
Porque faz Trump pontaria à Gronelândia, provocando uma crise de grandes proporções com vários países europeus, incluindo a França, a Dinamarca e outros?
Compreenda-se: quando falamos de Trump, não nos interessa falar do carácter completamente excessivo e mais ou menos desequilibrado da psicologia do indivíduo. A pergunta a fazer é porque decidiu a classe capitalista dos Estados Unidos — não sem hesitações nem contradições — apoiar Trump. E porque o apoia ainda? Não se procure a resposta a esta pergunta na psicologia individual de Trump, mas na crise do capitalismo. O princípio do capitalismo, como escreveu Marx, é o “dinheiro sempre a brotar“, incapaz de ficar parado. O capital necessita de ocupar constantemente novos terrenos de valorização. Chegado ao estádio do imperialismo, o capitalismo deixa de ser capaz de se desenvolver pela expansão dos mercados, porque os mercados passaram a estar todos controlados, de uma forma ou de outra, por alguma das potências capitalistas.
Menos capaz é, ainda, de o fazer porquanto, em cada país, se depara com a resistência da classe trabalhadora, que se opõe a que os seus direitos sejam coarctados. O imperialismo americano debate-se, por sua vez, com imperialismos concorrentes e com a economia chinesa, que não se rege da mesma forma pelas leis do capital. Após anos de dificuldades, a classe capitalista mais poderosa do mundo vê com interesse alguém que declara que “quebrarei toda a resistência com o meu método, que é o da violência mais extrema. Graças a isso, à América Primeiro, nós, capital financeiro dos Estados Unidos, voltaremos a dominar o mundo sem contestação”. Tendo apresentado este programa e ganho os capitalistas americanos para esta perspectiva, inclusive os que muito se lhe “opunham” (quem não se recorda da adesão de Zuckerberg e de outros gigantes tecnológicos até então apoiantes do candidato democrata), Trump precisa de provar que é capaz de alcançar resultados. E é aí que começam os problemas. Trotsky escreveu um dia que a burguesia aceita o nazismo como alguém com dores de dentes aceita o dentista: é um mal necessário. Com Trump, é um pouco a mesma coisa. Por isso todos estes grandes gestos, todas estas ofensivas, da Venezuela à Gronelândia, passando pelo Irão e pela Palestina, têm abertamente a sua razão de ser não na “democracia” ou na “paz”, mas no petróleo e nos recursos naturais, no lucro. No âmbito interno, as suas políticas económicas mais não fazem do que alimentar a inflação, enquanto a criação de emprego cai a pique. Acresce que as políticas ultra-repressivas do ICE contra os imigrantes estão a provocar uma revolta popular e da juventude no Minnesota.

É por isso que ele precisa desesperadamente de “sucessos”, de demonstrações de força, e de as justificar com ganhos imediatos, neste caso, o petróleo.

Umas dezenas de soldados “europeus” farão recuar Trump na Gronelândia?
Na realidade, Trump testa os limites do seu poder. Trump já obrigou as potências europeias a capitular. Já impôs a todos a obrigação de aumentar as despesas militares para 5% do PIB, principalmente para a compra de armas, sobretudo americanas. Já se arrogou um mandato para negociar uma “paz” na Ucrânia, cuja consequência será que os países europeus terão de suportar todos os encargos da execução do fundo de investimento de Zelensky e Trump, cuja essência é o saque das riquezas da Ucrânia pelo capital financeiro americano — saque garantido pelo envio de tropas de países da União Europeia.
E podemos ter a certeza de que Trump não hesitará, se a oportunidade surgir, em tomar a Gronelândia… ou não.
Neste sentido, um futuro acordo sob os auspícios da NATO poderá incluir “uma renegociação do pacto de 1951 entre os Estados Unidos e a Dinamarca que rege o estacionamento de tropas americanas na Gronelândia, bem como o destacamento de mísseis americanos para aquela ilha; a concessão de direitos mineiros, principalmente para impedir a presença ou o investimento chinês” (Le Grand Continent, 22 de Janeiro).
Em entrevista ao New York Times, a 8 de Janeiro, Trump afirmou que a única barreira que reconhecia era a ditada pela sua própria moralidade. Existe, portanto, muita margem entre o que ele faça hoje e o que poderá fazer amanhã.

Isso significa que a ameaça de guerra diminuiu?
Infelizmente, não. Do mesmo passo que parece suavizar a sua posição sobre a Gronelândia, Trump desloca uma “armada”, como ele lhe chama, rumo ao Irão. “O porta-aviões USS Abraham Lincoln atravessou o Estreito de Malaca há uma semana, segundo levantamentos marítimos e fotografias de observadores locais. O porta-aviões, de propulsão nuclear, passou ao largo da costa de Singapura pouco antes da meia-noite do passado domingo, com as luzes no mínimo, acompanhado pelos contratorpedeiros USS Frank E. Petersen Jr., USS Spruance e USS Michael Murphy” (Euronews, 25 de janeiro de 2026).

Noutra frente, Trump ameaça o Canadá, para impedi-lo de assinar um acordo comercial com a China, com direitos aduaneiros de 100%, enquanto o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, pondera abertamente anexar a rica província de Alberta: “Eles têm recursos significativos. (…) Devíamos deixá-los aderir aos Estados Unidos” (23 de Janeiro). A ameaça é considerada tão grave que fontes do governo canadiano indicam que as suas “forças armadas estão a estudar tácticas de guerrilha semelhantes às utilizadas pelos mujahidin afegãos” (The Globe and Mail, 20 de Janeiro)!
Quanto à Venezuela, as ordens de Trump são de tal ordem, que a vice-presidente Delcy Rodríguez acaba de declarar: “Chega de ordens de Washington aos políticos venezuelanos!” Ficou-se a saber que ‘Delcy Rodríguez garantira a sua cooperação aos Estados Unidos antes da captura de Maduro“, segundo fontes do jornal britânico The Guardian (22 de Janeiro).

