8 milhões de manifestantes dizem não à guerra!


“Esta estúpida de guerra que ninguém quer”

Ainda não faz dois meses que os habitantes de Minneapolis se levantaram contra a polícia da imigração de Trump. Desta feita, dia 28 de Março, eram 200 mil frente ao Capitólio do Minnesota, na mesma cidade.

Está imensa gente”, diz o estudante liceal Marcus. “Eu vim porque não podemos aceitar esta situação, isto tem de acabar. Vai ser preciso mais para conseguir parar Trump, mas o que estamos a fazer, reunir-nos aqui todos para fazer ouvir as nossas vozes, é muito importante.”“O que tem acontecido nos últimos tempos, a ocupação da nossa cidade pelo ICE, a guerra no Médio Oriente, foi o que convenceu muita gente a participar”, salienta um professor. Sarah, trabalhadora na área da saúde, refere que “há uma ligação entre a guerra, a política do ICE e o que se passa com o nosso sistema de saúde. Deveríamos ter um sistema de saúde gratuito, mas estamos a afastar-nos cada vez mais disso!” Muitos exibem cartazes contra as rusgas aos imigrantes. Chris, um professor de adultos: “Aqui, em Saint Paul, 70% dos meus alunos são imigrantes, ou mesmo refugiados. Muitos dos meus alunos deixaram de vir às aulas por preferirem ficar em casa para se manterem em segurança. O ICE não parou de realizar detenções, prendem pessoas sem motivo e sem mandado para o fazer.” Olivia veio à manifestação por querer “justiça para os (seus) alunos”: “Eu ensino inglês a imigrantes, o terror que eles sofreram é desumano.

A luta contra a guerra esteve no centro das mobilizações: “Estamos aqui para mostrar ao resto do mundo que estas atrocidades cometidas em nosso nome não são o que nós defendemos”, explica Jack na manifestação de Minneapolis. A rejeição da guerra reflecte-se nas palavras de ordem dos cartazes: “Não à guerra!”, “Tirem as mãos do Irão!”, “Fim ao genocídio!”, “Não à guerra por Israel!”. “Fico aterrorizada com o caminho por que estamos a seguir: guerra, ataques aos imigrantes, os supremacistas brancos…”, refere Nancy, de Nova Iorque, sindicalizada na SEIU. Opinião partilhada, do outro lado do país, por um jovem manifestante em San José (Califórnia): “Vejam só o estado da nossa economia! Inflação, os preços da gasolina e dos alimentos a disparar, o desemprego a alastrar… Todo o nosso dinheiro vai para esta guerra estúpida que ninguém quer!” Ao lado dele, uma mãe explica que veio à manifestação “para construir o mundo em que (ela quer que) a filha possa viver”. Uma militante de uma organização de defesa do clima de San José relata: “Sou militante há já algum tempo, mas não é a fazer pressão e votar que lá chegamos.” De oeste a leste, a exigência que une os manifestantes é “Trump rua, já!” Em São Francisco, moradores reuniram-se na praia para formar uma corrente humana a compor a palavra de ordem “Trump must go now! No ICE, no wars, no lies, no kings” (Trump, rua, já! Não ao ICE; não às guerras; não às mentiras; reis, não): “Éramos precisos cinco mil ao todo para conseguirmos formar a palavra de ordem. O ambiente era de revolta, mas alegre, cantávamos juntos hinos antiguerra.” Para Chris, o professor de Minneapolis, “temos mesmo que pôr Trump na rua, mas também é preciso desmantelar todo o sistema à volta dele”.


