A ideia de que a campanha de guerra geral do imperialismo americano, com o seu auxiliar genocida Israel, é mero produto das mentes insanas/dementes/psicopáticas de D. Trump e B. Netanyahu tem-se tornado muito comum. Preocupantemente comum.
Agirá, principalmente Trump, sem qualquer plano e ao sabor de caprichos, birras e reacções narcísicas “irracionais”?
Acoplado a essas ideias lêem-se com frequência declarações triunfalistas sobre a “derrota catastrófica” sofrida pelos americanos no Irão — subentendendo-se: porque não conseguiram os seus objectivos, nem remover o regime nem fazê-lo capitular.
A guerra no Irão tem, todavia, obedecido a um princípio claro e sistemático, que está presente nas estratégias de “segurança” da administração americana para o Médio Oriente — não só com Trump, mas desde já bem antes de Trump: neutralizar toda e qualquer potência ou poder que possa fazer sombra à supremacia militar absoluta de Israel (e, portanto, dos EUA) na região do petróleo e do gás.
Antes do Irão, países como o Iraque, a Líbia, o Líbano, a Síria foram devastados e transformados no que o imperialismo designa, não sem gozo, “failed states”, Estados falhados. Aos demais países da região resta a alternativa de serem dirigidos por homens de mão do imperialismo ou senhores feudais obedientes a Washington.
Nos Estados Unidos, uma das críticas dos adversários democratas de Trump é que ele se meteu na guerra sem objectivos claros, ou com objectivos variáveis de dia para dia, segundo o que fosse passando pela cabeça do presidente. E isso, sendo Trump Trump, não o impedia de ir declarando vitória todos os dias, acontecesse o que acontecesse.
A realidade é: os ataques israelo-americanos decapitaram a cúpula do regime, mas não derrubaram a sua estrutura. Não houve nem podia haver insurreição popular, em condições de bombardeamento constante e de uma ameaça que não se dirigia realmente contra o regime — Trump deixou abundantemente claro que o que lhe interessava não era derrubar o regime, mas que aparecesse alguém do regime que se lhe submetesse, como na Venezuela —, mas contra a nação iraniana, a sua população e economia. Até os sectores da diáspora iraniana pró-imperialista, nos próprios Estados Unidos, se vêem obrigados a virar o leme: do entusiástico inicial apoio à agressão para a rejeição.
A resistência do exército e das milícias iranianas, em condições militares profundamente assimétricas, criou, no mais, uma situação de estrangulamento do abastecimento da economia mundial em matérias-primas fundamentais (não só o petróleo e o gás), engarrafadas no estreito de Ormuz.
Se bem que isso permita às multinacionais petrolíferas fazer lucros fenomenais no curto prazo com a subida explosiva dos preços, e aos especuladores financeiros e grandes açambarcadores tirarem igualmente as castanhas do lume (desde que tenham feito as apostas certas), o efeito de fundo mais importante é uma vaga de inflação e, simultaneamente, de estagnação ou recessão que ameaça toda a economia mundial.
A economia financeira e especulativa está imbricada como nunca mundo fora — tanto como as famosas cadeias de abastecimento da economia física, de que se fala mais. Ora, a teia de interligações que a sustém foi-se tornando cada vez mais opaca, com o ascenso do “crédito privado” e dos vários tipos de fundos, fundos de fundos e fundos de fundos de fundos, muitos deles também “privados” (ou seja, sem obrigações de apresentação pública de contas).
Sabendo os níveis sem precedentes históricos atingidos pelo endividamento público e também pela dívida privada nas grandes potências, principalmente nos EUA, percebe-se como a ignição de uma pequena fagulha sem aparente importância nalguma parte deste sistema possa bastar para provocar um craque económico monumental.
Ao permitir que o Estado sionista fosse o chefe de fila da agressão ao Irão, o imperialismo meteu-se num beco sem saída. O Estado genocida de Israel tem uma estratégia simples e sem alternativa: manter uma guerra latente e permanente — passando a guerra aberta sempre que necessário — contra todos os Estados vizinhos, infligindo-lhes a máxima destruição e a máxima degradação militar e económica, sejam quais forem as consequências económicas ou políticas para o resto do mundo.
Em contrapartida, o imperialismo americano precisa de manter a economia mundial a funcionar, as matérias-primas a fluir livremente e a preços que lhe convenham.
O início de “negociações” oficiais com o Irão a seguir ao cessar-fogo declarado pelas forças americanas, as torrentes de ameaças apocalípticas de Trump, logo seguidas de recuos, são a manifestação do dilema em que se encontra o imperialismo dominante.
É inegável que, além da barbárie perpetrada contra a população civil, os exércitos israelo-americanos têm infligido enormes devastações materiais à infra-estrutura económica e material do Irão, de que o país terá dificuldade em restabelecer-se rapidamente.
Contudo, as incursões americanas são conduzidas à custa de um gigantesco compromisso de material militar físico e de despesa económica, diminuindo as capacidades americanas em pontos estratégicos-chave, nomeadamente contra a China. Nem os níveis fenomenais de investimento bélico exigidos por Trump ao Congresso americano podem colmatá-las a curto prazo.
Em contrapartida, os contra-ataques iranianos são conduzidos a custos materiais e económicos comparativamente baixos — causando, mesmo assim, danos muito significativos à infra-estrutura militar, económica e material dos Estados vassalos dos EUA na região e estrangulando segmentos significativos do comércio mundial.
Avolumam-se, assim, os riscos económicos e financeiros da continuação da guerra num teatro que é comparativamente secundário para o imperialismo americano.
Avolumam-se também, principalmente, os riscos de insurreição popular contra a guerra nos próprios Estados Unidos. É esse, na realidade, o maior risco para os planos do imperialismo. As reservas que chefias de multinacionais e representantes políticos do imperialismo nos dois grandes partidos cada vez mais exprimem às “loucuras” de Trump têm como pano de fundo esses receios.
O que ditará o curso dos acontecimentos é a luta de classes nos Estados Unidos e no Médio Oriente, a luta de libertação dos povos, em primeiro lugar do povo palestiniano, a luta dos trabalhadores e da juventude em todo o mundo contra a guerra e o imperialismo.