Chamava-se Renee Good. Mãe de três filhos, esta cidadã norte-americana “comum”, de 37 anos, fazia parte, em Minneapolis, no estado de Minnesota, de um grupo de “ICE watchers”, “observadores do ICE”, cidadãos que seguem patrulhas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) no intuito de prevenir abusos a trabalhadores imigrantes. No dia 7 de Janeiro, às 9h37m, um agente do ICE apontou-lhe a arma e executou-a friamente com um tiro na cabeça.
Enquanto a notícia do assassinato se espalhava, Trump apressou-se a falar num “acto de legítima defesa” contra um “terrorista interno” que teria “atacado” os agentes. Esta versão dos factos foi desmentida por vídeos da cena. O vice-presidente J. D. Vance não lhe ficou atrás: segundo ele, o polícia “estava apenas a fazer o seu trabalho“, e Renee Good foi “vítima da ideologia de extrema-esquerda. Que jovem mãe decide ir impedir as forças da ordem de fazerem o seu trabalho?“
Em todo o país, Renee Good tornou-se, porém, no símbolo da selvajaria do ICE. Recorde-se que, no ano passado, o ICE capturou nada menos do que 328 mil imigrantes indocumentados, nas ruas, nas suas casas ou nos seus locais de trabalho. Trezentos e vinte e sete mil foram deportados (trinta morreram em detenção). Trump acaba de aumentar o orçamento do ICE em dois mil milhões de dólares.
Nos dias 10 e 11 de Janeiro, dezenas de milhares de trabalhadores e jovens participaram em quase mil concentrações contra o ICE após o assassinato de Renee Good. Os manifestantes gritaram “Fora com o ICE, já!” e pediram o castigo do assassino.
Em Minneapolis*, o presidente da Câmara, Jacob Frey, e o governador do Minnesota, Tim Walz, ambos membros do Partido Democrático, exigiram a “retirada imediata do ICE [do estado]”.
Mas a administração Trump teima em justificar o assassinato: “Indivíduos cometerem actos de violência contra as forças da lei ou obstruírem as nossas operações é um crime, e responsabilizamo-los pelas consequências”, ousou declarar a Secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, no dia 11 de Janeiro — passando de seguida a enviar mais umas centenas de agentes para Minneapolis.
Numerosas organizações sindicais protestaram. “Um ataque a um é um ataque a todos”, escreveu a maior organização sindical, a AFL-CIO, no dia 9 de Janeiro. “Estas acções violentas e nefastas do governo federal têm de parar… O princípio fundamental do movimento sindical é o da solidariedade. Nunca permitiremos que nos dividam pela estratégia do medo organizada por este governo.” A direcção da AFL-CIO, no entanto, não apelou a manifestações. O Conselho Trabalhista para a Defesa dos Trabalhadores Latino-Americanos (LCLAA, filiado na AFL-CIO) recordou que o assassinato “ocorre num contexto de escalada de ataques, discriminação e intimidação” dos trabalhadores imigrantes.
Com o assassinato de Renee Good, a administração Trump subiu mais um patamar na sua “guerra interna” contra a classe trabalhadora e as liberdades democráticas — o que mais do que nunca evoca a necessidade de uma ampla frente única de todas as organizações trabalhistas para mobilizar a força da classe trabalhadora para travar Trump e os seus comparsas. Já é mais do que tempo de os dirigentes, a começar pelos da AFL-CIO e dos sessenta e quatro sindicatos nela filiados, passarem das declarações de protesto à organização da mobilização.
Nelly Mary
* Cidade onde foi assassinado pela polícia, a 25 de Maio de 2020, George Floyd, um homem negro de 47 anos.