Mais de 15% da população libanesa expulsa das suas casas; em Teerão, 9 milhões de habitantes sufocam com os gases tóxicos das refinarias bombardeadas. A barbárie da guerra imperialista de Trump e Netanyahu, que tem a cumplicidade dos dirigentes de todos os países da UE, tem de acabar. Só os trabalhadores e os povos do mundo podem, pela sua mobilização independente, acabar com ela!

Balanço provisório da agressão israelita no Líbano: mais de mil mortos e um milhão de libaneses expulsos de casa. Como se, em Portugal, quase 2 milhões de habitantes ficassem de repente reduzidos a deambular pelas estradas do exílio! A 16 de Março, o Ministro da Defesa israelita anunciou ter o seu exército lançado “uma operação terrestre” para “eliminar a ameaça terrorista, como em Gaza“. “Como em Gaza“: os trabalhadores do mundo sabem o que isto significa!

E no Irão? Os ataques israelitas contra refinarias, no dia 8 de Março, mergulharam os nove milhões de habitantes de Teerão no horror, escreveu o jornal libanês L’Orient-Le Jour (8 de Março): cenas “apocalípticas“, “um denso fumo negro (…) mergulhou a capital iraniana numa noite tóxica“. Para Le Monde (11 de Março), “o bombardeamento das infra-estruturas civis visa pôr o país de rastos“. O “país” refere-se aos 93 milhões de habitantes — trabalhadores, mulheres, jovens — que os dois criminosos, Trump e Netanyahu, alegaram ter ido “salvar” no início da agressão.

Após o genocídio em Gaza, o terror e a barbárie no Líbano e no Irão confirmam que Trump, Netanyahu e o imperialismo que representam são os inimigos da humanidade inteira.

Mas nem Trump escapa às leis do sistema capitalista.

Por um lado, a sua guerra suja entusiasma a indústria do armamento e não só: “Se as populações de todo o mundo enfrentarem em breve uma nova crise do custo de vida (…), nem por isso os lucros da subida dos preços da energia se evaporarão: vão parar, principalmente, aos bolsos de quem já é rico” (Le Grand Continent, 15 de Março).

Por outro lado, porém, o bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde circula um quarto do petróleo mundial — está a provocar uma tempestade nos “mercados financeiros”, ameaçando a economia global e, por conseguinte, as margens de lucro doutro segmento da classe capitalista. Trump tenta sossegá-los a todos: “A guerra está praticamente terminada, bem, quase”, anunciou a 9 de Março, tentando puxar pelos preços das acções em Wall Street… Exige que a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a NATO e até a China vão fazer o trabalho sujo para “segurar” o Estreito de Ormuz… Os comentadores concordam num ponto: enquanto os objectivos de guerra de Israel são claros (eliminar qualquer obstáculo à sua expansão territorial), os de Trump são completamente incompreensíveis. Tanto assim, que o poderoso empresário David Sacks (que Trump nomeou “czar da inteligência artificial e das criptomoedas”) denuncia uma “facção interna” dentro do governo norte-americano que estará a empurrar para a escalada. Acusa também Israel de “contemplar o uso de uma arma nuclear, o que seria verdadeiramente catastrófico”. Dirigindo-se a Trump, acrescenta que “agora é o momento de declarar vitória e retirar”.

“Conselhos” destes não vão chegar para Trump pôr fim à guerra. Vai ser necessária a mobilização unida dos trabalhadores para derrotar os governos fautores de guerra e correr com eles.

“Regressar ao sistema da ONU”?

Dirigentes políticos de esquerda e personalidades proeminentes* lançaram um apelo: “A paz é agora”. Denunciam, com razão, que a guerra contra o Irão é uma oportunidade “para os Estados Unidos, bem como para Israel, imporem a sua dominação pela força” e que ela “põe o mundo inteiro em grande perigo”. Condenam “o genocídio em Gaza, (…) o rapto do presidente venezuelano e o endurecimento do cerco a Cuba” e comprometem-se a “coordenar acções de resistência à lógica da guerra”, objectivo que os trabalhadores e os jovens de todo o mundo, preocupados com a ameaça de uma guerra generalizada, só podem aprovar.

Mas como? É aí que a porca torce o rabo. O apelo, intitulado “Apelo pela Paz, pela ONU e pelo Direito Internacional”, propõe “regressar ao sistema da ONU”. Indigna-se por “o direito internacional ser espezinhado, a ONU desprezada. Ambos foram criados para evitar escaladas para a guerra total. São, para a humanidade, um bem comum a proteger e desenvolver”.

Criados para prevenir guerras, a ONU e o “direito internacional”? Por palavras, talvez. Mas, na prática real, têm sido e continuam a ser o quadro em que as grandes potências impõem a sua vontade aos povos, se for preciso pela violência. Não foi a Resolução 181 da ONU (de 29 de Novembro de 1947) que impôs a partilha da Palestina, fruto de um acordo entre o imperialismo americano e Stalin? A mesma ONU que, a 20 de Novembro de 2025, aprovou o sinistro “plano de paz de Trump” para Gaza? E as tropas da ONU que são, há trinta anos, cúmplices dos massacres na República Democrática do Congo? E a ocupação do Haiti pela MINUSTAH, que mergulhou o povo haitiano no caos?

A paz não virá nem da ONU nem do “direito internacional” das grandes potências. Será imposta pelos trabalhadores de todos os países, unidos para derrubar os governos fautores de guerra e o sistema capitalista decadente.

* Entre eles: Yolanda Díaz (Vice-Presidente do Governo Espanhol); Ione Belarra, Podemos; Zarah Sultana, Your Party (Grã-Bretanha); Jean-Luc Mélenchon, etc.

Dezenas de milhares de milhões de dólares por água abaixo

O New York Times estima que, desde 28 de Fevereiro, cada dia de guerra tenha custado “bem acima de mil milhões de dólares”. Provavelmente mais, já que o Congresso dos Estados Unidos fala em 11 mil e trezentos milhões de dólares (9,85 mil milhões de euros) para a primeira semana de guerra.

E cuidado: este valor nem contempla as bombas israelitas, também “fabricadas nos EUA” e financiadas pelo contribuinte americano!

O Congresso dos EUA já está a preparar os “financiamentos adicionais” necessários para aumentar o orçamento militar recorde que Trump mandou aprovar, com o apoio da maioria dos membros democratas do Congresso*.

O destacamento do porta-aviões Charles de Gaulle por Macron custa à França um milhão de euros por dia… “para proteger o espaço aéreo de países com os quais a França assinou acordos de defesa, como o Qatar, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos” (Le Monde, 10 de Março). Também para garantir os lucros da Dassault, Thales, Raytheon e Lockheed Martin!

Na Europa, como em Washington: nem um tostão, nem uma arma, nem um homem para a sua guerra suja! Confisquem-se os milhares de milhões dos orçamentos militares para salários, escolas e hospitais!

* Sem provocar a mínima crítica dos “Socialistas Democráticos da América”, a ala “esquerda” do Partido Democrata.