Saudamo-vos!
Saudamo-vos, trabalhadoras e trabalhadores do Minnesota, que há semanas, há meses, organizais a defesa dos vossos vizinhos, camaradas de trabalho, amigos, perseguidos com a máxima violência pelo ignóbil ICE simplesmente por não possuírem, alegadamente, documentos válidos!
Saudamo-vos, trabalhadoras e trabalhadores de todas as origens, que vos organizastes nos vossos sindicatos, nos vossos comités de defesa de trabalhadores migrantes, nas vossas associações de apoio e redes diversas e que, às dezenas de milhares, construístes uma autêntica “indústria” de protecção dos trabalhadores migrantes: há os que os abrigam, os que os abastecem de alimentos, os que (dezenas de milhares!) se treinam em como vigiar as actividades do ICE e dar o alerta para as rusgas aos bairros onde vivem e aos estabelecimentos onde trabalham e como filmar e gravar agentes do ICE quando eles agridem trabalhadores imigrantes ou manifestantes!
Saudamo-vos, a vós que, durante semanas, durante meses, montastes piquetes à frente dos hotéis onde se alojam as tropas do ICE!
Saudamo-vos, a vós que, pela vossa actividade organizada e metódica, pusestes a componente imigrada da classe operária americana sob a protecção de todos os trabalhadores, assim dando substância e vida à palavra de ordem histórica do movimento operário do vosso país: “Um ataque a um de nós é um ataque a todos nós!“
Saudamo-vos, vós que, no dia 23 de Janeiro, com temperaturas de vinte graus abaixo de zero, saístes à rua às dezenas de milhares, com os vossos sindicatos, as vossas associações, as vossas redes, unidos na reivindicação “Fora o ICE!“. Convosco aprendem os trabalhadores do mundo inteiro a lição de que, quando se organiza, a classe trabalhadora tudo pode, até fazer abanar uma administração Trump que a única linguagem que compreende é a da relação de forças.
Em contrapartida, tende vergonha, vós, políticos eleitos do Partido Democrático, que dizeis opor-vos a Trump, mas que, pela voz do governador do Minnesota, vos contentais com uma vaga promessa de retirada parcial do ICE! Tende vergonha, vós que, nesse mesmo dia 23 de Janeiro, votastes, na Câmara dos Representantes, ao lado do Partido Republicano, a favor de um projecto de lei que afecta mais de 828 mil milhões de dólares ao orçamento militar — votação que implica, na prática, apoiar a política de terror de Trump!
Tende vergonha vós também, dirigentes da ala “socialista” do Partido Democrático*, que condenais em palavras as políticas pró-Trump dos dirigentes do vosso partido, mas vos recusais a romper com o Partido Democrático, dando, assim, uma caução de “esquerda” à política democrata de acompanhamento a Trump, comportando-vos como autênticos socials-chauvinistas: “socialistas” na conversa, mas cúmplices do chauvinismo anti-imigrante e anti-povos do mundo que os vossos dirigentes partilham com Trump.
A vós, Renee Good e Alex Pretti, nossos irmã e irmão de classe caídos, vítimas do vosso compromisso de defesa dos trabalhadores imigrantes, a nossa homenagem e o nosso respeito!
* Muitos militantes de base do Partido Democrático juntaram-se e marcharam com os manifestantes de Minneapolis.
editorial do nº 525 de La Tribune des travailleurs
Três letras que semeiam o terror
ICE: três letras que hoje semeiam o terror pelos Estados Unidos fora. ICE é a sigla do Serviço de Imigração e das Alfândegas (Immigration and Customs Enforcement), dependente do Ministério de Segurança Interna dos EUA (DHS). Trump, que fez da caça aos imigrantes uma prioridade da sua presidência, tem organizado o destacamento de patrulhas do ICE para várias cidades americanas. Aumentou, ainda, o orçamento do serviço de 10 para 85 mil milhões de dólares — para comparação, o orçamento do FBI é de 35 mil milhões de dólares — e duplicou-lhe o efectivo de pessoal. Num ano, o ICE capturou na rua, em casa ou no trabalho nada menos de 328 mil imigrantes indocumentados. 327 mil foram deportados. Trinta morreram em detenção.
