“Your Party” [O Teu Partido]… mas que partido?
Em Julho de 2024, milhões de trabalhadores levaram o Partido Trabalhista ao poder para pôr fim a catorze anos de políticas de austeridade de governos conservadores.
Dezoito meses depois, o balanço do primeiro-ministro trabalhista, Keir Starmer, não tem ponta por onde se lhe pegue: continuou e agravou as políticas dos conservadores. Por exemplo: tirou a dois milhões de reformados pobres o subsídio para o aquecimento no Inverno; condenou as greves do pessoal do NHS – serviço nacional de saúde – , onde quer cortar dezenas de milhares de empregos — enquanto as esperas intermináveis nos serviços de urgência causaram milhares de mortes! A Grã-Bretanha de Starmer financiou em grande escala a guerra da NATO na Ucrânia e apoiou o genocídio israelita em Gaza… Para levar a cabo esta política anti-operária, Starmer teve que “sanear” o Partido Trabalhista, expulsando aos milhares quem protestasse.
Foi nestas circunstâncias que, em Julho de 2025, Zarah Sultana, uma deputada “independente”, que se demitira do Partido Trabalhista para protestar contra as políticas de Starmer, fez uma declaração solene pela fundação de um novo partido. Torcendo o braço a Jeremy Corbyn (antigo chefe de fila da “ala esquerda” do Partido Trabalhista, expulso pela direcção), afirmou que ambos apoiavam a iniciativa.
O apelo teve eco significativo. Em menos de uma semana, mais de 600 mil pessoas registaram-se online para apoiar o lançamento de Your Party. Pelo menos parte deles exprimia, assim, a aspiração a um partido que defenda os interesses dos trabalhadores.
O Partido Trabalhista foi fundado em 1900
como “representação política”
do poderoso movimento sindical
Qual é a situação, seis meses depois? Nos dias 29 e 30 de Novembro, Your Party fez o seu congresso em Liverpool; registaram-se 55 mil adesões… longe dos 600 mil apoiantes de Julho. Assistiram ao congresso, que ficou marcado pelo acerto de contas entre Corbyn e Sultana, dois mil e quinhentos participantes. O enviado especial do Guardian reparou na decepção de vários delegados, que “sentiram que questões sociais verdadeiramente urgentes (…), como o custo de vida, a crise habitacional, a política de imigração do Partido Trabalhista (…) não tiveram o mesmo destaque que questões puramente processuais“.
Surgiram, ainda, divergências políticas entre os dois principais dirigentes do partido, Corbyn e Sultana, por exemplo quanto à escala que devesse assumir um programa de nacionalizações*. No congresso, Zarah Sultana declarou que era necessário recuperar “o controlo público da água, da energia, dos caminhos-de-ferro, dos transportes e das comunicações”, acrescentando os bancos, o sector agro-alimentar, etc., porque “a classe trabalhadora é mais apta para gerir a sociedade do que os multimilionários”. Reagindo, Corbyn limitou possíveis nacionalizações aos sectores da água, dos correios e dos caminhos-de-ferro, contrapondo a um programa mais amplo aquilo que é, para ele, “a prioridade”, a saber, “a luta contra a pobreza”.
Outras questões surgiram, como a da natureza de classe do partido. Deve Your Party ser um partido dos trabalhadores? Ou um partido de toda a sociedade? Recordemos a tradição britânica: o Partido Trabalhista foi fundado em 1900 como a “representação política” do poderoso movimento sindical. No congresso de Liverpool, a maioria aprovou a concepção de um partido baseado “na causa palestiniana, na luta contra o racismo e em outros movimentos sociais”, que estabelecerá também “relações no movimento sindical”. Não é a mesma coisa.
Outros temas foram alvo de debate, por exemplo, se o novo partido deve ser dirigido por um só chefe ou por uma direcção colectiva.