A 11 de Fevereiro, o jornalista Qassam Muaddi, correspondente na Palestina para o orgão de comunicação Mondoweiss, escreveu sobre as medidas tomadas a 8 de Fevereiro pelo gabinete de Netanyahu: “Israel acaba de apagar legalmente a existência palestiniana na Cisjordânia, e isto não é um exagero“.
Ao mesmo tempo, em Gaza, dois milhões de sobreviventes são levados para um campo de concentração. E tudo isto conta com a cumplicidade das grandes potências.
Defendendo uma solução democrática na Palestina alertamos os nossos leitores — trabalhadores, activistas, jovens e todas as organizações que afirmam defender a democracia e os direitos dos povos. A questão que se coloca agora é: será que o povo palestiniano ainda tem o direito de existir?
“Israel acaba de apagar legalmente a existência palestiniana na Cisjordânia, e isto não é um exagero”, escreve Qassam Muaddi (Mondoweiss, 11 de Fevereiro).
E explica: “O gabinete de segurança do governo israelita tomou uma série de decisões no domingo (8 de Fevereiro) que alteraram o status quo legal na Cisjordânia, reduzindo significativamente a já limitada autoridade do organismo autónomo conhecido como Autoridade Palestiniana (AP). Isto marca o início concreto de uma anexação formal da Cisjordânia, começando por áreas específicas.
Se o projecto de lei for aprovado, Israel terá o poder de impor as suas leis em áreas da Cisjordânia que ainda estavam sob controlo palestiniano, incluindo leis que regem os alvarás de construção. Este projeto de lei, inicialmente apresentado em 2023 e conhecido como “Lei das Antiguidades”, diz respeito a dezenas de sítios históricos palestinianos na Cisjordânia. Além disso, o gabinete israelita decidiu no domingo permitir que os israelitas comprem imóveis nestas áreas, abrindo caminho para futuros colonatos israelitas nos centros populacionais palestinianos. (…) O Conselho de Assentamentos israelita descreveu esta medida como “a mais significativa desde 1967”(1), pois consagra a anexação da Cisjordânia por Israel como um facto jurídico. Esta decisão reduz a Autoridade Palestiniana a uma mera colecção de órgãos municipais ligados a uma administração central, privando-a dos poderes limitados que anteriormente detinha nas Áreas A e B(2). Isto significa que Israel excluiu oficialmente do seu quadro legal qualquer existência colectiva de palestinianos na Cisjordânia, quer administrativa, quer política. Juridicamente falando, certas zonas da Cisjordânia povoadas por palestinianos podem agora ser consideradas parte integrante de Israel. Na segunda-feira, o ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich(3), gabou-se de ter redigido pessoalmente as decisões aprovadas pelo governo.
(1) 1967: Ocupação da Cisjordânia pelo exército israelita.
(2) Áreas que representam 18% e 22% do território da Cisjordânia, onde a Autoridade Palestiniana tinha um controlo parcial, estando os restantes 60% sob controlo civil e militar israelita, de acordo com os Acordos de Oslo.
(3) Enquanto Ministro das Finanças e dos Assentamentos, descreveu-se, em Fevereiro de 2023, como um “fascista”.
Testemunho
“Uma Campanha Violenta de Expulsão”
Do site de investigação americano Drop Site News (7 de Outubro)
“Num período de quatro anos, Fidda Mohammad Naasan, de 50 anos, e a sua família foram violentamente desenraizados das suas casas e terras na Cisjordânia ocupada, não uma, mas duas vezes. Agora, tendo sido realocados pela segunda vez, continuam a sofrer ataques diários e abusos implacáveis nas mãos de colonos e soldados israelitas determinados a expulsá-los das suas terras mais uma vez.
O último grande ataque contra a família de Naasan ocorreu a 7 de dezembro. Os israelitas invadiram a atual casa de Naasan na zona de al-Khalayel, nos arredores da aldeia de al-Mghayyer, na região central da Cisjordânia.” “Estava a dormir no meu quarto com o meu neto de 13 anos ao meu lado. À 1h30 da manhã, um grupo de cinco colonos mascarados, armados com canos, invadiu o meu quarto. Bateram-me na testa até eu perder os sentidos”, disse Naasan ao Drop Site News. (…) Naasan e a sua família viviam nas suas terras ancestrais na região de Wadi Daliyeh, a sul da aldeia de Fasayil, no Vale do Jordão central. Com uma nascente e extensas pastagens, a área é ideal para os beduínos palestinianos que dependem da criação de gado para o seu sustento. Mais tarde, foram expulsos das suas terras por colonos e realocados numa área perto da aldeia de Turmusayya, na Cisjordânia central, onde passaram os dois anos seguintes. Pouco antes do início do genocídio israelita em Gaza, em outubro de 2023, um colono matou quinze das suas ovelhas atropelando-as com o seu moto-quatro, obrigando a família a fugir mais uma vez. (…) A história da família Naasan é emblemática de uma campanha de transferências forçadas levada a cabo pelo Estado israelita a um ritmo sem precedentes na Cisjordânia. expulsão em massa.