). A convocatória diz, e muito bem, que a hora é de “mobilizar, criar unidade para a greve geral”.

Em Portugal, França, Alemanha, nos EUA e no mundo, só a luta de massas dos trabalhadores e da juventude poderá barrar o caminho à barbárie.