Contestado nas ruas e manchado pelo escândalo Epstein, Trump ainda está longe de se ver livre da resistência da classe trabalhadora nos Estados Unidos. Se bem que tenha beneficiado do apoio do Partido Democrático — que votou a favor do seu orçamento militar — e da inércia das cúpulas da AFL-CIO, nos sindicatos o que se discute é como bloquear Trump e a sua política capitalista.
Com 130 milhões de telespectadores, o Super Bowl — a final do campeonato de futebol americano — é um grande acontecimento. O seu tradicional espetáculo do intervalo era um momento de alto risco para Trump, prevendo-se a actuação do rapper porto-riquenho Bad Bunny, que, duas semanas antes, tinha gritado “Fora o ICE!” na cerimónia dos Grammy, que galardoa artistas e técnicos da indústria musical. Enquanto isso, centenas de milhares de trabalhadores e jovens protestavam pelos Estados Unidos fora contra Trump e os crimes da sua polícia de imigração.
Pressionado pelos organizadores do Super Bowl, Bad Bunny contentou-se em declarar que “juntos, somos a América”, concluindo em espanhol* que “ainda cá estamos”. Foi o suficiente para provocar a fúria de Trump, que acusou o rapper de “afronta à grandeza da América”, acrescentando que “ninguém percebe nada do que este tipo diz”. Mais um comentário racista. Dias antes, Trump tinha publicado uma imagem na sua rede social que retratava o casal Obama como macacos… que teve depois de remover.
Após as poderosas manifestações de 23, 30 e 31 de Janeiro para correr com o ICE das cidades onde semeia o terror, Trump teve de fazer algumas concessões. Anunciou a retirada de 700 agentes federais dos 3 mil destacados para Minneapolis. Não entanto, na cidade, a imprensa observava como “a raiva dos habitantes aumenta. (…) Na quinta-feira (6 de Fevereiro), chegaram a ocorrer confrontos entre os habitantes e agentes mascarados e fortemente armados” (Euronews, 6 de Fevereiro).
“O ICE já nem sequer anda especificamente atrás dos trabalhadores indocumentados”, como referiu David Stiggers, presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes Colectivos do Minnesota (ATU Local 1005). Acrescentando que “a política de Trump não tem como alvo a imigração em si. O seu objectivo é dividir-nos, desviar a atenção do escândalo Epstein e de tudo o mais”. “Tudo o mais” refere-se, em particular, ao emprego. O número de empregos perdidos em Janeiro, 108.435, bateu o recorde de 2009 (no auge da crise financeira) do maior número de despedimentos num só mês de Janeiro! Em um ano de presidência de Trump, o número de postos de trabalhos eliminados disparou 118%.
Seja para defender os trabalhadores imigrantes, seja o emprego, está em causa a responsabilidade dos sindicatos em ganhar as reivindicações.
Contudo, do lado da direcção nacional da AFL-CIO — que federa sessenta e quatro sindicatos que representam treze milhões de membros — nada… Enquanto isso, a direcção da AFL-CIO do estado do Minnesota aconselha os trabalhadores e os sindicalistas a falarem com os seus representantes… a porem-se, por conseguinte, na dependência do Partido Democrático.
Como representantes da “ala esquerda” deste partido, os Socialistas Democráticos da América (DSA) anunciaram triunfalmente contarem cem mil militantes. Mas para quê? No dia 22 de Janeiro, quase todos os representantes democratas votaram a favor do orçamento militar de 828 mil milhões de dólares, mas não houve nenhuma declaração dos DSA a condenar tal apoio desavergonhado a Trump!
Apesar disso, são milhares os sindicalistas que acreditam que, para obrigar Trump a recuar, “é necessária uma greve geral”.
Nelly Mary
* O espanhol é a língua de 42 a 57 milhões dos 343 milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos.