Estados Unidos: Enquanto a deriva autoritária de Trump continua, «sete em dez americanos vivem de dia para dia»

Os círculos chegados ao presidente reconhecem que ele está a preparar um golpe de força. A classe trabalhadora sofre as consequências da política de Trump. Multiplicam-se as greves por melhores salários. Estas greves, tal como as eleições municipais em Nova Iorque, levantam uma questão: o movimento operário tem de romper com os dois partidos capitalistas, os democratas e os republicanos.

A deriva autoritária de Trump continua. Na revista The Economist, o ex-ideólogo do «trumpismo», Steve Bannon, confirmou que «há um plano» para impor um terceiro mandato de Trump. Lembremos que a 22.ª emenda à Constituição americana proíbe mais de dois mandatos presidenciais. Um terceiro mandato seria, portanto, um golpe institucional. Bannon: «Revelaremos o plano no momento oportuno», acrescentando que «o país precisa dele como presidente. Temos de terminar o que começámos.» Terceiro mandato? Fazendo como se não estivesse para aí virado, Trump deixou escapar, a 27 de Outubro: «Não tenho pensado nisso, para dizer a verdade. Mas nunca tive valores tão bons nas sondagens.»

Nas sondagens, talvez… Mas na vida real, a classe trabalhadora americana está a começar a pagar bem caro a política de Trump. O jornal indiano The Economic Times publicou uma pesquisa sobre «a crise do poder de compra» nos Estados Unidos, relatando que «quase sete em cada dez americanos vivem de dia para dia. (…) Quer dizer: esperam pelo próximo salário para pagar todas as contas. A mínima urgência – uma reparação do carro, uma conta médica ou um aumento inesperado da renda – pode atirar famílias para o buraco financeiro. (…) A inflação e o aumento dos preços são factores de vulto. Os produtos essenciais como a mercearia, as rendas de casa e a energia têm subido mais do que os salários» (31 de Outubro). Um fenómeno que, conclui o jornal, «afecta milhões de pessoas».

Somem-se-lhe as consequências do shutdown, que paralisa todas as agências federais devido aos desacordos, no Congresso, entre republicanos e democratas acerca do orçamento. Assim, 1.400.000 funcionários públicos não receberão salário este mês. Mas não é só: metade dos vales do programa SNAP (ajuda alimentar aos mais pobres) não será paga. Em reportagem junto de trabalhadores pobres beneficiários do SNAP, a NBC registou (3 de Novembro) as seguintes reflexões de eleitores que há um ano votaram em Trump: «Ele está ocupadíssimo com política externa e com a demolição da Casa Branca [onde Trump está a construir um salão de baile grandioso]. Sei que é financiado por fundos privados. Podia-se usar para ajudar as pessoas. Parece-me tudo muito egoísta

Esta situação social alimenta, todos os dias, novas greves, principalmente por reivindicações salariais. Entretanto, a deriva autoritária, cada vez mais marcada, provocou a mobilização de sete milhões de manifestantes nas ruas, a 18 de Outubro. No entanto, o Partido Democrata fez tudo para que as palavras de ordem das manifestações se limitassem a reivindicações democráticas o mais gerais possível. Os principais dirigentes do movimento sindical teimam, por seu lado, em subordinar-se politicamente ao Partido Democrático, um partido tão capitalista como o de Trump. Ora, toda a situação exige que o movimento operário se ponha à cabeça da luta contra a política anti-operária e antidemocrática de Trump. Para tal terá, porém, de romper com os dois partidos capitalistas.

De costa a costa, as greves continuam

Na Califórnia, as enfermeiras de seis hospitais pertencentes à empresa Tenet fizeram um dia de greve em 30 de Outubro. Desde Fevereiro, o seu sindicato, o CNA, – que representa 3.100 enfermeiras – está em negociação com a administração. Não vendo avanços, as enfermeiras votaram pela greve, por unanimidade, em Setembro. Entre as reivindicações: pausa de almoço garantida e contratação de enfermeiras para colmatar a falta de pessoal. Enquanto as condições de trabalho e os cuidados se deterioram, o grupo Tenet registou 4.100 milhões de dólares de lucros em 2024.

No estado do Tennessee, em 29 de Outubro, os trabalhadores da fábrica de Chattanooga, propriedade da empresa alemã Volkswagen, votaram a favor de preparar a greve. O seu sindicato, o UAW, que representa os 3.200 trabalhadores, pede um aumento salarial de 24%. Os trabalhadores da fábrica conquistaram o direito de se sindicalizarem há apenas um ano: uma novidade de primeira ordem para uma fábrica de automóveis num estado do Sul.

Nelly Mary