Os resultados da primeira volta das presidenciais confirmaram o que aqui dizíamos: as duas principais classes sociais do país vivem, ambas, uma profunda crise de direcção política.
Crise da direcção política da classe trabalhadora…
A crise de direcção do movimento operário político e sindical alcançou um novo patamar.
A recusa das direcções dos partidos tradicionais da classe trabalhadora, PS, PCP, BE, em romper com o quadro de um regime cada vez mais desacreditado; a sua opção, nomeadamente durante a geringonça, por serem seus gestores secundários, respeitando os limites austeritários e anti-trabalhadores fixados pela UE/NATO e pelo presidente da República, culminou no terramoto eleitoral de 2024, continuado em 2025: a queda brutal da votação global da “esquerda”.
Essa queda eleitoral, em duas etapas, foi de um total de quase três milhões de votos para a casa de dois milhões — onde se manteve na primeira volta das presidenciais.
Porquê um “novo patamar” de crise? Porque não resta a menor dúvida que o voto da classe trabalhadora já só é estritamente defensivo. O candidato que o PS, reticentemente, acabou por apoiar, o antigo secretário-geral e ministro Seguro, entretanto retirado para actividades empresariais, não apelou para o entusiasmo e a mobilização dos trabalhadores pelas suas conquistas e direitos, nem reuniu, porque não queria reunir, qualquer apoio popular significativo.
Nem Seguro pretenderá que os 1.750.000 votos que recolheu (mais do que o próprio PS nas legislativas) representam a adesão da classe trabalhadora à sua figura ou programa. Os seus eleitores votaram apenas em quem mais hipóteses tinha de passar à segunda volta contra algum dos representantes directos do grande capital.
… com uma derrota profunda do PCP e do BE…
O preço da concentração de votos em Seguro foi a trucidação eleitoral dos demais candidatos “de esquerda”, os do PCP e do BE. Ambos apresentaram a mesma linha de defesa genérica “desta democracia” e submissão quase total aos interesses instalados, à tutela da UE e da NATO. Não propuseram uma saída de ruptura, não defenderam a independência absoluta do movimento dos trabalhadores em relação ao Estado e ao capital. Votar neles não servia, literalmente, para nada. Tiveram as piores votações alguma vez obtidas pelos respectivos partidos (entre os dois, duzentos mil votos).
…mas também a burguesia mergulha numa profunda crise de direcção política
Com o que entramos na crise de direcção da outra classe. O terramoto eleitoral de 2024 acrescentara um milhão de votos à extrema-direita, em grande parte saídos da abstenção. A direita atingiu, ao todo, um patamar global de 3,5 milhões de votos — que agora manteve.
Contudo, a manobra bonapartista de Gouveia e Melo, que o almirante julgara selada no almoço com Ventura à mesa do capitalista Mário Ferreira, em Agosto passado, naufragou com fragor. De cada toca saltaram como coelhos candidatos alternativos. O homem do PSD, mais o “liberal” Figueiredo e, por fim, o inevitável Ventura.
Contudo, a direcção tradicional do capital, o PSD/AD, que já no surto da direita estagnara, agora, com a queda de Marques Mendes para pouco mais de 600 mil votos, ruiu. O grande derrotado da primeira volta foi, de facto, o primeiro-ministro e o seu governo.
Quando recusou dar indicação de voto para a segunda volta, desesperado para manter as duas pernas da sua aliança parlamentar alternante entre PS e Chega, Montenegro revelou a sua situação de refém de Ventura, que se apresentará como o novo “líder da direita”.
O que se joga na segunda volta
Passou à segunda volta, com efeito, o candidato que prometeu “murros na mesa”, “uma pluralidade de salazares”, “ordem” e o fim do “sistema” (mas perdeu mais de cem mil votos desde as legislativas).
A 8 de Fevereiro, será, pois, Seguro contra Ventura.
Seguro fará inevitavelmente campanha por uma democracia abstracta e nominal — nada que ver com a defesa dos salários e direitos dos trabalhadores, a continuação da greve geral contra o pacote laboral, a defesa da saúde e do ensino público contra os projectos de privatização em execução pela aliança Montenegro/Ventura/Carneiro ou a concretização do direito à habitação.
Ainda assim, muitos serão os jovens e trabalhadores — mais ainda do que na primeira volta — que arrastarão os pés para votar em Seguro contra a ameaça do candidato fascista e o cortejo de autoritarismo, repressão, guerra e violência que ele promete.
Muitos outros não conseguem esquecer a política do PS (e parceiros da geringonça) de continuação, levemente disfarçada, da austeridade e de requisições civis e militares contra greves, ficando em casa — embora não por se estarem nas tintas para Ventura ganhar.
Como derrotar a ofensiva do grande capital, fascista ou não?
Pode, na verdade, Ventura vencer e, com isso, pode o regime mudar? Dada a crise geral das direcções políticas das duas classes, não é impossível.
Uma vitória de Ventura abriria indiscutivelmente caminho à violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias. No poder, o candidato a ditador fascista tornaria muito mais difíceis as condições em que os trabalhadores têm de lutar.
Os jovens e trabalhadores sabem, instintivamente, que o fascismo só momentaneamente se pode derrotar nas urnas. O partido fascista é apenas um dos instrumentos de que o grande capital se pode servir para sair de crises profundas à custa dos trabalhadores.
Só pelo combate porfiado nos locais de trabalho, nas ruas, com os sindicatos e movimentos associativos e culturais, construindo a unidade, organizando a greve e a luta, derrotando o pacote laboral, a privatização do ensino, da saúde e da segurança social, revertendo a caminhada para a guerra se derrota definitivamente o fascismo.
A urgência absoluta é erguer a par e passo, nesse processo, uma nova direcção política para o movimento operário, assente nos princípios que o fundaram: independência do Estado e do capital, luta intransigente pelos salários, pelos direitos e pela verdadeira democracia: o poder organizado e democrático dos trabalhadores.