1) A burguesia portuguesa ainda não está disposta a ir ao dentista
A grande maioria dos dirigentes políticos da burguesia portuguesa apelou a votar António Seguro na segunda volta. Mais importante: Ventura só conseguiu acrescentar cerca de 400 mil votos ao seu resultado da primeira volta, apesar de os três candidatos de direita derrotados (Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes) terem somado mais de 2,3 milhões.
Leon Trotsky escreveu em 1926[1] que “a grande burguesia gosta tanto do fascismo como uma pessoa com um abcesso gosta de ir arrancar dentes”.
Claramente, a burguesia portuguesa prefere, para já, ir tratando da sua dor de dentes com analgésicos. Ainda não vê chegada a hora de se sujeitar à broca do barbeiro-dentista Ventura.
2) A “imprensa de referência” continua a mentir sem vergonha quando fala de resultados eleitorais.
O editorialista do Público de 9 de Fevereiro escreve que “Seguro teve mais do dobro dos votos de André Ventura, dois terços dos eleitores.” Ora, o número de eleitores (território nacional) foi, segundo os números oficiais, 9.189.875. O resultado de Seguro foi de 3.443.273 votos. Tem de se admitir que os jornalistas do Público e os comentadores sortidos que repetem a mesma asneira aprenderam as quatro operações da aritmética. Sabem, portanto, que votaram em Seguro aproximadamente 37,5% dos eleitores, ou pouco mais de um cada três. E votaram em Ventura aproximadamente 18,4% dos eleitores, pouco mais de um cada seis.
3) Montenegro está politicamente mais spinummorto que vivo e ficou refém de Ventura desde que este destroçou o seu candidato Marques Mendes.
Não obstante, irá continuar a aplicar a sua política de destruição do SNS e da escola pública, de destruição dos direitos laborais, de fomento dos senhorios e de despejo dos trabalhadores, agora debaixo da asa do analgésico António Seguro, que já lhe deu as devidas garantias.
Porém, apertado pela pressão orçamental e pelas imposições militares da UE/NATO, enfraquecido eleitoralmente e confrontado com a resistência das classes trabalhadoras, não é certo que Montenegro tenha grande êxito.
A burguesia ainda não descartou recorrer ao barbeiro-dentista.
Aos trabalhadores cabe poupar-lhe a viagem. Para já, preparando de novo a greve geral para derrotar de vez o pacote laboral.
[1] Na reunião da comissão polaca do Comité Executivo do Komintern de 2 de Julho de 1926, à luz dos acontecimentos na Polónia, citado na brochura “A Única Via”, 1932