Editorial do nº44 d’O Trabalho

Exasperado com a inoperância do governo, o Homem anunciou à imprensa da nação: não podemos continuar a marcar Passos! À Coelho, saltemos!

O espectáculo que Passos já não suporta: então a burguesia, a direita, tem uma maioria constitucional, pela primeira vez desde há cinquenta anos; então Trump varre o mundo a ferro e fogo; querem melhor ocasião para acabar definitivamente com o legado da revolução portuguesa, para emascular sindicatos e greves, para privatizar com abandono ensino, saúde e tudo o mais!? E enquanto isso, Montenegro, Ventura e IL só se afundam em casos, tricas e crises?! E deixam o tipo do PS ganhar a presidência?! Não conseguem sair da cepa torta!?

Para Passos Coelho, a prova do algodão é o pacote laboral — e compreende-se porquê. Proferiu, mal ressurrecto: ou o governo passa o pacote, ou (para parafrasear Montenegro) não consegue, infelizmente, evitar a morte.

Se assim for, resta-nos o Passos retornado. O salvador que porá o país nos eixos, alinhando à sua ilharga direita, qual perdigueiro amestrado, Ventura, e aos seu pés, qual trombeta afinada, a IL.

Enquanto decorrem estas manobras do capital nacional arrimado às cavalitas de Trump e dos seus tapetes europeus, o obstáculo que os detém e atrapalha é a classe trabalhadora organizada.

E esta mostrou, no passado mês de Dezembro, que pode resistir e contra-atacar. Para isso, precisa, sobretudo, de uma condição: a unidade.

A poderosa greve geral de 11 de Dezembro, convocada pelas duas centrais sindicais, e a grande manifestação nacional que a acompanhou puseram à vista de todos esta verdade simples: basta um sinal, mínimo que seja, de que os dirigentes não nos vão dividir e enfraquecer, para os trabalhadores e a juventude se animarem a entrar em luta e sair à rua em massa, confiantes no imenso poder do seu número.

Porém, a unidade não é a especialidade das direcções sindicais, da CGTP como da UGT. Preferem-lhe os queixumes sobre a “desmobilização” e “desmoralização” das massas.

Desde o dia 11 de Dezembro, voltaram o silêncio e a divisão nas cúpulas.

A UGT reafirmou a sua disposição em negociar com o governo — fazendo por esquecer que dissera, e bem, que negociar só depois de retirado o pacote.

A CGTP denunciou a UGT por negociar — embora lamentando que o governo a deixasse de fora das negociações! E convocou as manifestações de 28 de Janeiro como sempre: só ela. A luta pela unidade e contra o sectarismo e o divisionismo que desenrolam o tapete à derrota mantém-se, do lado dos trabalhadores, como o grande desafio, depois de, na greve geral, terem provado o doce sabor da sua verdadeira força.

Entretanto, no Irão, as manobras são de Donald Trump, o homem que, segundo Donald Trump, é o artista do deal: tudo se resolve com um toma-lá-dá-cá (que é um dá-cá-dá-cá). Trump oferece ao mundo, nas imorredoiras palavras do padrinho Corleone, o deal definitivo “que o mundo não pode recusar”: submeter-se; ou morrer.

Do fino verniz do putativo “direito internacional”, da chatice de enviar um ministro apresentar à ONU slides laboriosamente fabricados de “armas de destruição maciça”, não ficam nem os vapores de aguarrás.

Semanas depois de raptar o presidente Maduro da Venezuela e intimar a vice-presidente à submissão, Trump mandou assassinar o chefe político e religioso da teocracia iraniana, Khamenei, e pôr o Irão a ferro e fogo por insuficiente submissão. Enquanto isso, anunciava que faria um “deal” com algum aiatolá disposto a submeter-se-lhe. Se a alguém passou pela cabeça que estivesse em causa a “libertação” do povo iraniano, que se tem revoltado vezes sem conta contra a ditadura teocrática, fique sabendo…

Enquanto vai apertando o cerco ao país, a China, que está no fulcro da mira da “estratégia de segurança nacional” americana, o imperialismo vai devastando os países tidos como “aliados” da China e espalhando o caos pelo mundo, que sátrapas e xerifes seus ficam a administrar, o primeiro de todos, Netanyahu.

O preço da insubmissão à vontade da administração mafio-nazi do imperialismo apodrecido já não é só que o país infractor fica sujeito à guerra; é a imediata eliminação física dos dirigentes “insubmissos”, para os outros ficarem a saber.

Internamente aos EUA, o método é o mesmo. A milícia mascarada de Trump, o ICE, mata a sangue frio, impune, cidadãos que se opõem às rusgas contra os imigrantes.

O efeito procurado é a intimidação universal pelo terror. Submetes-te, ou morres.

 A dupla Trump-Netanyahu inaugurou a era do terrorismo de Estado.

Os chefes de Portugal nada têm a recear. Trump usou as Lajes para a sua guerra sem dar cavaco a Montenegro, que, sem saber ler nem escrever, declarou guerra ao Irão e tornou Portugal alvo legítimo de retaliação. Não deu cavaco ao povo nem às “instituições”. Quando algo se soube, mandou o Rangel sibilar mentiras pueris para as TVs.

É cada vez mais pungente o fedor da putrefacção do capitalismo mundial, deste regime da exploração assente na propriedade privada dos meios de produção, na guerra e na destruição da humanidade.

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