“A questão não é ‘esquerda contra direita’;
é ‘os de baixo contra os de cima’”

O MOVIMENTO SINDICAL NAS MANIFESTAÇÕES

Foi a primeira vez que as organizações operárias apelaram à participação nas manifestações “No Kings”. Participaram nelas vários cortejos sindicais. Conta Molly Diers, a presidente do sindicato dos trabalhadores da indústria do espectáculo de Minneapolis: “Passámos várias horas de sexta-feira à noite a preparar o nosso cortejo no meu sindicato. Encontrámo-nos com colegas de manhã, antes de nos juntarmos aos outros sindicatos e marcharmos todos juntos até ao comício.” Muitos cortejos de enfermeiras ligavam o defender o sistema de saúde com a (luta contra a) guerra. O sindicato de enfermeiras National Nurses United referiu no final do dia: “Da costa oeste à costa leste, as enfermeiras juntaram-se aos milhões presentes nas manifestações No Kings, rejeitando a política destrutiva de Trump e reivindicando poder viver numa sociedade que defenda o direito aos cuidados de saúde: abolição do ICE, fim da guerra de Trump no Irão, financiamento do sistema de saúde! Tão simples como isto.” Para o sindicato dos maquinistas (IAM), a questão não é “‘esquerda contra direita’, é ‘os de baixo contra os de cima’. (…) O movimento sindical mete a velocidade superior, porque, quando os trabalhadores se organizam, podemos mudar as coisas.


Que perspectiva abrir?

Se, no Sábado, 28 de Março, oito milhões de pessoas vieram para a rua, pelos Estados Unidos fora, exigir Trump para a rua, já, e o fim da guerra, já a posição defendida pelos organizadores das 3.100 manifestações foi de encontro a esta legítima aspiração dos trabalhadores e da juventude americanos, que se recusam a sofrer as desastrosas consequências da política da administração Trump e os atentados desta aos seus direitos e liberdades.

Em discurso aos manifestantes de Minneapolis, a presidente da AFT (American Federation of Teachers), Randi Weingarten, que foi apresentada pela dirigente da principal central sindical americana (a AFL-CIO) Liz Shuler, perguntou:“Estão fartos de mentiras? Estão pelos cabelos com o preço da gasolina? Querem fazer ouvir a vossa voz? Então, hoje: “Reis, não!”; amanhã: liberdade. Hoje: “Reis não!”; amanhã: mudemos o país. Hoje: “Reis não!”; em Novembro, votaremos.

A direcção do movimento sindical americano dirige-se aos milhões de manifestantes como se nada mais houvesse a fazer a não ser esperar pelas eleições intercalares e virar-se para os democratas. Como é que esse outro partido representante dos interesses do capital financeiro dos EUA há-de abrir uma saída favorável aos milhões que saíram para a rua a 28 de Março?!

Ora, idêntico foi o apelo lançado por Bernie Sanders, figura célebre da ala “esquerda” do Partido Democrático, no comício de Minneapolis. Da guerra no Irão disse ele que “quando o povo americano se divide politicamente, esta é uma questão que nos une a todos. Conservadores, moderados e progressistas dizem a uma só voz: Acabem com a guerra!”. Quero-vos dizer o que, como senador, entendo fazer. Para começar, é preciso garantir que o Congresso não vote 200 mil milhões a mais para a guerra.” Ao poderoso movimento de 8 milhões de manifestantes que enchem as ruas responde o “socialista” Sanders: a solução sairá do Congresso americano, da unidade entre eleitos republicanos, democratas e “democratas de esquerda”… Porque se esquece ele de dizer que, há dois meses, os seus colegas do Partido Democrático votaram a favor da lei de Trump que afectou mais de 828 mil milhões de dólares ao orçamento militar? Como um militante negro americano entrevistado pelo jornalista Chuck Modiano na manifestação de Washington observou, o Partido Democrático não dará solução nenhuma aos 8 milhões de participantes nas manifestações de 28 de Março: “‘Reis, não!’ é um símbolo. É assim que a população vê Trump. Mas o que tem estado a acontecer teve início nas administrações anteriores. Gaza e a Ucrânia: tudo começou no tempo de Biden. Trump só vai ainda mais longe. O “recordista da deportação de imigrantes” foi Obama*. Trump acelerou. O que é preciso é que o povo americano se insurja e diga “Não, em nosso nome, não!””.

Artigo elaborado a partir de elementos publicados pelo jornal francês La Tribune des travailleurs e de correspondentes nos EUA: Alan Benjamin (Nova Iorque), Millie Phillips e Mya Shone (Califórnia), Coral Wheeler e Molly Diers (Minnesota), Gus Griffin (Maryland)