NOTA: Soube-se hoje, 19 de Dezembro, um dia depois da publicação deste artigo, que o Conselho Europeu falhou com estrondo. A expropriação dos activos russos não vai para a frente na forma proposta por Merz, Macron, Starmer e chefes da UE. É uma tremenda desautorização destes chefes, já muito desgastados. Naturalmente, eles irão continuar com a guerra NATO/Rússia, por Ucrânia interposta, usando um plano B: o financiamento do governo de Zelensky pela própria União Europeia através de empréstimos contraídos “colectivamente”. Os povos europeus que se preparem, porque quem eles tencionam fazer pagar são a escola pública, a saúde pública, as pensões e os salários.
Os chefes dos grandes, médios e pequenos imperialismos europeus estão reunidos em clausura em Bruxelas, competentemente coordenados por um dos grandes especialistas mundiais em geringonças, António Costa.
O objectivo desta boa gente é encontrar maneira de deslindar centenas de milhares de milhões de euros para manter no poder, na Ucrânia, o seu protegido Zelensky e a máquina da guerra a carburar em pleno, sem terem eles de gastar esse dinheiro do bolso do próprio país.
Zelensky, chefe de guerra das oligarquias mafiosas pró-UE da Ucrânia, é a garantia possível de, por muitos e bons anos, se continuar a lançar para a fogueira da guerra a juventude ucraniana, na esperança de obrigar Putin, chefe das oligarquias mafiosas da Rússia, a continuar a lançar a juventude daquele país para a mesma fogueira.
Do drástico enfraquecimento de ambos os países acenam, com efeito, chorudos dividendos para os doentes imperialismos da velha Europa — ainda que só lhes caiba pouco mais que os ossos; o imperialismo americano já garantiu “contratualmente” a chicha (o preâmbulo virtual do contrato americano com a Ucrânia vem em linha recta d’”O Padrinho”: “tenho aqui um negócio que você é incapaz de recusar”). Chicha e ossos virão, para começar, na forma do enriquecimento astronómico dos industriais e financeiros do armamento; e, depois, na da exploração, pelos potentados ocidentais, com o auxílio dos oligarcas, compensados a razoáveis comissões, dos extensíssimos recursos agrícolas, minerais e naturais de dois dos países mais ricos do mundo em tais recursos.
A determinação dos vassalos europeus da NATO/UE, grandes e pequenos, é alimentada também pela certeza de que o suserano deles todos, Trump/Wall Street, decidiu sem apelo nem agravo que os “europeus” se amanhassem entre si: paguem vocês, e, para pagar, ponham as vossas populações a pagar.
A pressão americana sobre os vassalos europeus lê-se preto no branco na nova Estratégia de Segurança Nacional da administração americana: europeus, desfaçam-se de uma vez por todas dos vossos “Estados sociais” fruto dos compromissos feitos no pós-IIª guerra com os partidos e sindicatos tradicionais do movimento operário (em troca de este deixar à burguesia o poder e a propriedade); e ataquem sem contemplações as vossas classes trabalhadoras.
Se os actuais dirigentes europeus mais convencionais, os Merz, von der Leyen, Macron, Starmer e Montenegro se contorcerem em hesitações por medo de uma revolução, os americanos prometem que ajudarão a pôr no poder quem não vacile: “Os Estados Unidos da América incitam os seus aliados políticos na Europa a fazerem reviver o espírito [do carácter e da história das nações europeias]; a influência crescente dos partidos patrióticos da Europa dá, aliás, razão para muito optimismo.” Não se deixam dúvidas sobre qual o “espírito” e que “aliados políticos patriotas” são esses: a “diplomacia americana” tem-se multiplicado em reuniões e apoios à AfD na Alemanha, à RN de Le Pen em França, ao partido neofascista de Meloni na Itália, ao Vox em Espanha, a Orban na Hungria, ao Chega e por aí fora; a todos os Chegas e seus comparsas fascistas ou fascistóides.
Na sua hora de aperto, os dirigentes europeus já forçados a esventrarem os orçamentos da saúde e educação, as caixas de pensões e a segurança social para poderem inchar os orçamentos da guerra até aos 5% requeridos por Washington lembraram-se de recorrer a um expediente que aparece uniformemente tipificado nos códigos penais, os napoleónicos como os de lei comum, na velha e lacónica forma de “roubo” ou “furto”.
A ideia é simples: pegar no dinheiro que a cleptocracia russa, Estado e oligarcas, foi depositando ao cuidado de receptadores (o nome comum da profissão é “banqueiros”) suíços, belgas, alemães e ingleses, e entregá-lo, em doses homeopaticamente controladas, à cleptocracia ucraniana, para esta comprar aviões, tanques e drones aos fabricantes americanos, com algumas, mas valentes migalhas a caírem nas mãos dos europeus.
A ideia não é original — o povoamento das prisões é, afinal, há séculos e séculos, assegurado, em boa parte, pelos amigos do alheio. Contudo, a falta de originalidade não é o seu único nem principal óbice. Ela atenta às claras contra o que é substancialmente o artigo primeiro e único das Constituições de todos os países capitalistas: a santidade da propriedade privada — bem mais importante do que as inimizades passageiras entre nações e países por causa da hierarquia e distribuição das coutadas de caça de cada um.
Ora, isso expõe os autores directos do roubo a desagradáveis consequências jurídicas.
Com efeito, se cada um começar a roubar o outro só porque pode, onde é que se vai parar? O que impede os banqueiros americanos de roubarem o dinheiro dos milionários europeus e vice-versa?
Particularmente preocupado está, com boas razões, o primeiro-ministro belga, onde se encontra depositada a principal fatia dos activos russos. Se “os russos” invocarem o direito nacional e internacional para processar os gatunos, e os tribunais, guardiães zelosos de Sacra Propriedade, lhes derem razão, quem se lixa e tem de pagar é o Estado e a banca belga!
Os belgas exigem, portanto, aos outros membros da quadrilha que prometam ser solidários: se é para todos roubarmos, que paguem todos, se as coisas derem para o torto! Noticia o Politico (10 de Dezembro) que, à boa maneira mafiosa, as instâncias da UE “estão a apertar o gasganete aos belgas“, ameaçando “condenar o P-M belga ao ostracismo“.
Nisto passarão, segundo a imprensa, estes dias os grandes dirigentes da Europa, o “tempo que for necessário”: a sacudir os renitentes até chegarem a um “acordo”.