Até onde chegarão Sahra Wagenknecht e os seus apoiantes?

Na Alemanha populistas de "esquerda" e nostálgicos do Terceiro Reich conversam

Os militantes do movimento operário na Europa observam com preocupação a ascensão do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). É um partido violentamente anti-imigrantes e eivado de neonazis da base à direcção. Um partido ligado a uma facção do grande patronato, que manipula o desespero provocado por trinta anos de privatizações e desemprego nos Länder (estados federados) do Leste da Alemanha, onde consegue resultados eleitorais significativos.

Pode uma organização que se reivindica dos trabalhadores, do socialismo e, muito basicamente, da democracia ter a menor complacência, contactos sequer, com tal partido, inimigo mortal dos trabalhadores?

A questão merece análise depois de ver a parangona do jornal Süddeutsche Zeitung no dia 12 de Novembro: «Piscadela de olho amigável de Sahra Wagenknecht à AfD.»

Até Outubro de 2023 dirigente de Die Linke (A Esquerda), Wagenknecht fundou, em Janeiro de 2024, o partido Aliança Sahra Wagenknecht (BSW).

É mais do que uma «piscadela de olho amigável à AfD»

O caso não é apenas a «piscadela».

Há meses que, no Land da Turíngia – devastado pelo desemprego e onde a AfD obtém bons resultados eleitorais –, há contactos oficiais entre a AfD (Aliança pela Alemanha) e a BSW (Aliança Sahra Wagenknecht).

No final de Junho, o presidente do grupo parlamentar da BSW da Turíngia, Augsten, encontrou-se com Höcke, seu homólogo da AfD, reconhecido no seu próprio partido como fascista inveterado. Augsten declarou que «conversaram de forma construtiva e aberta sobre (os seus) diferentes pontos de vista, problemas e perspectivas para a política regional» (Die Zeit, 4 de Julho).

Estes contactos na Turíngia dão-se com a aprovação de Sahra Wagenknecht, presidente nacional da BSW, que não exclui, em discurso directo, semelhantes contactos a nível nacional: «Se me pergunta se eu também falaria com o Sr. Chrupalla (co-presidente nacional da AfD) se houvesse razão concreta para o fazer, como foi o caso na Turíngia durante a discussão entre os chefes dos grupos parlamentares, eu diria: sim, claro» (3 de Julho). Segundo Chrupalla, contactos a nível nacional dessa natureza já terão ocorrido, o que Wagenknecht não confirmou.

Passo qualitativo

Quaisquer que sejam os pretextos para justificar os contactos na Turíngia, Wagenknecht e Augsten cruzaram a linha vermelha. A AfD não é apenas um partido capitalista, é também um partido racista que exige a «remigração» dos trabalhadores imigrantes. É um partido cujos chefes não escondem a sua admiração por Hitler, carrasco da classe trabalhadora alemã. Ninguém se pode reivindicar defensor dos trabalhadores e da democracia e conduzir conversações com os nostálgicos do Terceiro Reich.

Para Wagenknecht, este passo qualitativo é fruto de uma longa deriva. Membro do partido único da burocracia estalinista da Alemanha Oriental antes da queda do Muro de Berlim, ela foi, desde 2010, chefe do grupo parlamentar do partido Die Linke (A Esquerda). Em 2018, fundando o movimento Aufstehen (Levantem-se), pronunciou-se contra a abertura das fronteiras aos trabalhadores imigrantes. Em outubro de 2023, deixou Die Linke para constituir o seu próprio partido, a BSW. Um partido que, segundo a sua co-presidente, reivindica «com urgência uma reforma do direito de asilo», de modo que quem o veja recusado possa «ser deportado mais sistematicamente» (RedaktionsNetzwerk Deutschland, 16 de Dezembro de 2023).

Cartaz da BSW nas eleições de 2024
(O nosso país quer
MENOS MIGRAÇÃO
Mas os partidos tradicionais estão surdos!)

Atrás de uma deriva pode esconder-se outra

Os contactos entre a BSW e a AfD foram quase unanimemente condenados pelos militantes operários de todas as tendências na Alemanha.

Com, pelo menos, uma excepção. Em Die Stimme (A Voz), Werner Uhde justificou os contactos entre a BSW e a AfD, lembrando que a AfD consegue bons resultados eleitorais manipulando o desespero dos trabalhadores do Leste. Escreve: «Ao organizar discussões com representantes da AfD, designadamente no Leste, Sahra Wagenknecht visa esses eleitores descontentes.» Manipulação grosseira, pois é com os chefes da AfD que Wagenknecht discute, não com os «eleitores descontentes». Mas isso não indigna Werner Uhde. O que o indigna, escreve, é «a campanha internacional de difamação da BSW».

Com nazis não se discute

Wagenknecht já não se reivindica do socialismo, mas Uhde ainda o faz*. Só que se esqueceu de todos os seus princípios.

Não assim a classe operária alemã. Em Abril de 2018, quando Höcke, chefe fascista da AfD na Turíngia, alegou vir «apoiar» a greve dos trabalhadores da Opel em Eisenach, estes puseram em prática um princípio elementar: com nazis não se discute; corre-se com eles!

Dominique Ferré, La Tribune des travailleurs nº 516

* Werner Uhde é um membro do agrupamento internacional da CCI-POI (em França, Corrente Comunista Internacionalista e Partido Operário Independente). Esta organização não se pronunciou, porém, tanto quanto sabemos, sobre os contactos entre a AfD e a BSW. No entanto, os trabalhadores e os jovens doutros países têm o direito de querer conhecer a posição desta corrente e das suas figuras públicas, nomeadamente o deputado da LFI-POI Jérôme Legavre, sobre a posição do seu camarada Werner Uhde a justificar contactos com nazis.