Apesar da greve massiva de 19 de Fevereiro, a Câmara de Deputados aprovou a lei contra-reformista de Milei em matéria laboral. O presidente, de extrema-direita, saudou — de Washington, onde participava no “Conselho da Paz” em casa de mestre Trump — a aprovação desta lei “destinada a pôr fim a mais de setenta anos de atraso nas relações laborais dos argentinos”.
É, de facto, o que está em causa: desmantelar mais de cem anos de conquistas obtidas pela luta de classes. A lei facilita os despedimentos, reduz as indemnizações por despedimento e legaliza o alargamento da jornada de trabalho até doze horas. Instaura a remuneração ao mérito e alarga os serviços declarados “essenciais”, em que o direito à greve fica limitado. Não surpreendeu ninguém que, no dia da votação, o Fundo Monetário Internacional (FMI) saudasse o “esforço de aprofundamento das reformas estruturais na Argentina“.
Provocação final: poucos dias antes, fora anunciado o encerramento abrupto da fábrica de pneus Fate, nos arredores de Buenos Aires, atirando 900 trabalhadores para o desemprego. Os despedimentos e a liquidação de uma fábrica com oitenta anos de história eram, em concentrado, o que a lei “esclavagista” representa. Com o seu sindicato, SUTNA, os trabalhadores ocuparam a fábrica.
A 19 de Fevereiro, a classe trabalhadora respondeu em massa à convocação de uma greve nacional de 24 horas, lançada pelos dirigentes das principais centrais sindicais, a CGT e as duas Confederações de Trabalhadores da Argentina (CTA). Transportes, portos e indústria ficaram paralisados pela greve.
Nos dias anteriores, os dirigentes da muito poderosa Confederação Geral do Trabalho (CGT) tinham-se multiplicado em declarações de denúncia de uma lei de “precarização“, um diploma “regressivo e inconstitucional“. Contudo, o aparelho da CGT, ligado ao peronismo*, embora forçado a convocar a greve, bem se livrou de convocar manifestações no Parlamento, por receio de pôr em marcha uma força que não conseguisse controlar.
Tal não impediu que sindicatos e organizações políticas marchassem em cortejo para o Congresso. Manifestações de novo reprimidas: ao anoitecer, polícias motorizados, canhões de água e polícia federal atacaram os manifestantes e efectuaram detenções.
Néstor Pitrola, deputado do Partido Obrero, comentou durante a manifestação: “A CGT, quando mobiliza para a rua, não convoca a greve e, quando convoca a greve, não mobiliza para a rua. Do que nós precisamos é de um apelo à greve geral para que milhões de trabalhadores venham para a rua pôr fim a este desastre, de que a fábrica da Fate é hoje o exemplo, pôr fim à reforma esclavagista e a este regime de fome, repressão e opressão de Milei.”
Correspondência da Argentina
* Movimento político nacionalista burguês cuja referência é o General Juan Perón, presidente da Argentina de 1946 a 1955 e novamente em 1973-1974.