A resposta dos trabalhadores e da população americana vem da base

Mais um cidadão americano assassinado pelo ICE em Minneapolis

No dia 15 de Janeiro, Trump ameaçou solenemente que, “se os políticos corruptos do Minnesota não acatarem as leis e não impedirem agitadores profissionais e insurrectos de atacarem os patriotas do ICE, que só estão a tentar fazer o trabalho deles, invocarei o “Insurrection Act”.

Ao abrigo desta lei de excepção, o presidente poderia mandar o exército entrar na cidade de Minneapolis, onde cresce a tensão desde o assassinato de Renee Good e disparos de um agente do ICE que feriram um trabalhador imigrante da Venezuela.

A 18 de Janeiro, o ministério da Defesa americano notificou 1.500 soldados para estarem prontos para um possível destacamento para o Minnesota.

Na sexta-feira 23 de Janeiro, mais de 100 mil pessoas enfrentaram, em Minneapolis, no Minnesota, temperaturas negativas e uma sensação térmica de -34 graus Celsius para participar nos protestos do “Dia da Verdade e da Liberdade” contra o assassinato de Renée Nicole Good por um agente do ICE e contra a ocupação federal da cidade.

O protesto reuniu várias camadas da classe trabalhadora — profissionais de saúde, educadores, carteiros e muitos outros — bem como muitos estudantes e membros da classe média. Manifestantes imigrantes e nativos marcharam lado a lado.

Na manhã do dia seguinte, os agentes do ICE executaram a sangue frio um segundo cidadão de Minneapolis, o enfermeiro Alex Pretty. O homicídio ocorreu a poucos quarteirões de onde Renée Nicole Good fora morta pouco mais de duas semanas antes.

Os vídeos desta barbaridade mostram agentes do ICE a disparar repetidamente contra o corpo da vítima quando esta jazia já, indefesa, no chão.

Este crime é a resposta da administração Trump à poderosa e pacífica manifestação do dia anterior pelo fim do reinado de terror do ICE contra os trabalhadores e os jovens de Minneapolis.

Estes assassinatos e outros actos de violência estão a ser perpetrados com o apoio irrestrito da administração Trump. Após o assassinato de Renée Good, o governo denunciou a vítima como terrorista e declarou que não haveria qualquer investigação criminal sobre as circunstâncias do disparo. O agente do ICE que a assassinou ficou impune. A secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, e o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, Stephen Miller, acusam agora Pretti, um enfermeiro de unidade de cuidados intensivos, de 37 anos, dum hospital de veteranos, de ser um “terrorista interno”.

A escalada da Casa Branca é mais um degrau no atentar contra a democracia e na marcha para a guerra civil. Tal como a sua política de guerra no exterior, aparece como mais uma fuga para a frente, quando Trump se vê implicado no escândalo Epstein e enfrenta descontentamento social.

Também ele preocupado com o caminho que as coisas levam, o Partido Democrata — em consonância com a sua natureza de classe e o seu papel de pilar das instituições — apela ao voto nos seus candidatos nas eleições de Novembro, que renovarão metade dos membros do Congresso dos EUA!

Esta mobilização popular de 23 de Janeiro, que amadurece da base para o topo, é sinal de como, em todo o país, a classe trabalhadora e as suas organizações, juntamente com os jovens, poderiam, recorrendo aos métodos da greve e da mobilização, infligir uma derrota a Trump e ao ICE.

É o momento de mobilizar o enorme poder da classe trabalhadora.

Os residentes do Minnesota contam com os sindicatos para pôr fim ao terror” (Labor Notes*)

No passado dia 7 de Janeiro, em Minneapolis, no Minnesota, Renee Good, uma mãe de 37 anos, foi assassinada por um agente do ICE, a agência federal de imigração que Trump está a usar para aterrorizar os trabalhadores imigrantes. No dia 10 de Janeiro, dezenas de milhares de americanos protestaram por todo o país. Em Minneapolis, a resistência organiza-se, como relata este artigo de Labor Notes (16 de Janeiro), de que publicamos extensos excertos.

