Governo de extrema-direita de Meloni derrotado em referendo

Nos dias 22 e 23 de Março, a população italiana infligiu um duro golpe ao governo de Meloni ao rejeitar, por 54 % de votos contra, a sua «reforma» da Constituição, que modificaria a organização do poder judicial. 60% dos eleitores compareceram às urnas, quando a taxa de participação nos referendos dos últimos anos mal atingiu 30%, tendo também ficado abaixo de 50% em todas as mais recentes eleições nacionais, europeias, regionais e municipais.

Porquê esta participação significativa e totalmente inesperada? Os trabalhadores, os jovens – que se dirigiram em massa às urnas –, a população quiseram infligir uma derrota ao governo Meloni, a sua primeira verdadeira derrota, servindo-se do referendo que lhes era posto à disposição para dizer não a toda a sua política.

Se bem que este referendo visasse aprovar ou rejeitar uma «reforma» da justiça pela qual o governo pretendia pôr a procuradoria sob controlo, os mecanismos da «reforma» eram difíceis de compreender para a grande maioria. Toda a gente esperava, por conseguinte, uma participação muito baixa.

No entanto, a população compreendeu a ligação entre esta lei e todos os outros projectos do governo, bem como com a política de guerra «interna» e «externa» conduzida há quatro anos pelo governo de extrema-direita chefiado por Meloni. A população compreendeu que estavam em jogo os elementos de democracia ainda presentes na Constituição, conquanto limitados e atacados, face a um governo que ataca a liberdade de expressão, de organização, de manifestação, a liberdade de ensino nas escolas…

Nas grandes cidades, o «não» ultrapassou em muitos casos 60%, chegando a atingir 74% em Nápoles. Já ninguém pode dizer que «a Itália vai para a direita». A questão que, mais uma vez, se põe é, sim, a da política das organizações de trabalhadores. O Comité Nacional pelo NÃO à autonomia diferenciada afirmou em comunicado que: «a vitória do NÃO reflecte uma grande disponibilidade e vontade de mobilização (…). Os dirigentes das grandes organizações de trabalhadores deste país têm a responsabilidade de reunir imediatamente esta força, de a mobilizar para levar às ruas o NÃO que se manifestou na votação, pela suspensão imediata da autonomia diferenciada, pela recusa de qualquer envolvimento da Itália na guerra, pela retirada do projecto de contra-reforma da saúde e da escola.»