«Revolta operária», lia-se em parangona no diário La Stampa de 5 de dezembro, em comentário à greve que deflagrou em Génova, na antiga fábrica ILVA, de produção e transformação de aço.
A 6 de dezembro, ao fim de cinco dias de greve muito dura, com barragens nas estradas e caminhos de ferro e confrontos com a polícia, os operários da antiga ILVA de Génova obrigaram o ministro das Empresas e do «Made in Italy» a declarar que o projecto de transferência de parte da produção para outra fábrica, em Novi Ligure, ficava, para já, suspenso e «nenhum emprego se perderia». «Resta saber se vai ser como Urso [o ministro]diz», escreveu o jornal em linha Il Post.
Garantias do género já foram dadas por várias vezes, nomeadamente em novembro, com os trabalhadores de Génova já em greve. O governo voltou a tentar a sorte.
Só que, entretanto, nas outras fábricas, incluindo a maior, em Taranto (Apúlia), mas também em Novi Ligure e Racconigi (Piemonte), os trabalhadores entraram igualmente em greve.
A situação da ex-ILVA já dura há anos, desde que, em 1995, a grande indústria siderúrgica italiana foi privatizada e vendida a baixo preço ao grupo Riva. Declínio constante, crises, especulação, poluição e milhares de despedimentos ficaram a marcar os últimos trinta anos. Em 1995, só a fábrica de Taranto contava 12 mil trabalhadores; hoje restam cerca de 7 mil, 5 mil deles há anos em desemprego técnico.
Em 2017, a ILVA foi vendida à ArcelorMittal (que detém 62% das acções), tendo o restante ficado nas mãos do Estado italiano através da Invitalia (38%). A situação deteriorou-se consideravelmente desde essa altura. Uma das principais razões foi a vontade da ArcelorMittal de eliminar milhares de postos de trabalho, especialmente os que beneficiam da «cassa integrazione» (indemnização por desemprego parcial), de facto não presentes na fábrica. Tal vontade esbarrou sempre, contudo, na resistência dos trabalhadores, de Taranto a Génova e nas demais fábricas.
Num contexto marcado pela crise e pelos despedimentos em toda a Itália e com a greve convocada pelos sindicatos minoritários «de base» para 28 de novembro e pela Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) para 12 de dezembro, o governo viu, quando os trabalhadores da ex-ILVA de Génova em luta se juntaram aos trabalhadores da Ansaldo (energia, outra fábrica histórica de Génova) e dos estaleiros navais Fincantieri, do que é capaz a classe operária «em revolta». O governo Meloni procura, pois, ganhar tempo… Os operários consideram ter marcado pontos. A direção da CGIL proclama, pela sua parte, a vitória. Nos próximos dias se verá. Uma coisa é certa: a força da classe trabalhadora assustou um governo que perde, dia após dia, um pouco mais do pouco apoio de que dispôs. Enquanto isso, as taxas de abstenção aumentam a cada eleição [o voto em Itália é obrigatório – NdR].