A 2 de Novembro, na CBS, Trump declarou: «Eu instaurei a paz no Oriente Médio. Durante 3.000 anos, eles não conseguiram. Eu consegui.» Uma fanfarronice sinistra, a anos-luz da realidade.
Conta um refugiado palestino: «O exército cercava as casas, havia aviões… um drone ordenava: “Saiam da casa, senão ela será destruída com vocês dentro.” Eram cinco horas da manhã. Deixámos tudo para trás – os nossos pertences, a nossa vida, o nosso destino.» (Radio France, 3 de Novembro). Não é uma cena na Faixa de Gaza; é em Jenin, uma grande cidade no norte da Cisjordânia, em Fevereiro passado.
Inquire Radio France do «futuro para os 20 000 deslocados do campo de Jenin na Cisjordânia ocupada? Em Fevereiro passado, após várias semanas de combates, o exército israelita esvaziou este campo que, desde a década de 1950, abrigava refugiados da Nakba – a deslocação forçada de 700 000 palestinianos durante a criação do Estado de Israel, em 1948, e os seus descendentes. (…) Desde então, mais de 500 famílias, novamente deslocadas, ocuparam os dormitórios de uma universidade de Jenin, de onde agora estão ameaçadas de expulsão.»
Enquanto em Gaza o cessar-fogo que entrou em vigor a 10 de Outubro no âmbito do «plano de paz de Trump» continua a ser violado diariamente por Israel (com, pelo menos, 226 mortos em bombardeamentos em três semanas), a expulsão da população palestiniana da Cisjordânia não conhece tréguas. Mais de mil palestinianos foram assassinados pelas forças israelitas ou por grupos de colonos armados desde Outubro de 2023. O mês de Setembro, época da colheita da azeitona – actividade vital para dezenas de milhares de famílias de camponeses – foi particularmente marcado pela violência diária dos colonos, protegidos pelo exército e pela polícia israelitas.
O jornalista palestiniano Basel Adra testemunha assim, no meio de comunicação judaico-árabe +972 (de 27 de Outubro), a expansão da colonização a sudeste de Hebron: «A construção do posto avançado ilegal (colónia – nr) de Al-Halaweh – onde os colonos, segundo o conselho da aldeia de Masafer Yatta, já assumiram o controlo de quase toda a terra privada – foi acompanhada por um forte aumento da violência. Este posto avançado tornou-se um pesadelo para os habitantes das aldeias vizinhas», declarou Nidal Abou Younis, chefe do conselho. «Os colonos atacam regularmente os habitantes e os estudantes que passam.» (…) Eles incitaram os soldados de uma base próxima a vir prender cerca de dezasseis pessoas, incluindo mulheres e crianças. Desde então, os colonos levam os seus rebanhos a pastar, todos os dias, nos olivais e terras cultivadas dos habitantes. Muitos destes, aterrorizados com a possibilidade de roubos e ataques, já não se atrevem a deixar as suas ovelhas ao ar livre.»
Para grande desgosto de Trump e de todos aqueles que apoiam o seu «plano de paz», a paz na região exige, em primeiro lugar, o reconhecimento dos direitos legítimos do povo palestiniano à terra, à nação e ao regresso dos refugiados.
Jean Alain
Na terça feira, 21 de Outubro de 2025, o Knesset (parlamento israelita) votou a aprovação preliminar de um projecto de lei (apresentado por Avi Maoz, dirigente do partido de extrema direita Noam, que não pertence à coligação governamental) para impor a soberania israelita sobre a Cisjordânia – ou seja a anexação do território palestiniano estabelecido pelos Acordos de Oslo de 1993.
Apesar da oposição do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e do seu partido Likud, os legisladores do Knesset, com 120 lugares, votaram o avanço do projecto por 25 a 24 na primeira das quatro votações necessárias para se tornar lei.
Um comunicado do Knesset afirmou que o projecto de lei foi aprovado em primeira leitura «para aplicar a soberania do Estado de Israel aos territórios da Judeia e Samaria (Cisjordânia)». Agora, ele seguirá para a Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Knesset para novas deliberações.
Para além da extrema direita (o partido Poder Judaico, do ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, e a facção Sionismo Religioso, do ministro das Finanças Bezalel Smotrich) – votaram a favor do projecto de lei alguns membros da coligação de Netanyahu. A maioria dos legisladores do Likud (partido de Netanyahu) absteve-se ou não compareceu à votação, mas foi um membro deste partido – Yuli Edelstein – quem deu o voto decisivo a favor do projecto de lei.
Numa publicação no X Smotrich afirmou: «O povo pronunciou-se. Chegou a hora de aplicar a soberania total sobre todos os territórios da Judeia e Samaria — a herança dos nossos antepassados — e promover acordos de paz em troca da paz com os nossos vizinhos a partir de uma posição de força».
Também no X Yuli Edelstein justificou o seu voto: «Neste exacto momento, a soberania israelita em toda a nossa pátria está na ordem do dia».
Num comunicado, o Likud classificou os votos como «mais uma provocação da oposição com o objectivo de prejudicar as nossas relações com os Estados Unidos». (…) «A verdadeira soberania será alcançada não através de uma lei ostensiva para ficar registada, mas através de trabalho adequado no terreno».
A Autoridade Palestiniana e mais de uma dúzia de países árabes e muçulmanos (a Jordânia, o Egipto, o Qatar, o Kuwait, a Indonésia, o Paquistão, a Turquia, Omã, a Líbia, a Malásia, a Nigéria, Djibuti e a Gâmbia) assinaram uma declaração conjunta encabeçada pela Arábia Saudita, condenando as votações de anexação como violações «flagrantes» do direito internacional. Afirmaram que «condenam veementemente a aprovação pelo Knesset israelita de dois projectos de lei que visam impor a chamada «soberania israelita» sobre a Cisjordânia ocupada e sobre os colonatos ilegais israelitas como violação flagrante do direito internacional».
A 24 de Outubro (três dias depois da aprovação preliminar) Israel suspendeu estes projectos de lei de anexação da Cisjordânia. Em comunicado, Ofir Katz, presidente da coligação governamental, afirmou que os projectos para a anexação total da Cisjordânia e para a anexação do colonato de Maale Adumim, perto de Jerusalém, não avançarão “até novas ordens”.
Em declarações à imprensa no Aeroporto Internacional Ben Gurion, no dia seguinte, Vance afirmou que a votação foi uma manobra política sem qualquer significado prático. O gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, declarou em comunicado que a votação parlamentar sobre a anexação foi uma provocação política deliberada da oposição para semear a discórdia durante a visita do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, a Israel.
Apesar das diferentes retóricas, o objectivo é o mesmo: a ocupação colonial de todo o território da Palestina histórica pelo Estado de Israel, proclamando-a abertamente por decreto ou prosseguindo “apenas” a expulsão das suas terras, perseguições, prisões e assassinatos dos palestinianos na Cisjordânia, há muito em curso.