Na cidade de Minneapolis (do estado de Minnesota, estado do norte que faz fronteira com o Canadá), o destacamento de três mil agentes do ICE criou um clima de terror. Para os habitantes da cidade, a presença do ICE equivale a uma verdadeira “ocupação“. A violência subiu de patamar em Janeiro, quando os agentes do ICE assassinaram habitantes em plena rua (ver mais abaixo). Estas execuções foram justificadas pela administração Trump em nome da “legítima defesa” contra o “terrorismo“. Por todo o país, crescem de intensidade a raiva e a indignação, manifestações exigem a retirada do ICE e o fim das rusgas.
Enquanto orquestra esta escalada assassina, Trump não deixa de enfrentar dissidências no seu próprio partido, o Partido Republicano. É crescente o número de militantes republicanos que, preocupados com o rumo dos acontecimentos, fazem pressão para que o presidente acalme a situação. O presidente da Câmara de Minneapolis, democrata, anunciou, a 27 de Janeiro, que o governo federal iria retirar gradualmente alguns agentes.
Mas o que os habitantes de Minneapolis querem é que os três mil agentes do ICE se vão todos embora .
Reproduzimos abaixo declarações de sindicalistas de Minneapolis, que participaram, no dia 23 de Janeiro, na histórica mobilização contra o ICE, que foi convocada por noventa organizações — secções sindicais locais, grupos de defesa da democracia, organizações de trabalhadores imigrantes, associações de bairro e até igrejas.
Nelly Mary

No dia 23 de Janeiro,
75 mil trabalhadores e jovens saíram à rua
contra as rusgas policiais aos imigrantes
“O que está a acontecer
diz respeito a todo o movimento operário”
“Há uma data de leis nos Estados Unidos que impedem os sindicatos de convocar uma greve geral. Apesar disso, éramos 75 mil nas ruas de Minneapolis, no dia 23 de Janeiro, respondendo ao apelo dos sindicatos. Acho que é justo dizer que foi a maior mobilização operária a que se assistiu em Minneapolis nos últimos noventa anos.” Sheigh Freeberg é um dos líderes da secção local do Unite Here (um dos maiores sindicatos americanos, que representa os trabalhadores da hotelaria, restauração e estafetas) de Minneapolis. “Estavam quase vinte graus abaixo de zero e, mesmo assim, éramos milhares.” O frio não impediu os habitantes de saírem à rua para manifestarem a sua raiva e gritar “Fora com o ICE!”. Dave Benett, membro da secção local do CWA, o sindicato de trabalhadores da comunicação, conta que “quase ninguém foi trabalhar. Fui à manifestação com a minha mulher e filhos. Havia tanta gente que não consegui ver todos os membros do meu sindicato. Todos os sindicatos e organizações lá estavam. Havia muitos jornalistas.“
“Uma rede incrível de coordenação e solidariedade”
da parte dos sindicatos
“Creio que a razão por que o apelo para o dia 23 de Janeiro ganhou tanta força foi tantos sindicatos terem aderido”, como explica Amy Harbourne, membro do Sindicato dos Estudantes Trabalhadores da Universidade de Minneapolis. O seu sindicato aderiu à coligação de noventa organizações locais que convocaram o dia 23 de Janeiro. “O que se está a passar na nossa cidade diz respeito a todos os trabalhadores e a todo o movimento sindical. A nossa universidade tem muitos estudantes estrangeiros. Temos o dever de nos protegermos mutuamente, servindo-nos dos sindicatos.” O apelo também foi apoiado pela Federação Regional de Minneapolis, filiada na AFL-CIO, a maior central sindical do país, que conta 64 sindicatos filiados e quase 13 milhões de aderentes em todo o país. “Foi incrível ver tantas organizações a apoiarem este apelo e, especialmente, ter o aval da AFL-CIO. Esta solidariedade a todos os níveis foi só por si uma vitória, porque, isolados, não conseguiremos vencer”, refere Freeberg.
