Uma palavra só!
Com ostensivo cinismo, Trump usou uma só palavra para justificar a agressão à soberania venezuelana e o rapto do seu presidente. Uma só palavra: petróleo! Mais precisamente: o direito das multinacionais de recuperarem o controlo das vastas reservas de petróleo no solo venezuelano, que, nacionalizadas, estão fora do seu alcance.
Os comentadores não hesitam em falar de imperialismo. Mas o imperialismo não é simplesmente a vontade de construir um império. Imperialismo é o estádio alcançado pelo capitalismo decadente, quando a sua sobrevivência depende da luta implacável entre as diferentes potências e facções à custa de guerras intermináveis e da destruição em massa de forças produtivas.
Os comentadores raramente fazem sua esta definição. Ora, o mérito dela é que enquadra a luta contra o imperialismo na sua verdadeira dimensão, que é a da luta para acabar com o sistema capitalista baseado na propriedade privada dos meios de produção: a luta pelo socialismo.
E agora? Caminhamos para uma guerra mundial generalizada? Trump empurra nessa direcção, quando fala da Gronelândia, de Cuba, da Colômbia. Mas nada é inevitável.
Quem se há-de opor a esta corrida para o abismo e travá-la? Os governos das outras potências capitalistas? Eles, que, um a um, se vergam, aterrorizados, a Trump? Há, porém, uma força capaz de ir por aí: a classe trabalhadora internacional — desde que, na luta pelas suas reivindicações, mantenha a sua inteira independência e, nessa luta, una forças à resistência dos povos oprimidos.
Louve-se a posição conjunta da Confederação Sindical Internacional e da AFL-CIO, condenando a intervenção militar dos EUA na Venezuela e exigindo a libertação do Presidente Maduro e da sua mulher e o respeito pelo direito do povo venezuelano a decidir soberanamente o seu futuro, sem ingerências externas.
Será, no entanto, realista entregar-se à ONU e ao “respeito pelo direito internacional”? Recorde-se que a administração Trump tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. O direito — seja o internacional seja o nacional — não é mais do que um reflexo da relação de forças num dado momento. “A relação de forças de 1945 já não existe”, a isso se resume o que Trump proclama, “por isso não quero saber do ‘direito internacional’ que saiu dela.“
A única coisa que poderá inverter a relação de forças e travar a marcha para a guerra é a mobilização de milhões de trabalhadores e jovens em todo o mundo, particularmente a mobilização unida das nações oprimidas da América Latina e das classes trabalhadoras das potências imperialistas da América do Norte e da Europa. É responsabilidade das organizações que afirmam representar os trabalhadores comprometerem-se com este caminho e, no mesmo movimento, oporem-se unitariamente tanto à guerra como aos governos fautores de guerra.
O Governo português não só não condenou a agressão dos Estados Unidos (EUA) à Venezuela e o rapto do seu presidente, Nicolás Maduro, como é seu cúmplice, legitimando-os. Impõe-se, pois, que as organizações de trabalhadores rompam toda e qualquer forma de colaboração com ele, nomeadamente na “concertação social”, que serve para convidar os sindicatos a participar na legitimação das políticas anti-operárias da UE e dos governos.
Contra a guerra, os fautores de guerra e os orçamentos de guerra, as palavras de ordem são claras: defender a soberania do povo venezuelano; em Portugal, recusar os orçamentos da austeridade, o “pacote laboral”, atender as reivindicações dos trabalhadores, afectar milhares de milhões aos serviços públicos, não à guerra!
“Mas, mesmo assim, não será preciso um orçamento de defesa robusto, capaz de enfrentar os perigos que nos ameaçam?”, objectam, com sinceridade, alguns trabalhadores e jovens.
A isto respondemos: é legítimo os trabalhadores e os jovens quererem ter meios para se defenderem. Mas os governos da burguesia não querem saber da autodefesa dos povos. As políticas de militarização que grassam na União Europeia fazem parte da preparação de guerras de pilhagem e conquista contra todos os povos sob o comando de Trump. Um governo que quisesse preparar os trabalhadores para se defenderem teria de começar por romper com a NATO (e com a União Europeia, a ela vinculada por tratados) e apelar à confraternização de todos os povos contra o imperialismo. Nessa base, propiciaria a formação militar gratuita de toda a população em idade de combater e a transformação dos planos de armamento de planos de preparação de agressões externas para planos de preparação da luta defensiva, sob controle das organizações operárias e democráticas. Um governo nestes moldes ver-se-ia, naturalmente, obrigado a romper com a lei do capital financeiro.