A braços com uma crise no seu próprio partido e descontentamento crescente na sua base eleitoral, o presidente pôde contar com o Partido Democrático e com a inércia das direcções sindicais para aprovar o seu orçamento anti-operário.
«Retiro o meu apoio à representante Marjorie Taylor Greene», anunciou Trump a 14 de Novembro, rompendo com a sua aliada de longa data, figura central do seu movimento MAGA (Make America Great Again). Acerto de contas entre dois antigos sócios? Não só: a ruptura põe a nu fracturas muito mais profundas, dentro do Partido Republicano, mas também da sociedade americana.
As causas aparentes da ruptura são as críticas de Greene a Trump no caso Epstein. Cada dia que passa traz novas revelações sobre a ligação entre Trump e o falecido multimilionário e criminoso sexual. Mas o conflito Greene/Trump começara bem antes. Quando Trump recebeu com grande pompa o chefe sírio, o ex-jihadista al-Charaa, Greene declarou que o presidente se devia concentrar nos problemas dos americanos: o custo de vida e o seguro de doença. Uma crítica cada vez mais repetida por representantes republicanos… e cuja origem se deve procurar na exasperação cada vez mais profunda que se manifesta no eleitorado popular de Trump. Há um ano, Trump prometia-lhes salvaguardar o emprego e aumentar o poder de compra. Um ano depois, não foi assim, e o descontentamento até já chega aos jogos de futebol americano. Assim no Estado de Maryland, onde a comparência do presidente mereceu vaias de todo o estádio.
Abandonado pelo seu próprio partido, Trump acaba de ser salvo… pelos democratas. Estes vieram em seu socorro, pondo termo ao shutdown, pelo qual as agências governamentais foram encerradas por causa de desacordos no Congresso sobre o orçamento. Os democratas recusavam-se a votar o orçamento e exigiam a prorrogação dos subsídios que permitem a grande número de americanos pagarem o seu seguro de doença. Situação destabilizadora para a Casa Branca, tida por responsável pelas consequências do encerramento (funcionários públicos sem salário ou em desemprego forçado, vales alimentares para os mais pobres reduzidos a metade…). Sete senadores democratas acabaram por se prestar a votar a favor do orçamento, sem que os republicanos tivessem de fazer cedências: «É uma grande vitória. Nunca cederemos a chantagens», rejubilou Trump.
Ter o Partido Democrata – um dos dois partidos da burguesia – salvado Trump não é tanto de admirar. Já o papel desempenhado pelos dirigentes de alguns sindicatos de funcionários de agências federais, como o AFGE, é outra coisa. Recusando-se a organizar qualquer mobilização sindical contra as consequências do shutdown, os dirigentes reduziram o papel dos sindicatos que dirigem a fazer pressão sobre os representantes democratas para eles porem fim ao shutdown, votando o orçamento de Trump… que inclui medidas que vão directamente contra os interesses dos trabalhadores. Assim se vê como a subordinação das direcções sindicais ao Partido Democrático é um obstáculo até à mais elementar acção sindical.
Menos de um ano após a sua eleição, a política de Trump é alvo de rejeição crescente, inclusive de quem votou nele. Passa à ordem do dia a questão da necessidade de acção política independente da classe trabalhadora.