Há um ano, a ditadura desmoronou-se. Qual é, hoje, a situação na Síria?

Há pouco mais de um ano, a 8 de Dezembro de 2024, o povo sírio livrou-se do sangrento regime de Assad.
Milhões de sírios manifestaram o seu anseio pela liberdade, pelo fim das instituições da ditadura, pela verdade e justiça para os 500 mil homens, mulheres e crianças reprimidos pelo regime.
E também o anseio de reconstruir o país devastado por quase quinze anos de guerra. Uma guerra alimentada tanto pelo regime como pela interferência de grandes potências e potências regionais, que manipularam ou utilizaram grupos armados, sejam eles “seculares” ou “islamistas”.
Um ano depois, o povo sírio conseguiu avançar na concretização das suas aspirações? E como vêem o novo regime, liderado pelo ex-jihadista al-Sharaa?
Foi recebido com grande pompa em Washington, no início de novembro de 2025. Isto deu a Trump a oportunidade de lhe declarar: “Queremos que a Síria seja tão bem-sucedida como o resto do Médio Oriente. Por isso, estamos confiantes de que ele (al-Shara) será capaz de realizar este trabalho”. Sabemos o que este “encorajamento” significa vindo de Trump.
Nesta página, publicanos o relato de um correspondente sobre a situação na Síria.
As notas e subtítulos são da equipa editorial.

A ditadura desmorona-se

O dia 8 de Dezembro de 2024 é uma data indelével na história da Síria. De facto, a queda do tirano Bashar al-Assad não representa apenas a queda deste presidente que, em 2000, “herdou” do seu pai, Hafez al-Assad, que esteve no poder durante trinta anos, o país que considerava sua propriedade privada, com o apoio de todos os seus comparsas, fossem eles alauitas (1) ou não.

O povo, que se insurgiu em 2011 (2), mas cuja revolução foi frustrada por diversos factores, não acreditava que se pudesse livrar deste regime totalitário que tinha destruído o país. “Assad, ou queimamos o país” foi um dos primeiros slogans do regime desde os primeiros dias da revolta. Mas o desejo dos insurgentes foi finalmente concretizado em Dezembro de 2024.

Liberdade de expressão, liberdade de associação

Em relação à liberdade de expressão, todos os que estiveram na Síria ou lá vivem relatam um enorme progresso nesta área. No entanto, a liberdade de associação continua a ser mínima. Além disso, as novas autoridades dissolveram todos os partidos e organizações nas primeiras semanas após a tomada do poder. Incluindo o HTS (3), presidido pelo novo chefe de Estado, Ahmad al-Sharaa. Os conselhos sindicais foram dissolvidos e outros nomeados pelas autoridades substituíram-nos. Mas estas decisões provocaram protestos consideráveis. Trabalhadores despedidos por serem acusados ​​de serem “pró-Assad” reuniram-se para protestar, mas os massacres de Março (4) surtiram efeito, obrigando os manifestantes a recuar, dado que a maioria deles são alauitas. Reuniões e conferências são realizadas com muita frequência, incluindo políticas.

As vítimas da ditadura exigem justiça

A reconstrução do país é extremamente lenta e depende de iniciativas individuais, principalmente de expatriados e refugiados. O novo regime está muito mais preocupado com a sua imagem no exterior, procurando a revogação das sanções contra o país, mesmo que estas se destinassem a punir os responsáveis ​​pelo regime anterior.

Com quase 500 mil pessoas desaparecidas durante a ditadura, é muito difícil para as suas famílias obterem justiça. Novas valas comuns são descobertas quase todos os meses. A identificação dos restos mortais exige conhecimentos especializados e equipamento que não está disponível no país. As autoridades concordaram finalmente em cooperar com as organizações internacionais que ofereceram assistência. A justiça para os ex-reclusos e para as suas famílias é também um objetivo desejado, mas, após décadas de tirania, milhões de pessoas privadas dos seus direitos são afectadas. Um ano pode não ser suficiente para que se faça justiça. Além disso, as instituições judiciais estão a ser reconstruídas.

