Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

Militantes russos escrevem ao jornal francês "La Tribune des travailleurs" no dia do quarto aniversário da guerra

Começou há quatro anos a “Operação Militar Especial” (SVO): a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Para o Governo russo, era para ser uma “pequena guerrita vitoriosa“, uma “blitzkrieg” que em pouco tempo daria “resultados excepcionais“.

Entramos no quinto ano de lei marcial. Não obstante, os dirigentes russos continuam a afirmar que a guerra é uma bênção, que puxa a economia para êxitos sem precedentes. Será verdade? Tentemos perceber.

Olhemos para os números. Primeiro número: 1.461 dias. O tempo que a guerra já dura. Para comparação: a Grande Guerra Patriótica (1941-1945), a mais terrível para o nosso povo, durou 1.418 dias. Sobrevivemos; mas, nessa altura, o povo sabia que estava a defender as conquistas do sistema socialista contra os invasores fascistas. Hoje, em nome de que interesses são os soldados mandados para a frente de batalha?

Outro número: 1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025 (mortos, feridos e desaparecidos). As baixas combinadas de ambos os lados aproximam-se de 2 milhões. Mais do que em qualquer outra guerra, desde a Segunda Guerra Mundial. Por trás de cada número há um trabalhador, um irmão nosso enviado para o matadouro pelos dois lados.

Quem lucra com esta carnificina? Terceiro número: 146. O número de milionários com mais de mil milhões de dólares que a Rússia tinha em 2025. Número que, durante a guerra, subiu de 125 para 146. A sua riqueza combinada atingiu o valor recorde de 625.500 milhões de dólares.

Quarto número: 90%. Menos de 1% da população russa é detentora de mais de 90% dos depósitos bancários.

Não contente em lucrar com a guerra, o capital concentra-se mais do que nunca nas mãos de um punhado de oligarcas. Quanto ao comércio da Rússia com a Europa: não parou. O petróleo e o gás fluem, desde que sejam pagos. Não é um “choque de civilizações“, como afirma a televisão. É uma guerra imperialista clássica, por mercados e por lucros.

Para silenciar a população enquanto a espolia e sacrifica, o governo cria um sistema de controlo total sobre a internet.

Segundo o site OVD-Info, de 24 de Fevereiro de 2022 a 17 de Fevereiro de 2025, 20.081 pessoas foram detidas por manifestarem a sua oposição ao conflito. Censura total e inaceitável.

A saúde? O Estado capitalista advoga a “optimização” dos serviços públicos. Em vez de nos tratar, o Estado aconselha-nos a “praticar desporto em vez de ir ao médico“. Não é uma piada, é a realidade nua e crua. As consequências desta “optimização” são dramáticas: a prevalência do sarampo aumentou onze vezes, a da rubéola seis vezes, a da tosse convulsa 4,5 vezes e a da papeira 3,5 vezes.

Metade dos doentes afectados por doenças raras foram obrigados a interromper o tratamento em 2024 por falta de subsídios estatais para medicamentos. Em Kaliningrado, tenta-se privatizar os serviços de emergência: as chamadas vão passar a ser cobradas. Diz-se com todas as letras à classe trabalhadora: não precisamos de vocês, vão-se lixar. Um trabalhador que se atreva a protestar fica sujeito à lei que pune “ofensas à reputação do exército“. Criticar a carestia ou exigir salários dignos é considerado “ofensa à reputação do exército“, com o consequente cortejo de processos judiciais, penas de prisão e revistas.

A guerra pôs duas Rússias uma contra a outra. A primeira — menos de 1% da população — tudo possui. A outra, que trabalha e combate na linha da frente, endividada e pobre. Quinto número: 50 milhões. É o número de russos fortemente endividados, 40% da população solvente.

A propaganda oficial alardeia que “a taxa de desemprego está historicamente baixa“. Enquanto isso, os trabalhadores das fábricas de armamento matam-se a trabalhar, em três turnos, e vêem os salários comidos pela inflação. Mais: quando acabar a economia de guerra, estes trabalhadores vão parar à rua; esperam-se despedimentos em massa.

