O documento de “Estratégia de Defesa Nacional” dos Estados Unidos, publicado a 5 de Dezembro, define as prioridades da administração Trump para a Europa e para o mundo. É um projecto de ordem totalitária concebido para garantir o triunfo exclusivo dos interesses do capital financeiro norte-americano. Mas a administração Trump — em plena crise — só pode impor esta “ordem nova” afrontando a classe trabalhadora europeia e as suas instituições próprias, que são o verdadeiro conteúdo da democracia política e social.
O único objectivo que norteia a administração Trump é “fortalecer ainda mais a economia americana”. Para isso, é necessário ganhar acesso aos “bens necessários para nos defendermos” e “ampliar o acesso dos EUA aos minérios e materiais essenciais”. Para esse efeito, é preciso dispor de “um exército forte e capaz”: a militarização generalizada, que “produza os sistemas [de armamento] e munições mais eficazes à escala apropriada”.
Este é o único objectivo que subjaz aos pretensos “acordos de paz presidenciais”, de Gaza ao Congo, passando pelas tentativas de acordo com Putin. Acordos para “fortalecer a influência global dos Estados Unidos, realinhar países e regiões segundo os nossos interesses e abrir novos mercados“. O relatório reivindica, de passagem, o direito de os EUA se desvincularem de obrigações que obriguem os EUA a investir um dólar que seja para mitigar a catástrofe climática, rejeitando “as desastrosas ideologias das alterações climáticas“.
Os chamados “acordos de paz”
servem para “abrir novos mercados”
Em contrapartida, o governo americano promove abertamente a ideologia racista da “grande substituição” na Europa, equiparando “migrações de massa” a “invasões” sinónimas de “violência“, “crime“, “terrorismo, tráfico de droga, espionagem e tráfico de seres humanos“. Por outras palavras, o Velho Continente está ameaçado de “apagamento civilizacional” e ficará “irreconhecível no espaço de vinte anos ou menos“.
Esta mistela racista é um apelo velado às forças de extrema-direita na Europa. Com efeito, o documento — adoptando a retórica populista daquelas — condena as “elites” dos países europeus, culpadas de não se submeterem completamente. Critica ainda os instrumentos tradicionais do domínio imperialista — a União Europeia e a NATO — , que considera já não serem adequados.
“Os Estados Unidos incentivam
os seus aliados políticos”:
os “partidos patrióticos europeus”
Assim, “a América incentiva os seus aliados políticos na Europa a promoverem esta revitalização espiritual, sendo, aliás, motivo de grande optimismo a influência crescente de partidos patrióticos europeus”. Aprazeria à administração Trump transformar Meloni, Orbán, Bardella e os Tommy Robinsons que por aí andam em pequenos gauleiter (caudilhos regionais, na Alemanha nazi – nota do editor), que lhe “abram os mercados europeus aos bens e serviços americanos”.* Pelas mesmas razões, acha necessário chegar a acordo com os oligarcas russos e, “no interesse fundamental dos Estados Unidos (…), negociar uma rápida cessação das hostilidades na Ucrânia”.
De facto, para fazer triunfar os interesses capitalistas americanos na Europa, são necessários regimes fortes e enfeudados a Washington para pôr fim à “malograda fixação na asfixia regulamentar” dos europeus. Por outras palavras: o problema representado pela existência de uma poderosa classe operária que, nos últimos dois séculos, “construiu, dentro da democracia burguesa, simultaneamente a usando e a combatendo, os seus próprios bastiões, as suas bases, os seus focos de democracia proletária: sindicatos, partidos, clubes de formação, organizações desportivas, cooperativas, etc.” (Leon Trotsky, 1932). A que há que somar todas as conquistas conseguidas pela luta de classes: em suma, a tal “regulamentação asfixiante” que Trump gostaria de conseguir destruir à machadada. Só que da colher à boca se perde a sopa.
Jean Alain, La Tribune des travailleurs nº 519
* Assinale-se que há segmentos da burguesia americana com pontos de vista diferentes. O chefe do mais poderoso banco norte-americano, o JP Morgan, considera que “uma Europa fraca é má para nós“, embora partilhando das preocupações de Trump (segundo ele, na Europa, a “protecção social afastou as empresas e os investimentos“).