Para Trump – que de repente passou a defensor da ONU –, esta é uma das “aprovações mais importantes da história das Nações Unidas”. Pois é: a resolução adoptada pelo Conselho de Segurança em 17 de Novembro confere mandato a um “comité de paz” como órgão de “governação de transição” em Gaza, presidido por… Trump, até 31 de Dezembro de 2027.
A resolução cria uma “força de estabilização internacional” dirigida pelo “comité de paz”, portanto por Trump, para “desmilitarizar” os “grupos armados não estatais”, incluindo o Hamas, e garantir a segurança do Estado de Israel. A resolução remete para um futuro longínquo e indeterminado a eventual reunião de “condições […] para uma via credível para uma autodeterminação palestiniana e um estatuto de Estado“.
Quanto à “ajuda humanitária maciça” que lá se refere, cumpre duvidar. As chuvas torrenciais dos últimos dias em Gaza transformaram os campos de refugiados em atoleiros, e a aproximação do inverno exigiria meios que não são os que actualmente chegam a Gaza.
Acresce que o Programa Alimentar Mundial da ONU anunciou, em 18 de Novembro, que, por falta de recursos, só poderá ajudar um terço dos 318 milhões de seres humanos no mundo (dois milhões em Gaza) que precisarão de ajuda alimentar em 2026. Os montantes em falta (cerca de 26 mil milhões de dólares) representam menos de 3% do orçamento militar anual dos Estados Unidos e menos de 1% das despesas militares anuais mundiais.
Após a votação, o enviado dos EUA, Mike Waltz, disse que a resolução era transformadora – “um novo rumo no Médio Oriente, para israelitas e palestinianos e para todos os povos da região”.
Nenhum Estado-membro do Conselho de Segurança votou contra o plano de Trump (a Rússia e a China abstiveram-se). A União Europeia saudou um “passo importante”, enquanto o representante de Macron viu nele “uma dinâmica política credível, baseada na solução de dois Estados”. E o gabinete de Netanyahu afirmou “que o plano do presidente Trump trará a paz e a prosperidade”.
Já os outros membros do Conselho foram mais cautelosos, enquadrando o seu apoio ou aquiescência mais em termos do que poderia resultar da resolução, em vez do que estava realmente no texto – que o The Guardian considerou “uma das mais estranhas resoluções da história da ONU”.
Especialmente no que se refere ao Estado palestiniano. A resolução foi revista à última da hora, por insistência dos Estados árabes e islâmicos, para fazer, pelo menos, menção a uma Palestina futura. Fê-lo, no entanto, sem se referir ao direito fundamental dos palestinianos à autodeterminação, nem mesmo a um compromisso internacional para a “solução de dois Estados”, mas sim na linguagem de uma oferta distante, condicional e evasiva. Se a Autoridade Palestiniana “se reformar satisfatoriamente” e a reconstrução de Gaza avançar, “poderão ficar reunidas condições para um caminho credível para a autodeterminação e a criação de um Estado palestiniano”.
Apesar de tudo isto, a formulação da resolução 2803 foi considerada excessiva pela extrema-direita da coligação de Benjamin Netanyahu, que reagiu com fúria, forçando o primeiro-ministro a reafirmar as suas próprias objecções viscerais a qualquer sugestão de soberania palestiniana. “A nossa oposição a um Estado palestiniano, seja onde for, a oeste do rio Jordão mantém-se firme e não mudou nada”, disse Netanyahu. “Há décadas que venho resistindo a estas tentativas e não deixo de o fazer face a pressões externas e internas.”
Pôr o povo de Gaza sob tutela de Trump – e das tropas auxiliares que as grandes potências e os regimes árabes fornecerão – não responderá à legítima aspiração do povo palestino de viver, livre, na sua terra.