A campanha anti-imigração lançada nos últimos anos prejudica igualmente os interesses dos trabalhadores. O governo, que se atreve a intitular-se “antifascista”, organiza rusgas policiais de mãos dadas com grupos de extrema-direita como a Russkaïa Obchtchina (Comunidade Russa) e a Severny Chelovek (Homem do Norte). Em algumas regiões, os imigrantes estão proibidos de trabalhar ou de receber tratamento médico, e os filhos, impedidos de frequentar a escola. Países da Ásia Central, como o Quirguistão, têm protestado. Os sentimentos nacionalistas estão a ganhar terreno, minando a solidariedade internacional do proletariado.

Há um ano, nós, comunistas, avisámos que as negociações não passam de uma forma alternativa da competição imperialista. Assim acontece. Com Trump, os Estados Unidos mudaram de discurso, não por que desejem a paz, mas para atrair a Rússia para o seu lado e desviá-la da China. Apesar das fanfarronadas do Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, as armas russas vendem-se cada vez menos.

Lenin demonstrou que os trabalhadores só conseguem dos seus exploradores condições melhores se as conquistarem pela sua própria luta. A greve na fábrica Morozov, em 1885, obrigara os patrões a fazerem concessões graças à acção colectiva e consciente dos trabalhadores.

A lição mantém a sua relevância. Enquanto permitirmos que os capitalistas nos dividam por nacionalidade, enquanto confiarmos na televisão e enquanto temermos ser processados ​​por “ofensa à reputação do exército“, eles continuarão a enviar-nos para o matadouro para exclusivo lucro dos oligarcas.

Os números apresentados revelam a verdadeira face da guerra imperialista. Só a união pelos nossos interesses de classe e contra o nosso inimigo comum — o capital e o Estado — lhe poderá pôr termo.

Abaixo a guerra imperialista! Viva a luta consciente da classe trabalhadora! Pela revolução socialista!

Algures na Rússia, 20 de Fevereiro de 2026.

Abaixo o social-chauvinismo!

Quatro anos de votações a favor da guerra no Parlamento Europeu

Quatro anos de guerra, dois milhões de ucranianos e russos mortos e feridos. Centenas de milhares de milhões de rublos, dólares e euros enfiados em orçamentos militares cada vez mais inchados pelos oligarcas russos, pela NATO, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Lucros recorde para a indústria do armamento. Um acordo para saquear o sub-solo da Ucrânia em proveito dos Estados Unidos. Tudo isto “graças” ao sacrifício de centenas de milhares de jovens e trabalhadores enviados para o matadouro por Putin e Zelensky.

É este o balanço da guerra “deles”. Uma guerra imperialista de parte a parte, como desde 2022 temos denunciado (ver aqui). “O capitalismo carrega a guerra como a nuvem carrega a tempestade” (Jean Jaurès) “Nem Putin, nem NATO, nem Biden! Retirada das tropas russas da Ucrânia! Dissolução da NATO!” dissemos então.

Porém, nos últimos quatro anos, à “esquerda” domina aquilo a que Lenin, em 1914, chamou o “social-chauvinismo”. “Socialistas” em palavras, chauvinistas nos actos, apoiando as políticas dos seus próprios governos fautores de guerra. Nos últimos quatro anos, no Parlamento Europeu, os eurodeputados “socialistas” e da “esquerda” europeia (incluindo quase sempre o Bloco de Esquerda) têm votado a favor da guerra e do armamento da Ucrânia.

Quatro anos depois acabam de votar a favor de um empréstimo de 90 mil milhões de euros ao governo de Zelensky, dos quais 60 mil milhões serão absorvidos pelo orçamento de guerra. Explicando o seu voto, Manon Aubry da LFI (França) declarou: “O princípio da preferência europeia (…) permitir-nos-á priorizar a solicitação de equipamento militar a empresas europeias. (…) Votei, por isso, a favor desta proposta de cooperação reforçada” (página do Parlamento Europeu, 21 de janeiro de 2026).

Defender os lucros das “suas” empresas de armamento, os interesses do “seu” governo imperialista, enquanto fazem discursos pela paz… tal é a face do social-chauvinismo*!

Pela nossa parte, continuaremos a abrir as nossas colunas aos militantes operários, aos desertores ucranianos e russos, porque, tal como eles, nós sabemos que o principal inimigo dos trabalhadores é o seu próprio governo.

Adaptado de Dominique Ferré, La Tribune des travailleurs nº 529