Carlos Moedas proclama a sua “inocência”: “a infeliz tragédia do Elevador da Glória foi derivada de causas técnicas, não políticas”

Na sequência da divulgação do Relatório Preliminar sobre o acidente do Elevador da Glória o recém reeleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, apressou-se a “sacudir a água do capote”. Declarou que “a infeliz tragédia do Elevador da Glória foi derivada de causas técnicas e não políticas”.

De uma maneira geral, todos os acidentes com infra-estruturas (sejam elevadores ou outros meios de transporte, edifícios, pontes, etc.) têm como causa imediata e directa erros técnicos ou erros humanos. Podia-se citar o triste caso de Entre-os-Rios, cuja causa directa foi a degradação da estrutura da ponte Hintze Ribeiro – uma causa técnica. Mas a causa mais remota, a montante, foi a política de desinvestimento na manutenção das infra-estruturas existentes, enquanto se investiam milhares de milhões na construção de auto-estradas – muitas das quais desnecessárias (como o demonstra o reduzido tráfego que ainda hoje as utiliza)  – para dar satisfação ao lobby da construção civil, por um lado, e por motivos eleitoralistas por outro (“obra nova” – e inaugurações em período eleitoral – dão mais visibilidade do que a discreta, mas indispensável, manutenção das infra-estruturas existentes).

As “causas técnicas” têm, quase sempre, raízes políticas. No caso em apreço, as causas técnicas apontadas no Relatório Preliminar indiciam claramente essas raízes: redução do número de trabalhadores na Carris; externalização de serviços (manutenção e inspecção); adjudicação dos mesmos a empresas sem qualificação para os executar; redução de custos pela aquisição de materiais (no caso, o tristemente célebre cabo) mais baratos, mas inadequados para a utilização prevista, etc. Tudo procedimentos que, nas folhas de Excel dos Relatórios de Contas, possam ser apresentados como o “triunfo de uma gestão eficiente”. E os trabalhadores que vão para o desemprego, a desqualificação dos serviços, os mortos e feridos em acidente? Danos colaterais!

Portanto, nada que ver com “causas políticas”. Meras “causas técnicas”. Inimputabilidade garantida dos decisores pelas suas decisões.

E se a causa tivesse sido erro humano, do trabalhador que conduzia o elevador, o guarda-freio? Para responder a esta questão, olhe-se o caso do acidente com o carro que transportava o então ministro Cabrita… o capitalismo no seu melhor!