Após inúmeras purgas na cúpula do Exército Popular de Libertação em 2025, 2026 começou com uma bomba: a demissão do General Jang Youxia, segundo em comando da Comissão Militar Central (CMC), e do General Liu Jenli, Chefe do Estado-Maior Conjunto e quarto em comando da mesma comissão, que é o verdadeiro órgão de comando do exército chinês.
A decisão foi tomada por Xi Jinping, o Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês (PCC), pois é ele quem preside a esta comissão. Uma particularidade da China desde a vitória da revolução operária e camponesa de 1949 é que, no próprio momento da sua vitória, o poder foi confiscado pelo PCC, que o monopolizou e mantém o monopólio sobre ele. É ele, pois, que encabeça todas as instituições do país: o exército, a polícia, o poder judicial, o governo e o parlamento, os sindicatos, etc.
Dezenas de milhões de funcionários públicos retiram privilégios desta situação, tal como milhões de outros desviam vastas somas de dinheiro das empresas estatais. Cada fracção do PCC em cada instituição estatal tem os seus próprios interesses e os seus próprios nichos de corrupção a defender.
O exército e os seus círculos dirigentes são considerados o sector mais corrupto do Estado.
Em nome do combate a esta corrupção — os órgãos de comunicação social têm mencionado fraudes com encomendas e equipamento militar — Xi Jinping reduzira de dez para seis o número de membros da Comissão Militar que se sentavam à sua volta: hoje, resta um!
As consequências repercutem-se em cascata: a purga já está a afectar todos os adstritos aos seis generais demitidos, o que significa centenas ou milhares de oficiais.
As destituições de 23 de Janeiro foram referidas, logo no dia seguinte, no editorial do Diário do Exército Popular de Libertação. O texto afirmava que Jang Youxia e Liu Jenli tinham “desrespeitado e sabotado gravemente o sistema de prestação de contas do Presidente da Comissão Militar Central“, ou seja, Xi Jinping.
Esta crise dentro do aparelho burocrático é indissociável da situação totalmente imprevisível ligada à subida de Trump ao poder em Washington. Esta põe na ordem do dia a possibilidade de uma guerra global, por isso colocando a seguinte questão à direcção chinesa: que atitude adoptar perante uma agressão directa?
Embora por causa da trégua na guerra comercial no final de Outubro, a China possa já não parecer ser o alvo imediato do imperialismo americano, Washington e Wall Street não desistiram de pôr a pata sobre uma economia planeada demasiado fechada para o gosto do capital. Quem sabe o que aconteceria numa situação de agressão imperialista contra a China? Quem sabe que fracção do aparelho estaria disposta a assinar um acordo directo com o imperialismo?
Isto num contexto em que, apesar de ilegais, nunca deixou de haver greves operárias. A subida do poderoso proletariado chinês ao palco mundial infunde medo tanto a Pequim como a Washington.