A 4 de Novembro passado, Zohran Mamdani, o candidato do Partido Democrático, venceu as eleições municipais de Nova Iorque. Membro dos Democratic Socialists of America (DSA), ala «esquerda» do partido, Mamdani centrou a sua campanha em conteúdos «sociais», comprometendo-se, caso fosse eleito presidente da câmara, a tornar as creches e os autocarros gratuitos e congelar as rendas de casa.
Mamdani venceu a eleição com mais de um milhão de votos (de um total de 5 milhões de eleitores em Nova Iorque). É a primeira vez que, desde 1969, um presidente da câmara de Nova Iorque é eleito com mais de um milhão de votos. A taxa de participação também bateu recordes: mais de 2 milhões de nova-iorquinos foram às urnas, contra apenas 1 milhão nas anteriores eleições, em 2021.
O facto marcante da eleição de Mamdani é, antes de tudo, a mobilização de quase 100 mil pessoas, entre as quais muitos trabalhadores e jovens, que participaram na campanha, fazendo porta a porta, distribuições, campanhas telefónicas… Há uma relação entre esta mobilização e o número significativo, pouco habitual, de habitantes que foram votar. Há indiscutivelmente um movimento político que aspira a bloquear a política reaccionária de Trump, mas também a resistir às medidas anti-sociais e anti-operárias – praticadas tanto por republicanos como por democratas.
Foi por ele se ter apresentado com um programa com reivindicações sociais que a vitória de Mamdani despertou tal entusiasmo entre os habitantes da cidade: «Espero que Nova Iorque se torne mais acessível para todos nós, especialmente para os trabalhadores», declarou uma reformada. Um jovem professor de história contou: «A campanha deu-me energia para me envolver novamente na política» (The Guardian, 7 de Novembro).
Na conclusão do seu comunicado sobre os resultados de 4 de Novembro, os DSA escreveram: «Estamos a construir um movimento político para a e pela classe trabalhadora», indicando ser tal movimento indispensável para levar adiante o programa eleitoral de Mamdani. Se tem algum sentido tal fórmula política, será preciso que se traduza em acções. Ora, os DSA terão, para isso, de levar a ruptura às últimos consequências, pôr em causa a filiação no Partido Democrático e apoiar-se no movimento político que se começou a formar em Nova Iorque para lançar as bases de um verdadeiro Partido dos Trabalhadores (Labor Party), assente nos sindicatos e no movimento operário.
É essa a questão que hoje se põe a Mamdani e aos DSA: até que ponto se dispõem eles a romper com o Partido Democrático? Para já, Mamdani não dá resposta clara à pergunta. Não se pode deixar de notar que, depois de um discurso de vitória muito radical, as primeiras declarações de Mamdani sobre a sua futura administração são nitidamente menos radicais. Entre os primeiros nomes: Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio no tempo de… Biden.
Mamdani assumirá o cargo a 1 de Janeiro. Não cabe dúvida de que as dezenas de milhares de nova-iorquinos que fizeram campanha e depositaram as suas esperanças nesta eleição estarão vigilantes.
Nelly Mary

O que eles disseram…
• Do lado de Trump
«Perdemos um pouco de soberania ontem à noite em Nova Iorque, mas vamos tratar disso, não se preocupem», apressou-se a reagir Trump numa conferência de imprensa. Os republicanos e a imprensa burguesa reacionária alertam para a eleição de um presidente da câmara «comunista» em Nova Iorque; como o republicano Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, que declarou: «Os democratas de Nova Iorque escolheram um verdadeiro extremista e marxista, e as consequências serão sentidas em todo o país.»
• À «esquerda»
À sua maneira, a «esquerda» nos Estados Unidos e na Europa também fala da vitória do «socialismo». Em França, desde o Partido Socialista até La France insoumise, todos se apressaram a celebrar os resultados, como testemunha esta publicação de Mathilde Panot (LFI) no X: «Esta vitória traz consigo uma lição: só a esquerda de ruptura pode derrotar a extrema direita.» Esquerda de ruptura? Candidato marxista? O programa de Mamdani é, acima de tudo, um programa de medidas sociais. É certo que elas parecem particularmente progressistas no contexto actual, mas estão longe de questionar a propriedade privada dos meios de produção!
• Reflexões de ativistas negros americanos
Nnamdi Lumumba, ativista do Ujima People’s Progress Party, partido negro trabalhista do estado de Maryland: «A vitória de Mamdani é claramente um sinal encorajador que anuncia a participação da classe trabalhadora na cena eleitoral. Mamdani trouxe à luz muitas contradições que a classe capitalista não queria discutir. O facto de ele ter conseguido mobilizar as pessoas através do seu trabalho porta a porta é um sinal encorajador e mostra o caminho a seguir para a organização de massas em geral. Consideramos que, para fazer uma campanha, é precisa organizar forças no terreno e que as pessoas ouvirão se lhes for dado um motivo para isso. No entanto, não espero que ele cumpra as suas promessas de campanha.”
Khalid Raheem, militante do New Afrikan Independence Party em Filadélfia: “Resta apenas esperar e ver como as coisas vão evoluir. É bom que ele tenha conseguido derrotar os seus adversários. As pessoas devem continuar a organizar-se e a elaborar estratégias para levar adiante as promessas de campanha de Mamdani. A batalha será difícil. Mas, no final das contas, as pessoas devem exigir que ele cumpra as suas promessas eleitorais.»
Outras eleições de 4 de novembro
Outras eleições ocorreram em 4 de Novembro: as de governadores dos estados da Virgínia e Nova Jersey, eleições legislativas parciais, bem como eleições para conselhos escolares e alguns conselhos municipais.
A rejeição a Trump manifestou-se a todos os níveis, tanto nos estados que votam nos democratas quanto nos que votam nos republicanos. Assim, mesmo nos estados mais conservadores, como o Texas, os pais de alunos expulsaram das comissões escolares os fanáticos religiosos pró-Trump que defendem a proibição da vacinação.
Na ausência de candidaturas operárias, essa rejeição a Trump traduziu-se, por vezes, num voto nos democratas. O que não faz do Partido Democrata um «amigo dos trabalhadores e do movimento operário”. À imagem de Abigail Spanberger, nova governadora democrata da Virgínia e directamente proveniente das fileiras da CIA.
No entanto, «Zohran Mamdani e Abigail Spanberger foram eleitos nos Estados Unidos sob as mesmas cores do Partido Democrata», observa o editorialista do Le Monde.