Qual é a concepção de paz de Trump? Ele criou, por exemplo, o “Conselho da Paz” para Gaza. O que é isto?
O Conselho da Paz para Gaza é uma incrível impostura . A carta do Conselho de Paz acaba de ser publicada. Não faz menção alguma de qualquer coisa que se chame Palestina ou sequer povo palestiniano. É um descarado acto de pirataria. Trump propõe que o capital financeiro, o dos Estados Unidos, mas também o das petromonarquias, cujas reservas financeiras são notórias, invista em Gaza, transformando-a numa Riviera, lá construindo 150 gigantescos edifícios de luxo. Lê-se nas entrelinhas que existiria um espaço onde estacionar os sobreviventes do genocídio de Gaza. Direitos do povo? Democracia? Soberania? Tudo varrido por uma só lei: lucro e só lucro, já.

Independentemente do destino deste projecto, ele resume a “concepção” de Trump sobre a “ordem mundial”: não há direito das nações, não há princípio democrático, obviamente não há princípio de soberania, há um e um só princípio: o direito à pilhagem e ao lucro do imperialismo mais poderoso, em todas as regiões e todos os povos.
Diga-se de passagem que Trump conta com o apoio total da União Europeia nesta matéria. Em nome dos vinte e sete chefes de Estado, o Presidente do Conselho Europeu, António Costa, declarou que aqueles estavam “prontos para colaborar com os Estados Unidos na execução do plano global para pôr fim ao conflito em Gaza, com o Conselho da Paz a cumprir a sua missão em conformidade com a Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.“

Como funcionará exactamente este “Conselho da Paz”?
O Conselho da Paz é definido por estatutos, em que fica postulado que Trump preside, compõem-no associados seus e chefes de Estado, convidados a contribuir com “mais de mil milhões de dólares em espécie” (!); o Conselho dirige “entidades subsidiárias” e está habilitado a assinar acordos internacionais. A sua função não se limita a Gaza, e Trump não faz disso segredo: o objectivo final é substituir a ONU pelo Conselho da Paz. A ONU reflectia o equilíbrio de poderes no final da Segunda Guerra Mundial. Estava sob a égide de um “Conselho de Segurança” composto por cinco países, os “Aliados” da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, URSS (na altura) e China (primeiro Taiwan, depois a República Popular da China). A URSS cedeu, entretanto, o lugar à Rússia. Mas a composição do Conselho de Segurança mantém-se.
O que Trump diz, é, essencialmente, isto: “O equilíbrio de poderes mudou desde 1945; ora, eu só reconheço a força. Assim sendo, instituo um Conselho de Paz cujos estatutos, em cada artigo, se reduzem ao poder de um só homem: eu.” Trump nem sequer substitui as cinco potências do Conselho de Segurança por Wall Street, mas sim por Donald Trump, nominal e estatutariamente designado.

Nestas condições, como lutar contra a guerra?
É evidente que a união sagrada praticada pelas várias “esquerdas” institucionais na Europa — a união sagrada com a burguesia e a indústria do armamento — não é um mero beco sem saída. Ela abre caminho às maiores catástrofes. Amanhã, em nome da guerra necessária ou da preparação para a guerra necessária, seja ela contra contra Trump, Putin ou outros, novos sacrifícios se exigirão aos trabalhadores europeus, com o apoio e a caução de todas as “esquerdas”, na Europa como, aliás, nos Estados Unidos.
A única maneira eficaz de lutar contra a guerra com algum impacto é a classe trabalhadora lutar em completa independência. Ao defender as suas reivindicações, a classe trabalhadora não pode deixar de se bater contra os orçamentos de guerra e contra os governos que os sustentam, ou seja, contra a própria guerra.
A questão põe-se em todos os países. Nos Estados Unidos, os ex-presidentes democratas Clinton e Obama, pressentindo que a situação pode escapar ao controlo de Trump, têm feito declarações indignadas. Convém, contudo, recordar que o recordista de deportações de imigrantes, antes de Trump, era Obama!
Os dirigentes da federação sindical AFL-CIO do Minnesota apelaram à mobilização contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândegas dos EUA). É um passo no bom sentido, mas não basta. Para proteger os manifestantes da horrível repressão que já ceifou duas vidas, para proteger o segmento imigrante da classe trabalhadora, é preciso mais: a situação exige uma greve de todos os trabalhadores do Minnesota e mesmo dos Estados Unidos no seu todo, para forçar Trump a recuar nas suas políticas criminosas contra os trabalhadores, particularmente os imigrantes.
O mesmo vale para a Europa – e para Portugal. Para lutar contra a guerra, o caminho não passa por apoiar nem fazer uniões nacionais com os belicistas, os Montenegros, von der Leyens, Costas, Macrons, Starmers e Merz; passa pela frente única dos trabalhadores e das suas organizações contra os governos e os seus orçamentos de guerra. Passa pela ruptura com todas as formas de apoio aos governos fautores da guerra e de acompanhamento “sindical” das suas políticas.
É por essa ruptura ser essencial em todas as frentes e em todos os terrenos que é necessário construir o partido dessa ruptura. É a razão da nossa luta em todas as frentes da luta de classes.