De Gaza à Ucrânia, passando pela Venezuela… O caminho de Trump leva à China

O documento começa assim: «Nós, abaixo assinados, saudamos o compromisso e a implementação verdadeiramente históricos de todas as partes no acordo de paz de Trump (…). Apoiamos e encorajamos os esforços sinceros do presidente Trump para pôr fim à guerra em Gaza…» (13 de Outubro, Sharm El Sheikh, Egito). Todo o resto segue na mesma linha. É assinado pelo emir do Qatar, pelo marechal Sissi do Egito, pelo presidente turco Erdogan… e pelo próprio Trump, que se auto-congratula.

E pode fazê-lo… porque obteve a lealdade dos déspotas turco, egípcio e catari, comprometendo-se todos a usar as suas relações com o Hamas palestiniano para impor a tutela direta de Trump em Gaza. Amanhã, de acordo com o acordo, tropas árabes e turcas serão destacadas para fazer reinar a «ordem americana» e garantir a «segurança de Israel».

A mesma «lógica» anima Trump, seja na América Latina ou na Ucrânia.

Há meses que vem qualificando a Venezuela de Estado «narcoterrorista», enviando uma armada para cruzar ao largo da costa venezuelana. Deu um passo adiante em 15 de Outubro, assumindo ter autorizado «ações clandestinas da CIA». Por outras palavras: preparar um golpe de Estado. E acrescenta que não exclui ataques ao território venezuelano. Ao mesmo tempo, do outro lado do continente, Trump pretende comprar por 20 mil milhões de dólares a reeleição do seu «amigo» Milei na Argentina.

Quanto à guerra na Ucrânia, Trump não desistiu de impor um acordo a Putin. Durante semanas, anunciou em voz alta que iria entregar a Zelensky mísseis Tomahawk, com os quais o exército ucraniano poderia reduzir Moscovo a cinzas. Preocupado, sobretudo porque o seu regime está em plena crise, Putin decidiu aceitar um novo encontro com Trump. Quanto a Zelensky, que acreditava receber os preciosos mísseis, voltou de Washington de mãos vazias, depois de ter de engolir um sapo: para facilitar um hipotético acordo com Putin, Trump considerou o reconhecimento da anexação pela Rússia das regiões ucranianas que ocupa. E, em segundo lugar, este anúncio de Trump obteve pela primeira vez, a 21 de Outubro, a aprovação de Zelensky e dos governos alemão, britânico e francês.

Fazer reinar a «pax americana» sobre as ruínas de Gaza, pôr ordem no seu quintal latino-americano, impor um acordo a Putin: tudo isto pode parecer um conjunto de actos desordenados. Mas não é nada disso: permite ao imperialismo americano concentrar-se no essencial: a China.

«Estamos lá», respondeu Trump a um jornalista que lhe perguntou se os Estados Unidos tinham «entrado em guerra comercial contra a China», após os novos atritos sobre o petróleo e os metais raros. Guerra comercial hoje, guerra «pura e simples» amanhã? Além disso, segundo o Wall Street Journal, «o Pentágono está a pressionar para duplicar a produção de mísseis com vista a um eventual conflito com a China» (29 de Setembro). Como afirmava o apelo «contra a guerra e a exploração» adotado por militantes e organizações operárias de 41 países, nos dias 21 e 22 de Março passado: «O genocídio do povo palestiniano, três anos de banho de sangue na Ucrânia, os massacres na República Democrática do Congo, os preparativos para a guerra contra a China, etc., parecem ser conflitos distintos, mas na realidade são facetas de uma única e mesma guerra que tende a generalizar-se. Esta marcha para a guerra é a consequência da sobrevivência de um sistema historicamente condenado: o sistema capitalista.» É por isso que, como acrescentava o apelo, «nos opomos aos preparativos para a guerra contra a China, cuja única motivação são os interesses de Wall Street, sem que isso signifique o menor apoio político ao governo chinês.»