Para Trump, a Venezuela é apenas o início… mas os trabalhadores e os povos recusam-se a ser esmagados

Dez dias depois da agressão imperialista à Venezuela, o mundo já não é o mesmo de Dezembro de 2025. A agressão de Trump, vergonhosamente apoiada pelos lacaios europeus, é um novo patamar na marcha para a guerra generalizada.

A 9 de Janeiro, Trump convocou os responsáveis ​​das multinacionais petrolíferas, como a Chevron e a ExxonMobil. A quem se mostrou preocupado com as passadas dificuldades em “investir” com o regime venezuelano, Trump respondeu: “Vocês falam directamente connosco, não há nada a discutir com a Venezuela“. O imperialismo tenciona dar cabo dos cinquenta anos de nacionalização do petróleo. Para já, Trump marginalizou do poder a oposição pró-imperialista e anunciou que não haverá eleições. Exige que a presidente em exercício “colabore“, com um revólver encostado à cabeça, parecendo “privilegiar um poder fraco, mais propenso a ceder às suas exigências” (Le Figaro, 11 de Janeiro).

Para a administração americana, a Venezuela não é senão o início. No jornal El País (de 9 de Janeiro), o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, revelou que estava em risco de ser raptado, tal como Maduro, tendo-lhe Trump indicado ter, para já, “congelado” a operação. No mesmo dia, Trump anunciou que estava pronto a bombardear território mexicano, usando o mesmo pretexto da “guerra contra a droga” que usou na Venezuela. No dia seguinte, ameaçou Cuba: “Acabou-se o dinheiro e acabou-se o petróleo para Cuba, zero!”, como se a ilha não estivesse estrangulada pelo bloqueio americano desde 1962. Trump acrescentou que “via com bons olhos” a ilha governada pelo seu Secretário de Estado, Marco Rubio, descendente da emigração cubana contra-revolucionária!

A tentativa de pôr tudo sob a sua pata não está a passar. Na Colômbia, dezenas de milhares de pessoas concentraram-se no dia 7 de Janeiro. Em Bogotá, um manifestante declarou: “É claro que eles não vêm para cá para nos resolver os problemas, nem para nos trazer a democracia, só para nos trazer guerra” (France Info). Na Venezuela, há todos os dias manifestações de massas pelo regresso de Maduro. Nas palavras de uma manifestante em Caracas, “não queremos que nos imponham um governo ianque. Somos um povo livre e soberano: Trump não nos roubará o petróleo e Rubio não nos governará!” (Reuters, 8 de Janeiro).

Da Gronelândia ao Irão…

A ofensiva do imperialismo não se limita à América Latina. Com a mesma “lógica” de pilhagem do petróleo venezuelano, Trump reiterou as suas ameaças contra a Gronelândia, vasto território árctico sob domínio dinamarquês.

Zinco, grafite, cobre, lítio, terras raras… há muito que o subsolo gronelandês atrai a cobiça de Trump, que, no dia 11 de Janeiro, declarou que os Estados Unidos iriam assumir o controlo da região “de uma forma ou de outra”, pois, “se não o fizermos nós, fazem-no a Rússia ou a China”. Então e o risco de conflito com a Dinamarca, que é membro da NATO? perguntou-lhe o New York Times (8 de Janeiro). “Pode ser que tenhamos que fazer essa escolha”, respondeu Trump… pouco importando que 85% da população da Gronelândia se oponha aos seus projectos. Só contam os interesses das multinacionais.

E no resto do mundo? Em poucos dias, Trump mandou bombardear a Nigéria (27 de Dezembro), a Venezuela (3 de Janeiro) e a Síria (10 de Janeiro). A Síria já tinha sido bombardeada no dia 4 de Janeiro por aviões franceses e britânicos. Desta feita, o pretexto não foi o “narcoterrorismo”, foi o “terrorismo jihadista”. Ora, o governo norte-americano anunciou, no dia 6 de Janeiro, que “o novo governo da Síria e Israel vão estabelecer uma estrutura conjunta supervisionada pelos Estados Unidos para partilhar informações e trabalhar na redução das tensões entre os dois países“. O governo norte-americano não se importa nada de usar o antigo chefe jihadista Al-Sharaa — actual presidente sírio —, cujas tropas vão, em simultâneo, bombardeando a população curda de Alepo. E quanto ao Irão?

Às genuínas manifestações populares contra o elevado custo de vida e o regime teocrático misturam-se tentativas de manipulação, não menos reais, orquestradas pelas forças monárquicas e pelos serviços de informação americanos e israelitas. Trump vai dando uma no cravo e outra na ferradura: intervenção militar? Negociações? Restauração da monarquia que as massas derrubaram em 1979? Para já, todas as opções estão em cima da mesa…

A responsabilidade do movimento operário é travar a marcha para a guerra generalizada.

Das ruínas de Gaza às valas comuns do Sudão e da Ucrânia: a marcha para a guerra generalizada está a causar sofrimentos cada vez maiores aos povos do mundo.

Suscitando, não obstante, o entusiasmo dos mercados financeiros. Assim, “a seguir ao apelo de Trump, as acções do sector da defesa estão a subir ”, segundo a Reuters (8 de Janeiro). Trump acaba de exigir que o orçamento militar dos EUA seja aumentado dos 901 mil milhões de dólares de 2026 para 1,5 biliões de dólares em 2027.

A indústria do armamento — força de destruição — esfrega as mãos. O seu valor de mercado, escreve a Reuters, “recuperou acentuadamente desde a maciça invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, impelido pela perspectiva de aumento das despesas de defesa na Europa” e reforçou-se com a “acção militar dos EUA na Venezuela e os comentários de Trump sobre a Gronelândia”.

Esmagamento dos povos, pilhagem dos recursos, militarização da economia e “guerra interna” contra os trabalhadores: eis a face do capitalismo moribundo. A classe capitalista não poderia, contudo, lançar esta ofensiva se aqueles que falam em nome dos trabalhadores não se vergassem diante dela.

É assim em França, onde os partidos de “esquerda” aceitam o envio de tropas de Macron para a Ucrânia, “se for sob os auspícios da ONU”. É também assim em Espanha, onde Sánchez, presidente de um Governo “socialista” e “comunista”, se anuncia disposto a “destacar tropas (…) para a Palestina” e a “continuar a apoiar a Ucrânia“. Ou seja, a impor o vergonhoso plano de Trump para Gaza e a alimentar a guerra entre a NATO e o regime de Putin.

A classe trabalhadora internacional é uma força considerável de milhares de milhões de mulheres e homens que mantêm a sociedade a funcionar. Se romper com os governos capitalistas e puser as suas forças em movimento, o movimento operário conseguirá travar a marcha para a guerra generalizada.

Dominique Ferré, La Tribune des travailleurs Nº523