“O apego do movimento sindical à democracia vem de nós próprios a praticarmos nas nossas organizações“, afirma Hector Capote, membro da CWA. “O que se está a passar em Minneapolis devia servir de exemplo para toda a gente. Eu sou descendente de cubanos e cidadão norte-americano. Desde o assassinato de Renee Good, passei a andar com o meu passaporte, porque já não me sinto seguro. O perfilamento racial está a aumentar. Mas está a surgir uma coordenação e solidariedade incríveis: grupos de vigilância do ICE nos bairros, moradores que vão fazer compras para os vizinhos imigrantes…” Muitas redes locais são criadas pelos sindicatos. Conta Freeberg que “duzentos membros do nosso sindicato estão a organizar entregas de alimentos aos trabalhadores imigrantes e às suas famílias. Esta rede é financiada por donativos dos moradores da cidade”.
“Primeiro passo
para uma mobilização mais ampla e geral”
“Apoiar uma ‘greve geral’ não foi uma decisão que se tomasse de ânimo leve, uma vez que é ilegal”, acrescenta Harbourne. A convocatória dos sindicatos para o 23 de Janeiro não articulava explicitamente a questão da greve. Houve muita gente que preferiu a precaução de não sair do quadro fixado pela legislação americana. “Mas todo o comité executivo do meu sindicato estava convencido da necessidade de fazê-lo. Foi a primeira vez que tivemos a oportunidade de comunicar com outras organizações de fora da cidade universitária. O nosso sindicato e os sindicatos dos funcionários da cidade universitária já antes se tinham mobilizado em conjunto para melhorar a segurança e prevenir intrusões do ICE na cidade universitária. Conseguimos uma pequena vitória.” Para Freeberg, “como sindicato, podemos actuar directamente, explorando divisões entre Trump e as elites capitalistas. Se estas começam a ver que a mobilização tem consequências para os seus lucros, é pressão sobre Trump. Nos hotéis da cidade, o nosso sindicato ajudou os empregados a mobilizarem-se contra a administração para exigir que deixasse de alojar agentes do ICE. É uma questão de segurança para os trabalhadores. E a nossa direcção sente a pressão, os cancelamentos de reservas fazem-na perder dinheiro”.
A defesa da democracia não está desligada da luta pelas reivindicações salariais. Conta Benett que o seu sindicato “luta por melhores salários e seguros de saúde. Só que, agora, muita gente também quer medidas de protecção dos trabalhadores. Os governos fazem pontaria aos sindicatos, porque eles são os únicos sítios onde nos podemos reunir todos e sermos tratados de forma igual, independentemente da nossa origem, género ou opiniões. Organizamo-nos juntos e conquistamos as nossas reivindicações. A mobilização de 23 de Janeiro é um primeiro passo para uma mobilização mais ampla e geral.” “Toda a gente tem que compreender a gravidade do que se está a passar”, acrescenta Freeberg. “O assassinato de Pretti ocorreu mal haviam passado doze horas do fim da manifestação — relativizando, como é evidente, o sucesso da concentração. Mas as organizações estão a discutir o que fazer a seguir. Vemos que o governo federal está a começar a recuar. A luta não acabou, temos que continuar.” Harbourne considera que “os ataques do ICE são racistas e reaccionários, mas não só. Creio que por trás da situação há uma vontade real da administração Trump de nos esmagar e silenciar quem se lhe oponha. A resposta do nosso sindicato não pode ser capitular perante esta operação desumana e inconstitucional.”
Declarações recolhidas por Camille Adoue
Símbolos da barbárie do “Serviço de Imigração”