Em relação aos bombardeamentos israelitas

Embora algumas vozes se tenham levantado, principalmente no sul do país, para aprovar qualquer medida que possa enfraquecer as novas autoridades, estas continuam em minoria. A geração mais jovem, que apenas conheceu bombardeamentos e deslocações forçadas, anseia por viver em paz. Mas isso não muda o facto de Israel ainda ocupar os Montes Golã (5) e de se entrincheirar noutros territórios há meses. O governo não está a fazer nada a esse respeito. Além disso, tinha declarado claramente que o país era demasiado fraco para resistir a estes ataques e manteve-se passivo. O presidente, durante as suas deslocações ao estrangeiro, demonstrou o seu desejo de ser reabilitado pela comunidade internacional e juntou-se à coligação “antiterrorista” liderada pelos EUA. Recentemente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros publicou um mapa da Síria no qual os Montes Golã já não aparecem – apesar da condenação das Nações Unidas à anexação deste território por Israel – o que desencadeou uma onda de protestos. Os sírios são há muito enganados pelos slogans baathistas (6) “pela Palestina” e “contra Israel”, slogans que, na realidade, são puramente vazios. Invocar a causa palestiniana foi um pretexto para oprimir a população e privá-la de todos os seus direitos. Mas agora que sentem que o país lhes pertence, não estão dispostos a renunciar aos seus direitos, incluindo os relativos aos territórios ocupados por Israel, embora desejem a cessação das hostilidades para poderem reconstruir o seu país, devastado por tantos anos de guerra travada contra eles pelo regime de Assad.

Relativamente às iniciativas de auto-organização que se seguiram a 8 de dezembro de 2024

Algumas das primeiras iniciativas de auto-organização tropeçaram porque as populações não tinham experiência. Mas não desistiram. Outros tiveram mais sucesso, particularmente com o apoio e a experiência de jovens que viveram no estrangeiro, adquiriram conhecimentos, concluíram os seus estudos e que, quando regressaram a casa, quiseram contribuir para a mudança. O exemplo de Tadmor (Palmira) é revelador, tal como o de Masyaf, onde os comités locais desempenham um papel significativo a nível local, desafiando os xeiques nomeados pelas autoridades para controlar a situação. Em Masyaf, as mulheres desempenham um papel muito mais visível do que em Tadmor.

Foram organizadas campanhas de angariação de fundos em várias regiões do país e resultaram na angariação de centenas de milhões de dólares. No entanto, as pessoas estão a perguntar-se para que estão a ser utilizados esses fundos. Não veem resultados concretos. Muitos sírios acreditam que as viagens muito frequentes ao estrangeiro realizadas pelas autoridades poderão ajudar a reintegrá-los em organismos internacionais, obter o levantamento das sanções impostas, como a lei César (7), e melhorar a situação económica. Obviamente, esta é a prioridade da população. Centenas de milhares de refugiados nos países vizinhos regressaram para viver na Síria.

24 de Dezembro de 2025

(1) Uma minoria religiosa das montanhas costeiras do oeste. A família Assad, pertencente a esta minoria, tornou-a um grupo privilegiado dentro das instituições.
(2) As manifestações populares de 2011 exigiram a queda do regime.
(3) Hayat Tahrir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante): um grupo armado islamista do qual é originário o actual chefe de Estado, al-Shara.
(4) Rebelião em Março de 2025 por forças pró-Assad, seguida de massacres de populações alauitas por forças ligadas ao novo regime.
(5) Porção do território sírio ocupada por Israel em 1967 e anexada em 1981.
(6) No poder em 1963, o Partido Baath foi transformado num instrumento do poder pessoal de Hafez al-Assad a partir de 1970.
(6) (7) Acto do Congresso dos Estados Unidos que impõe sanções económicas ao regime sírio.