Sitiados [pelos agentes do ICE – nota nossa], os habitantes de Minnesota contam com os seus sindicatos e organizações de bairro para pôr fim ao terror.” Para exigir a saída do ICE, noventa organizações – secções sindicais locais, grupos de defesa da democracia, organizações de trabalhadores imigrantes, associações de bairro e até igrejas – lançaram um apelo a “um dia sem trabalho (com excepção dos serviços de emergência), sem escola e sem comércio em todo o estado no dia 23 de Janeiro” e a manifestações. A iniciativa teve o apoio da AFL-CIO de Minneapolis, que anunciou que se encarregaria ela própria de organizar a segurança do cortejo [a AFL-CIO é a maior central sindical americana, com 13 milhões de filiados na América do Norte, 80 mil no estado de Minnesota].
A situação vem-se agravando há meses. “O regime Trump intensificou os ataques racistas (…): arrombamento de portas, invasões de pequenas empresas para obrigá-las a fechar, filtragem de autocarros escolares, lançamento de gás lacrimogéneo em frente a escolas, cerco de hospitais.” (…) “Os ataques contra os imigrantes não são novidade, mas a sua intensidade é hoje extrema, e cada vez mais pessoas se mobilizam para enfrentar a situação“, segundo declarou Jason Rodney, um professor associado. Testemunho de um militante do Sindicato dos Transportes Públicos (ATU): “Dizem que, nos Estados Unidos, vivemos numa sociedade democrática, mas não é essa a impressão que temos em Minneapolis. É um pesadelo.” A 10 de Janeiro, filiados do ATU interpelaram o ICE na sequência da detenção brutal de um colega de origem somali, numa paragem de autocarro. O sindicato adoptou uma resolução, que enviou a todos os sindicalizados, referindo que ninguém devia cooperar com o ICE: impedindo, por exemplo, o acesso dos agentes aos comboios e autocarros e criando uma rede para reagir rapidamente a intervenções. Em Dezembro passado, carteiros organizaram uma concentração para evacuar parques de estacionamento dos correios, no Sul da cidade, de camiões do ICE lá estacionados.
Os sindicatos servem-se de redes já criadas quando do movimento Black Lives Matter, em 2020, ou de mobilizações sindicais. “As conversas reflectem as experiências vividas pelos membros nos seus próprios bairros. Quando o presidente da secção local da CWA [sindicato da comunicação social – nota nossa], Knutson, estava a distribuir panfletos contra o ICE, duas sindicalistas disseram-lhe que já faziam parte da rede de defesa dos imigrantes.” Nesta fase, “embora os sindicatos tenham apoiado os apelos aos habitantes do Minnesota para, no dia 23 de Janeiro, se recusarem a ir trabalhar, à escola e fazer compras, ainda nenhum sindicato decidiu apelar à greve. Mas a história mostra como manifestações de massa se podem transformar em greves gerais. A greve geral de 1934, em São Francisco, começou quando os estivadores e os seus apoiantes paralisaram o bairro comercial da cidade durante o funeral de dois grevistas assassinados.

*Labor Notes é um boletim político alimentado por correspondentes sindicais.

A AFL-CIO de Minneapolis convoca mobilização para 23 de Janeiro (excertos)

A Federação Regional do Trabalho da AFL-CIO(1) de Minneapolis, juntamente com organizações regionais de todo o estado (…), uniram-se em solidariedade e apoio a uma acção forte e unificada no estado no dia 23 de Janeiro (…). Estão a atacar os trabalhadores, as nossas escolas e as nossas comunidades. Detêm-se sindicalistas que vão de casa a caminho do trabalho, dilacerando famílias. Pais são obrigados a ficar em casa, tiram-se alunos da escola por temer pelas suas vidas, enquanto o patronato permanece em silêncio. As nossas federações sindicais apelam a todos: participem na jornada de 23 de Janeiro. (…)

Para esta jornada, os sindicatos unem-se às reivindicações de:

– retirada imediata do ICE do Minnesota.

– responsabilização legal do agente que matou Renee Good.

– nem mais um financiamento federal para o ICE no próximo orçamento do Congresso e abertura de um inquérito ao ICE por violação dos direitos humanos e constitucionais dos americanos e dos nossos vizinhos.

– que as empresas do Minnesota e as empresas nacionais se tornem “empresas da Quarta Emenda”(2), cessem todas as relações comerciais com o ICE e neguem ao ICE acesso às suas instalações ou ao uso de propriedades suas como bases logísticas. “

(1) A AFL-CIO é a maior federação sindical dos Estados Unidos. Representa treze milhões de membros nos Estados Unidos e no Canadá. A sua filial no Minnesota tem 175 sindicatos filiados, representando mais de 80.000 trabalhadores de sete condados. Entre os sindicatos que convocaram a manifestação de 23 de janeiro estão: a secção local da SEIU, um dos maiores sindicatos de trabalhadores de serviços; a secção local da Unite Here, um sindicato de trabalhadores da hotelaria, restauração e entregas, com quase 500 mil filiados em todo o país; vários sindicatos de professores (as secções da Federação de Educadores de Saint Paul e da MFE); uma secção local da Aliança Internacional de Empregados de Teatro; a secção local da CWA, um sindicato de trabalhadores de telecomunicações;

(2) A quarta emenda à Constituição protege os cidadãos de “buscas e apreensões sem motivação“.