Ninguém sabe, para já, para onde vai o Irão.
Manifestações contra a carestia transformaram-se em manifestações de massa contra o regime, um regime teocrático, que há quarenta e sete anos oprime mulheres, trabalhadores e minorias nacionais. E que responde com repressão sangrenta, como há três anos fizera contra os protestos “Mulheres, Vida, Liberdade”.
Trump, o imperialismo americano e a sua sucursal israelita ameaçam intervir directamente… a não ser que o regime se disponha a um acordo. Tal como na Venezuela e na Ucrânia, Trump precisa de impor o tacão de ferro dos interesses do capital financeiro americano, seja por que meios for. Precisa de acesso ao petróleo iraniano e à localização estratégica do Irão na rota da China, com ou sem acordo do regime dos mulás. Tem dúvidas se há-de puxar do seu fantoche, Reza Pahlavi, o filho do Xá do Irão (deposto pela revolução de 1979), que se autoproclama “representante dos manifestantes”.
“Nem xá nem mullahs”, ouve-se às vezes à “esquerda”. Só que tal fórmula não capta o essencial.
O essencial é que, contra Trump, o seu fantoche Pahlavi e os mulás que buscam um acordo com Washington, há uma força fundamental, o movimento operário.
Os documentos que se seguem mostram como, face ao imperialismo e ao regime opressor, a classe trabalhadora organizada é capaz de encabeçar o movimento que há-de trazer o pão, a paz e a liberdade.
Apelo dos conselhos operários de Arak* (11 de Janeiro)

“Acabou-se a era dos patrões e dos mulás.
Todo o poder aos conselhos!”
Aos trabalhadores da província de Markazi, aos nossos camaradas do Khuzistão e a todo o povo iraniano.
Há décadas que as nossas reivindicações pelo pão são tratadas à bala e as nossas reivindicações de dignidade nos valem a prisão. Mas hoje quebrou-se o silêncio. Nós, operários das fábricas de Arak, declaramos o seguinte:
Controle do local de trabalho: a gestão das fábricas de engenharia mecânica Azarab e WagonsPars passa para as mãos de conselhos operários eleitos. Deixamos de reconhecer quer os dirigentes indicados pelo governo como os sindicatos fantoches do regime.
Ligação à terra: a nossa greve já não é por causa de salários. Apelamos a que os cidadãos de Arak formem conselhos de bairro para gerir a segurança e o abastecimento. As nossas fábricas são a vossa protecção.
Defesa dos soldados. Apelamos aos nossos irmãos do exército para que “não queiram ser assassinos dos vossos próprios pais. Se passarem para o nosso lado, os nossos conselhos garantirão a vossa segurança e a das vossas famílias.”
Ultimato ao regime: intentos de entrar à força nos complexos industriais ou de prender os nossos representantes serão considerados actos de guerra contra toda a cidade. Se for derramada uma só gota de sangue operário, as chamas da rebelião não deixarão pedra sobre pedra do poder.
Não estamos aqui apenas para exigir o pagamento dos nossos salários em atraso. Estamos aqui para decidir como se hão-de gerir esta fábrica e este país. Acabou-se a era dos patrões e dos mulás. Todo o poder aos conselhos!
11 de Janeiro de 2026
*Capital da província de Markasi, a 280 quilómetros de Teerão, um dos principais centros industriais, com uma população de meio milhão de habitantes.
A luta dos trabalhadores do petróleo pelos seus direitos

Petróleo, enfermeiros, reformados, transportes… foram múltiplas as greves em 2025. Disso foi exemplo a manifestação de trabalhadores da indústria iraniana de petróleo e gás no concelho de Assaluyeh (no Sul do país, nas margens do Golfo Pérsico ) em 9 de Dezembro de 2025, depois de dezoito semanas de mobilização.
O Sindicato Livre dos Trabalhadores Iranianos estimou o número de manifestantes em cinco mil, “uma das maiores concentrações de protesto na história da indústria petrolífera iraniana em quase cinco décadas“. A multidão marchou em direcção ao escritório do governador, gritando: ” Proibição da sub-contratação!”
As reivindicações incluem harmonização dos salários, um regime de “duas semanas de trabalho seguidas de duas semanas de folga“, pagamento de subsídios de alojamento e transporte e aplicação da legislação do trabalho a todos os trabalhadores, pois muitos deles têm vínculo precário. Os protestos duram há anos. As promessas do governo e do patronato nunca foram cumpridas.
Pars Sul é o principal centro da indústria de gás e um dos pilares das suas exportações petroquímicas. Em Junho de 2025, ataques aéreos israelitas atingiram o sector 14 do complexo.
A mobilização dos trabalhadores de Pars Sul é evidência de uma flagrante contradição: as instalações são consideradas um activo estratégico para a “segurança nacional”. Os milhares de trabalhadores contratados vivem, contudo, em barracões precários, suportam jornadas de trabalho exaustivas e têm que lutar pela igualdade salarial e pela segurança no emprego.
Greve dos trabalhadores da Companhia Açucareira

A 28 de Dezembro de 2025, dia em que se iniciaram as manifestações contra o custo de vida em Teerão, entrou no seu sétimo dia a greve dos trabalhadores da Companhia Açucareira do Médio Oriente em Shush (sudoeste do Irão). Reunidos frente à fábrica, os grevistas entoaram palavras de ordem exigindo a satisfação das suas reivindicações. Nenhum responsável ou instituição governamental competente aceitou responder-lhes com mais do que ameaças e intimidações. Mesmo assim, os trabalhadores continuaram a luta com determinação. A greve começara após o despedimento, a pedido dos serviços de informações, da procuradoria e da inspecção do trabalho, de três trabalhadores activamente envolvidos na luta. Os operários reivindicam, nomeadamente, um subsídio de refeição, o pagamento das horas extraordinárias, a criação de um conselho operário na fábrica, a reforma das avaliações. O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia Açucareira de Haft Tappeh apoia as reivindicações dos grevistas e apela à solidariedade de todos os trabalhadores dos diversos sectores do ramo.
Quem matou Khosrow Alikordi?

A luta operária e democrática é também luta pelos direitos dos presos de consciência. Em 6 de Dezembro de 2025, o advogado Khosrow Alikordi, de 46 anos, foi encontrado morto em Mashhad. As autoridades concluíram por uma “paragem cardíaca”, o que os seus próximos contestam. Alikordi dedicou a vida à defesa das manifestantes presas durante o levantamento”Mulher, Vida, Liberdade” de 2022-2023 e de presos políticos, muitos deles condenados à morte (o regime mandou enforcar mais de duzentos condenados só nos primeiros dezassete dias de Setembro de 2025). Em 12 de Dezembro de 2025, durante a cerimónia de homenagem a Khosrow Alikordi, foram presos pelas forças de segurança do regime dos mulás mais de cinquenta militantes operários e democráticos. Mas a concentração foi igualmente objecto de ataques físicos de capangas armados de matracas, que entoavam palavras de ordem monárquicas como ” Viva o Xá!” e “Morte aos três corruptores: o mulá, o esquerdista e o mujahidin!“. Tanto o regime teocrático como a oposição monárquica e os seus apoiantes estrangeiros vêem no movimento operário e democrático os seus piores inimigos.
*Mujahidin do povo: um movimento burguês armado de oposição ao Xá e ao regime dos mulás.
As informações publicadas nesta página provêm dos canais Telegram de organizações de trabalhadores e do boletim informativo Echoes of Iran.