Brasil: Massacre nas favelas do Rio

Uma operação mortal ao serviço de uma política de repressão e destruição dos serviços públicos

Foi um verdadeiro massacre o que ocorreu em duas favelas do norte do Rio de Janeiro, em 28 de Outubro, por ordem do governador bolsonarista Cláudio Castro. A operação mobilizou 2.500 militares e policiais nas favelas do Alemão e da Penha. Custou a vida de cerca de 150 moradores e quatro policiais.

A invocada «luta contra o tráfico de drogas» não passa de um pretexto. Pois aqueles que controlam e lucram com o tráfico não vivem nas favelas e pertencem à burguesia. Uma recente operação da polícia federal em São Paulo revelou as ligações entre grupos criminosos e grandes empresas do sector financeiro com sede na luxuosa avenida Faria Lima.

No Rio, 22,16% da classe trabalhadora vive nas favelas, em condições precárias, até mesmo miseráveis. Os programas sociais implementados por Lula aliviaram a fome de alguns milhões de brasileiros (apesar de dois milhões de famílias ainda viveremm em situação de insegurança alimentar), mas não erradicaram a pobreza.

Esta acção de um governador do Partido Liberal, o partido de Bolsonaro, traz ecos da política de Trump, que classifica os traficantes de drogas como «narcoterroristas», portanto «em guerra» contra o Estado (e contra os Estados Unidos). Não é por acaso que o governador Cláudio Castro visitou os Estados Unidos há dois meses para discutir essa questão com o governo Trump.

Um projecto de lei que visa classificar esses grupos como «narcoterroristas» está actualmente em discussão no Congresso Nacional (Parlamento) do Brasil. O senador Flávio Bolsonaro declarou recentemente que os militares americanos deveriam bombardear os barcos dos traficantes na baía de Guanabara, como fazem no mar das Caraíbas, ameaçando a soberania venezuelana.

Estas operações policiais causam a paralisação dos serviços públicos nas áreas afectadas, perturbando o seu funcionamento, o que diz muito sobre o desprezo da classe dominante pela população das favelas.

O projecto de reforma administrativa em análise no Congresso, devido à política de «ajuste orçamental» do governo Lula para o reembolso da dívida, visa destruir esses serviços públicos e abrir caminho para novas privatizações. Por enquanto, as direções dos sindicatos do funcionalismo público protestam timidamente, sem exigir a retirada do projeto, «negociando» alguns aspectos à margem.

Por outro lado, o reforço dos serviços públicos nas favelas permitiria responder às necessidades e criar empregos para os jovens, muitos dos quais actualmente não têm outra perspectiva além de serem contratados por traficantes de drogas.

Após a intervenção policial, o governo Lula propôs uma emenda constitucional para integrar as forças policiais municipais, estaduais e federais sob o controle do governo central. Isso não impedirá novos massacres.

As organizações trabalhistas devem condenar os massacres da polícia e reivindicar a dissolução da Polícia Militar, instituição herdada da ditadura.

Devem lançar uma campanha para a proteção dos jovens das favelas através da criação de serviços públicos. Os fundos para isso existem, desde que o governo acabe com as isenções fiscais concedidas às grandes empresas e aos bancos, tribute as grandes fortunas e pare de pagar a dívida externa. As organizações operárias também devem convocar a luta unida dos trabalhadores e da população pela retirada do projeto de «reforma administrativa».

De forma mais geral, elas devem lutar para expulsar Trump e a sua política de guerra na América Latina sob o falso pretexto de «combate ao tráfico de drogas».

Por Anísio Garcez Homem, 30 de Outubro
(editor do boletim “A Classe Trabalhadora”, no Brasil)